O Papa Leão XIV visitou a Biblioteca Apostólica Vaticana nesta segunda-feira (14/09/2026), data em que completou 71 anos, e anunciou medidas para ampliar os espaços destinados à preservação do patrimônio bibliográfico e documental da Santa Sé. Durante a visita, o Pontífice inaugurou a exposição AQVA, primeira mostra do ciclo “Catástrofe e Maravilha”, e defendeu que a Biblioteca e o Arquivo Apostólico contribuam para a construção de “novos caminhos de reconciliação”.
Leão XIV chegou às 11h27 ao Pátio do Belvedere, onde foi recebido por autoridades responsáveis pelas instituições culturais e administrativas do Vaticano. O Papa também foi cumprimentado à distância por jornalistas e visitantes dos Museus do Vaticano, que cantaram “Feliz cumpleaños” em espanhol em razão de seu aniversário.
O Pontífice foi recebido pelo arcebispo Giovanni Cesare Pagazzi, arquivista e bibliotecário da Santa Igreja Romana; pelo salesiano Mauro Mantovani, prefeito da Biblioteca Apostólica Vaticana; pelo padre Giacomo Cardinali, vice-prefeito da Biblioteca e curador da exposição; pelo agostiniano Rocco Ronzani, prefeito do Arquivo Apostólico Vaticano; e pela irmã Raffaella Petrini, presidente do Governatorato do Estado da Cidade do Vaticano.
Exposição AQVA abre ciclo sobre catástrofe e maravilha
A programação começou com a visita à exposição AQVA, que apresenta uma instalação do artista francês JR formada por uma grande onda em preto e branco. A obra aborda a água em suas diferentes dimensões, como elemento associado à vida e também como força capaz de provocar eventos catastróficos.
A instalação foi inspirada nas gravuras produzidas pelo pintor Gustave Doré para uma edição da Bíblia em francês publicada em 1866. Antes de entrar na exposição, Leão XIV cumprimentou JR, o tipógrafo Bill Moran, o chef Furio Pierangelini e os demais envolvidos na realização da mostra.
A AQVA inaugura o ciclo “Catástrofe e Maravilha”, que propõe uma abordagem interdisciplinar dos elementos naturais como representação dos medos e das esperanças humanas. A água é apresentada, nesse contexto, como geradora de vida e também como força que pode ultrapassar a capacidade de controle das pessoas.
Papa relaciona visita à história de sua mãe
Após percorrer a exposição, Leão XIV dirigiu-se à Biblioteca Apostólica Vaticana e iniciou seu discurso com uma referência à própria história familiar. O Pontífice revelou que sua mãe era bibliotecária, relacionando a profissão dela à visita realizada no dia de seu aniversário.
Ao falar sobre a Biblioteca, o Papa utilizou a imagem da sístole e da diástole para representar os dois movimentos necessários à vida da instituição: a preservação e o estudo do acervo, de um lado, e a abertura ao diálogo e à circulação do conhecimento, de outro.
Leão XIV afirmou que sua primeira visita à Biblioteca como Pontífice, seguindo os passos de seus predecessores, representa um sinal de proximidade e apreço pela missão da Biblioteca e do Arquivo Apostólico. Segundo ele, essas instituições estão a serviço do desenvolvimento e da divulgação da cultura, tanto para a Igreja quanto para a humanidade.
Biblioteca deve unir preservação, pesquisa e diálogo
Em seu discurso, o Papa destacou o papel do silêncio e da leitura no ambiente de uma biblioteca. Segundo a reflexão apresentada, os livros podem proporcionar tranquilidade, mas também despertar inquietação, desejo e disposição para a busca por conhecimento.
Leão XIV recorreu à trajetória de Santo Agostinho, especialmente ao relato presente nas “Confissões”, para ilustrar a relação entre leitura, inquietação interior e busca pela compreensão das Escrituras. Para o Pontífice, o trabalho de conservar, estudar e disponibilizar os livros do Sucessor de Pedro contribui para manter aberta essa busca.
A Biblioteca Apostólica, segundo Leão XIV, não deve ser considerada apenas um banco de livros disponível por meio de computadores. O Papa reconheceu a importância da digitalização e do compartilhamento no ambiente virtual, mas defendeu também a permanência do contato presencial entre pesquisadores, livros, documentos e o espaço físico da instituição.
Acervo reúne diferentes áreas e tradições
Ao abordar a história da Biblioteca, Leão XIV mencionou o pontificado de Leão XIII, período associado à ampliação do acesso da instituição e à abertura do Arquivo Vaticano a pesquisadores de diferentes partes do mundo.
O Pontífice ressaltou que o patrimônio bibliográfico não está restrito à teologia. O acervo reúne obras relacionadas a literatura, filosofia, astronomia, física, matemática, geografia, botânica, zoologia, medicina, história, direito, arte e economia, além de materiais produzidos em diferentes contextos religiosos e culturais.
Para Leão XIV, essa composição demonstra uma tradição de abertura cultural da Igreja. A Biblioteca Apostólica é apresentada como espaço de preservação de diferentes formas de conhecimento e como instituição voltada à pesquisa e à circulação de conteúdos históricos.
“Novos caminhos de reconciliação” entram no discurso do Papa
A inauguração do ciclo de exposições também foi relacionada pelo Papa à possibilidade de utilizar documentos e livros como instrumentos de diálogo. Leão XIV definiu essa perspectiva como uma “diplomacia gentil”, associada ao patrimônio preservado pelo Arquivo e pela Biblioteca do Vaticano.
O Pontífice vinculou essa abordagem às chamadas “portas de reconciliação” mencionadas na encíclica Magnifica humanitas. Na sequência, defendeu que as instituições permaneçam fiéis à própria história, mas utilizem também novas linguagens e meios para enfrentar questões contemporâneas.
“Fiéis ao passado e fiéis ao futuro, com as linguagens e os meios que lhes são próprios, encontrem novos caminhos de reconciliação”, afirmou Leão XIV durante o discurso.
Quirógrafo determina novos espaços para os acervos
Além do discurso, Leão XIV determinou a criação de novos espaços para o Arquivo Apostólico Vaticano e a Biblioteca Apostólica Vaticana por meio de um quirógrafo. O documento destina uma área adicional dentro do Estado da Cidade do Vaticano às duas instituições e determina a construção de um novo edifício.
A medida é justificada pelo aumento do patrimônio bibliográfico da Santa Sé e da produção documental de suas instituições nas últimas décadas. De acordo com o documento, os espaços atualmente disponíveis tornaram-se insuficientes para atender às necessidades de conservação dos acervos.
O quirógrafo recorda que o Papa Francisco havia identificado anteriormente uma área extraterritorial no Latrão para a criação de novos espaços. Nos últimos meses, entretanto, surgiram possibilidades para instalar as estruturas dentro do território do Estado da Cidade do Vaticano, alternativa considerada preferível no documento.
Área da Fontana dell’Autoparco será destinada ao projeto
A determinação de Leão XIV estabelece que a área conhecida como “Fontana dell’Autoparco” e suas imediações seja destinada ao Arquivo Apostólico Vaticano e à Biblioteca Apostólica Vaticana, de acordo com as delimitações previstas em planta anexa ao documento.
O Papa também determinou que seja construído um novo edifício segundo princípios arquitetônicos e tecnológicos atuais, respeitando a legislação vigente. Os espaços deverão ser distribuídos entre o Arquivo e a Biblioteca, com uma parte reservada para outros serviços do Estado da Cidade do Vaticano.
A execução ficará sob responsabilidade do Governatorato do Estado da Cidade do Vaticano, que deverá atuar em conjunto com as duas instituições. O Governatorato participará das despesas relativas aos espaços destinados aos serviços do Estado, enquanto determinados custos, como a realocação da frota de veículos e o novo estacionamento, ficarão a cargo do Arquivo e da Biblioteca.
Vaticano prevê fundação para reunir recursos financeiros
Para reunir os recursos necessários à construção das áreas destinadas às duas instituições, o quirógrafo determina a criação de uma fundação instrumental do Vaticano. A Biblioteca Apostólica e o Arquivo Apostólico deverão atuar como entidades fundadoras e promotoras da estrutura.
A fundação deverá seguir as normas jurídicas e operacionais estabelecidas pelo Motu Proprio sobre as pessoas jurídicas instrumentais da Cúria Romana, publicado em 5 de dezembro de 2022. A medida estabelece uma estrutura específica para a gestão dos recursos vinculados ao projeto.
Enquanto o novo edifício não for concluído, a Biblioteca Apostólica Vaticana continuará utilizando os espaços de armazenamento atualmente ocupados no Pontifício Seminário Romano Maior.
Aniversário do Papa encerra visita à Biblioteca
Após o discurso, Leão XIV recebeu uma homenagem de aniversário com um bolo e uma vela amarela. A visita foi encerrada às 12h57, quando o Pontífice retornou ao Pátio do Belvedere para deixar o local.
Antes da partida, o Papa recebeu um desenho produzido por Lorenzo, de 7 anos, no qual aparece vestido de branco ao lado de um arco-íris e da inscrição “Happy Birthday Pope Leo”. O presente foi entregue de forma espontânea durante a programação.
A visita de 14 de setembro de 2026 reuniu, portanto, três dimensões da atuação da Santa Sé: a abertura cultural representada pela exposição AQVA, a reflexão de Leão XIV sobre a função da Biblioteca Apostólica e a definição de novos espaços físicos e mecanismos de financiamento para preservar o patrimônio bibliográfico e documental do Vaticano.








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