Presidente Xi Jinping cita Armadilha de Tucídides na relação China-EUA e alerta para risco de rivalidade entre grandes potências

A visita de Estado do presidente da China, Xi Jinping, aos Estados Unidos, nesta quinta-feira (24/09/2026), onde é recebido pelo presidente Donald Trump entre 23 e 25 de setembro de 2026, atualiza uma das questões centrais da política internacional contemporânea: se uma potência em rápida ascensão e uma potência estabelecida podem administrar a mudança na distribuição global de poder sem transformar competição em conflito militar. A questão foi formulada diretamente por Xi em 14 de maio de 2026, durante encontro com Trump em Pequim, quando perguntou se China e Estados Unidos conseguiriam superar a chamada “Armadilha de Tucídides” e construir uma nova forma de relacionamento entre grandes potências. O conceito, inspirado na Guerra do Peloponeso, foi formulado modernamente pelo cientista político norte-americano Graham Allison para descrever o risco de guerra quando uma potência ascendente desafia a posição de outra já estabelecida.

A referência de Xi não equivale a uma previsão de guerra. Pelo contrário, integra uma formulação diplomática utilizada pelo dirigente chinês há mais de uma década para sustentar que o confronto sino-americano não seria historicamente inevitável. Em discurso realizado em Seattle, em setembro de 2015, Xi afirmou que não existiria uma Armadilha de Tucídides predeterminada, mas advertiu que sucessivos erros de cálculo estratégico das grandes potências poderiam criar uma armadilha para elas próprias.

A advertência ganha atualidade porque Xi está novamente nos Estados Unidos justamente quando Washington e Pequim procuram administrar divergências relacionadas a comércio, tecnologia, inteligência artificial, Taiwan e segurança internacional. A atual visita é a primeira de Estado do dirigente chinês a Washington em mais de uma década. A Casa Branca confirmou a recepção oficial nesta quinta-feira, enquanto a diplomacia chinesa informou que Xi permanecerá no país até 25 de setembro.

De Tucídides à disputa entre China e Estados Unidos

A origem histórica do conceito remonta ao século V a.C. Tucídides, general e historiador ateniense, registrou a guerra travada entre Atenas e Esparta, cujo principal período se estendeu de 431 a 404 a.C.. Atenas possuía grande poder naval e havia ampliado sua influência através da Liga de Delos; Esparta exercia predominância militar terrestre e liderava a Liga do Peloponeso.

Ao analisar as causas do conflito, Tucídides distinguiu os acontecimentos imediatos de uma transformação estrutural mais profunda. Segundo sua interpretação, o crescimento do poder ateniense e o temor provocado em Esparta constituíram a causa fundamental da guerra. Uma tradução acadêmica publicada pela Cambridge University Press apresenta a formulação no sentido de que os atenienses estavam se tornando mais poderosos, despertaram temor nos espartanos e, dessa maneira, os pressionaram em direção ao conflito.

A guerra, entretanto, não começou simplesmente porque Atenas havia se tornado poderosa. Antes do confronto geral existiram sucessivas disputas envolvendo Corinto, Córcira, Potideia, Mégara e Plateia, além da ruptura progressiva da Paz dos Trinta Anos. Os chamados Decretos Megarianos, as disputas sobre Potideia e o conflito envolvendo aliados das duas coalizões contribuíram para transformar a rivalidade estrutural em guerra aberta.

Graham Allison transforma a interpretação histórica em conceito de relações internacionais

A expressão “Armadilha de Tucídides” não foi criada pelo próprio Tucídides. A formulação contemporânea foi desenvolvida e popularizada por Graham Allison, professor da Harvard Kennedy School, que passou a utilizá-la para analisar situações nas quais uma potência em ascensão modifica o equilíbrio existente e desperta insegurança na potência dominante.

Allison e pesquisadores ligados ao Belfer Center examinaram 16 episódios históricos dos últimos aproximadamente 500 anos que classificaram como situações em que uma potência ascendente confrontou uma potência estabelecida. Segundo essa pesquisa, 12 terminaram em guerra e quatro não resultaram em conflito armado entre os principais concorrentes. A categorização pertence ao modelo desenvolvido pelo pesquisador e não constitui uma lei histórica universalmente aceita.

A tese ganhou projeção internacional com o livro Destined for War: Can America and China Escape Thucydides’s Trap?, publicado em 2017. Allison aplicou o modelo especificamente à relação entre Estados Unidos e China e argumentou que alterações aceleradas na distribuição relativa de poder podem aumentar o risco de crises, erros de interpretação e escaladas não planejadas.

O elemento central da teoria não é a afirmação de que uma guerra sempre ocorrerá. O problema seria o surgimento de uma estrutura de desconfiança recíproca na qual ações tomadas por um Estado para aumentar sua própria segurança sejam interpretadas pelo outro como preparação ofensiva.

Nesse tipo de dinâmica, disputas que isoladamente poderiam permanecer limitadas podem passar a funcionar como pontos de ruptura.

Atenas e Esparta como analogia para China e Estados Unidos

Na aplicação feita por Allison à realidade contemporânea, China corresponde à potência ascendente, posição comparada à de Atenas, enquanto os Estados Unidos representam a potência estabelecida, numa analogia com Esparta. Trata-se de um recurso analítico, não de uma equivalência histórica entre os dois períodos.

A comparação procura identificar principalmente uma transformação relativa do poder. Nas últimas décadas, a China ampliou sua presença econômica, industrial, tecnológica, diplomática e militar. Os Estados Unidos, por sua vez, permanecem no centro de uma ampla estrutura internacional de poder econômico, financeiro, tecnológico, militar e de alianças.

Nesse enquadramento, a questão relevante não depende de uma substituição imediata de uma potência por outra. O problema surge quando mudanças na capacidade relativa dos Estados alteram percepções sobre segurança, influência, mercados, tecnologia e liberdade de ação.

É por isso que a Armadilha de Tucídides é frequentemente relacionada ao chamado dilema de segurança: medidas consideradas defensivas por um país podem ser percebidas como ameaçadoras pelo adversário, produzindo respostas que, por sua vez, confirmam os temores originais.

Xi Jinping já rejeitava uma guerra inevitável em 2015

A apropriação chinesa do conceito antecede o atual ciclo de encontros entre Xi e Trump.

Em 2015, durante visita aos Estados Unidos, Xi afirmou que não existiria uma espécie de mecanismo histórico automático condenando potências estabelecidas e emergentes à guerra. Sua advertência, contudo, continha uma ressalva: grandes países poderiam produzir essa situação por sucessivos erros de cálculo.

Essa distinção é fundamental para compreender a mensagem política chinesa. Pequim utiliza a referência histórica para sustentar que a ascensão econômica e estratégica chinesa não deveria ser considerada pelos Estados Unidos, por definição, uma ameaça que exige contenção militar.

Essa é a posição apresentada pelo governo chinês. Ela não elimina as divergências existentes nem significa que Washington compartilhe integralmente o diagnóstico de Pequim.

Em outubro de 2023, ao receber uma delegação do Senado dos Estados Unidos, Xi retomou o argumento, afirmando que a Armadilha de Tucídides não seria inevitável e que haveria espaço para o desenvolvimento dos dois países.

Xi retoma o conceito diante de Trump em maio de 2026

A referência ganhou novo significado em 14 de maio de 2026, quando Xi recebeu Trump no Grande Palácio do Povo, em Pequim.

Segundo o Ministério das Relações Exteriores da China, Xi perguntou durante a reunião se China e Estados Unidos seriam capazes de “superar a Armadilha de Tucídides” e estabelecer um novo paradigma para as relações entre grandes potências.

A declaração colocou explicitamente o encontro entre os dois dirigentes dentro de uma perspectiva histórica de transição de poder.

Xi associou a questão a outras perguntas sobre a capacidade de Washington e Pequim de administrar desafios globais e oferecer estabilidade internacional. O governo chinês apresentou a relação bilateral como uma responsabilidade que ultrapassaria os interesses exclusivamente nacionais dos dois países.

O Jornal Grande Bahia (JGB) registrou naquela ocasião a cúpula realizada em Pequim, incluindo as divergências envolvendo Taiwan, as relações econômicas e a tentativa dos dois governos de manter canais políticos abertos.

Visita de Xi a Washington recoloca a teoria no centro da atualidade

A discussão adquiriu nova dimensão nesta semana.

Xi chegou aos Estados Unidos em 23 de setembro de 2026, acompanhado, entre outros integrantes da delegação chinesa, por Peng Liyuan, pelo dirigente Cai Qi e pelo ministro das Relações Exteriores Wang Yi. O governo chinês informou que a viagem ocorre a convite de Trump.

Trump recebeu Xi e Peng Liyuan na Base Conjunta Andrews, em Maryland. A Casa Branca programou para esta quinta-feira uma cerimônia oficial de chegada e a agenda da visita de Estado.

Em declaração escrita ao desembarcar, Xi voltou a defender que China e Estados Unidos deveriam ser parceiros, e não adversários. Segundo o dirigente chinês, os projetos nacionais de desenvolvimento dos dois países poderiam coexistir. Pequim apresentou como objetivo uma relação marcada por cooperação predominante, competição controlada e divergências administráveis.

A declaração representa a posição oficial chinesa sobre como a competição bilateral deveria ser administrada. Não significa, por si só, que tenham sido resolvidas as divergências estruturais entre os dois governos.

Comércio, inteligência artificial e Taiwan concentram pontos de tensão

As conversações de setembro ocorrem em meio a disputas que demonstram por que a analogia de Tucídides permanece presente no debate internacional.

Segundo a Reuters, comércio, tecnologia, Taiwan e questões de segurança internacional continuam entre os principais pontos de tensão. A reunião de Washington é o segundo encontro presidencial entre Xi e Trump em 2026, depois da cúpula de maio em Pequim.

A competição tecnológica ganhou uma dimensão adicional com o desenvolvimento da inteligência artificial. Representantes dos dois governos discutiram recentemente mecanismos de diálogo sobre segurança de IA e protocolos de comunicação para incidentes envolvendo essa tecnologia. Outra rodada foi prevista para ocorrer na China.

Taiwan continua sendo um dos temas de maior sensibilidade política e militar. Às vésperas do encontro em Washington, o embaixador chinês nos Estados Unidos classificou questões relacionadas a Taiwan entre os temas considerados linhas fundamentais pela diplomacia chinesa.

Pequim considera Taiwan parte do território chinês. Os Estados Unidos mantêm relações não oficiais com Taipé e há décadas adotam uma política própria em relação ao estreito, tornando a questão um dos pontos mais complexos da relação sino-americana.

O risco não depende de uma decisão deliberada de iniciar uma guerra

A principal contribuição analítica da metáfora de Tucídides está justamente em diferenciar intenção de resultado.

Duas potências podem considerar uma guerra indesejável e, ainda assim, aproximar-se dela caso sucessivas decisões alterem a percepção de segurança dos dois lados.

Uma possível sequência pode ocorrer quando o primeiro país amplia capacidades militares alegando necessidades defensivas; o segundo interpreta a mudança como ameaça; responde fortalecendo alianças e capacidades próprias; e a resposta passa a ser interpretada pelo primeiro como confirmação de uma política de contenção.

O ciclo não determina necessariamente a guerra. Ele aumenta, entretanto, a relevância de comunicação entre governos, mecanismos de prevenção de crises e capacidade de limitar escaladas.

Allison utiliza a experiência da Primeira Guerra Mundial como uma referência adicional para discutir como acontecimentos localizados podem interagir com alianças, mobilizações militares e percepções de ameaça, produzindo consequências superiores às inicialmente pretendidas pelos governos envolvidos.

Analogia histórica encontra críticas entre especialistas

A Armadilha de Tucídides possui ampla influência no debate de relações internacionais, mas sua utilização também recebe críticas acadêmicas.

Em artigo publicado pela Cambridge University Press em 26 de março de 2026, o historiador Neville Morley, professor da Universidade de Exeter, advertiu contra leituras excessivamente simplificadas de Tucídides. Segundo o pesquisador, referências contemporâneas ao historiador grego frequentemente transformam uma narrativa histórica complexa em uma espécie de fórmula universal da política internacional.

Essa crítica é relevante porque o próprio relato da Guerra do Peloponeso mostra que a mudança estrutural no equilíbrio de poder não foi o único elemento envolvido.

Havia disputas sobre alianças, comércio, cidades associadas às duas coalizões, compromissos militares e decisões políticas específicas. Potideia, Mégara, Corinto e Plateia aparecem entre os acontecimentos que contribuíram para a passagem da tensão estrutural à guerra aberta.

O debate acadêmico, portanto, não precisa ser reduzido à escolha entre aceitar ou rejeitar completamente o conceito.

A metáfora pode ser utilizada como instrumento para identificar riscos associados a transições de poder, desde que não seja transformada em uma lei determinista segundo a qual toda ascensão de uma grande potência produzirá necessariamente uma guerra.

A frase de Tucídides também permite interpretações menos deterministas

Outra controvérsia envolve a própria tradução da passagem mais conhecida da obra.

A versão frequentemente utilizada por Allison afirma que a ascensão de Atenas e o temor provocado em Esparta “tornaram a guerra inevitável”. Algumas traduções acadêmicas, entretanto, empregam formulações menos deterministas.

A edição publicada pela Cambridge University Press traduz a passagem no sentido de que o aumento do poder ateniense provocou medo nos espartanos e os forçou ou pressionou em direção à guerra.

A diferença linguística produz consequências analíticas relevantes.

Se a guerra era literalmente inevitável, decisões individuais teriam pouca capacidade de alterar o resultado.

Se a mudança na distribuição de poder apenas aumentava as pressões em direção ao conflito, então diplomacia, liderança política, alianças, instituições e decisões estratégicas permaneciam capazes de modificar o desfecho.

Essa segunda interpretação se aproxima, inclusive, do uso que Xi faz do conceito: estruturas criam riscos, mas governos podem agravá-los ou administrá-los.

A disputa também envolve diferentes narrativas sobre a ordem internacional

A referência chinesa à Armadilha de Tucídides possui ainda uma dimensão diplomática.

Ao afirmar que China e Estados Unidos podem coexistir, Pequim procura contestar uma interpretação segundo a qual o crescimento da capacidade chinesa necessariamente representaria uma ameaça incompatível com os interesses norte-americanos.

Washington, contudo, possui preocupações próprias relacionadas à segurança regional, comércio, tecnologia, Taiwan e à competição estratégica mais ampla.

Essas diferenças demonstram que a questão central não está apenas na quantidade de poder acumulado pelos dois Estados, mas também na maneira como cada governo interpreta as intenções e os objetivos do outro.

Essa dimensão perceptiva aproxima o debate contemporâneo da observação original de Tucídides: não era apenas o crescimento objetivo do poder ateniense que importava, mas também o medo provocado em Esparta por esse crescimento.

O precedente histórico não determina o futuro

O próprio levantamento de Allison contém casos em que alterações significativas na distribuição internacional de poder não terminaram em guerra.

Dos 16 casos classificados pelo pesquisador, quatro tiveram transições ou rivalidades administradas sem confronto militar direto entre as principais potências.

A Guerra Fria oferece um exemplo frequentemente utilizado nesse debate. Estados Unidos e União Soviética mantiveram uma rivalidade global durante décadas, acumularam arsenais nucleares e enfrentaram crises graves, mas evitaram uma guerra militar direta entre as duas superpotências. Allison destaca mecanismos de dissuasão, controle de armas e restrições recíprocas como componentes daquela experiência histórica.

A existência de armas nucleares torna a comparação contemporânea ainda mais complexa. Diferentemente do mundo de Atenas e Esparta, uma guerra direta entre grandes potências nucleares apresenta potenciais consequências que alteram profundamente o cálculo estratégico.

Por isso, Tucídides fornece uma referência histórica, mas não um roteiro obrigatório para o século XXI.

Linha do tempo dos principais acontecimentos

  • Século V a.C. — ascensão de Atenas: Atenas amplia seu poder naval e sua influência sobre a Liga de Delos, enquanto Esparta permanece como principal potência terrestre da Grécia. Tucídides posteriormente identifica o crescimento ateniense e o medo espartano como causa estrutural do conflito.
  • 431 a.C. — início da Guerra do Peloponeso: depois de disputas envolvendo aliados e interesses de Atenas e Esparta, a guerra aberta começa. O conflito principal prossegue até 404 a.C., quando Atenas é derrotada.
  • 2012 — formulação contemporânea ganha projeção: Graham Allison publica análise relacionando a dinâmica descrita por Tucídides à ascensão chinesa e à posição internacional dos Estados Unidos.
  • Setembro de 2015 — Xi Jinping fala em Seattle: o presidente chinês afirma que não existe uma Armadilha de Tucídides inevitável, mas sustenta que sucessivos erros estratégicos de grandes potências podem criar uma.
  • 2017 — Allison publica Destined for War: o livro consolida a aplicação do conceito à relação entre China e Estados Unidos e apresenta os 16 casos históricos, dos quais 12 foram classificados pelo pesquisador como terminados em guerra.
  • Outubro de 2023 — Xi retoma o conceito: em encontro com senadores norte-americanos, afirma que a Armadilha de Tucídides não é inevitável e defende espaço para desenvolvimento simultâneo de China e Estados Unidos.
  • 14/05/2026 — encontro Xi-Trump em Pequim: Xi pergunta diretamente se os dois países podem “superar a Armadilha de Tucídides” e estabelecer um novo paradigma para as relações entre grandes potências.
  • 23/09/2026 — Xi chega aos Estados Unidos: o dirigente chinês inicia visita de Estado a convite de Trump e é recebido na Base Conjunta Andrews.
  • 24/09/2026 — agenda oficial em Washington: Trump e Xi realizam a visita de Estado em meio a negociações e divergências envolvendo comércio, tecnologia, inteligência artificial, Taiwan e outros temas estratégicos.
  • 25/09/2026 — previsão de encerramento da visita: segundo o anúncio oficial da diplomacia chinesa, a viagem de Xi aos Estados Unidos está programada para terminar nesta data.

A Armadilha de Tucídides é mais útil como instrumento para identificar riscos do que como mecanismo de previsão. O precedente ateniense-espartano demonstra como transformações na distribuição de poder podem produzir insegurança, endurecer percepções e tornar disputas periféricas progressivamente mais perigosas. Ao mesmo tempo, a Guerra do Peloponeso mostra que estruturas não atuam isoladamente: decisões políticas, sistemas de alianças, conflitos comerciais, compromissos militares e crises específicas também influenciaram o caminho até 431 a.C.

No caso contemporâneo, a afirmação de Xi de que China e Estados Unidos podem evitar a armadilha constitui uma posição política do governo chinês, não uma conclusão objetiva sobre a evolução futura da relação. Da mesma forma, o modelo de Allison permanece uma interpretação influente, mas contestada: seus 16 casos históricos dependem de critérios de seleção e classificação e não demonstram, por si mesmos, que um confronto sino-americano seja inevitável.

Os fatos atualmente verificáveis mostram simultaneamente cooperação e rivalidade. Trump recebe Xi em Washington, os governos mantêm canais de negociação e representantes dos dois países discutem inclusive mecanismos relacionados à segurança da inteligência artificial; paralelamente, persistem divergências sobre comércio, tecnologia, Taiwan e segurança estratégica. A questão a acompanhar é se esses mecanismos serão capazes de impedir que crises específicas sejam incorporadas a uma lógica crescente de confronto.

A relevância pública da referência de Xi está justamente nessa distinção: Tucídides não fornece uma profecia sobre uma futura guerra entre China e Estados Unidos; fornece um problema histórico sobre como Estados administram mudanças profundas de poder. Os próximos desdobramentos dependerão das decisões dos governos de Xi Jinping e Donald Trump, das políticas relacionadas a comércio, tecnologia e segurança, dos mecanismos de comunicação bilateral e, especialmente, da administração das questões capazes de provocar escalada militar. A visita de Estado de setembro de 2026 oferece, portanto, mais um teste concreto da capacidade das duas maiores economias do mundo de combinar competição estratégica com mecanismos destinados a impedir que rivalidade se converta em confronto.


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