A volta às aulas em Kiev nesta semana ocorreu em meio à continuidade dos ataques russos contra a capital da Ucrânia, com drones e mísseis atingindo ou ameaçando diferentes áreas da cidade. Pela quinta vez desde o início da invasão russa, crianças e professores retomaram as atividades em um ambiente marcado por sirenes, interrupções e protocolos de segurança adaptados à guerra.
Segundo o jornal Libération, citado no relato, a Rússia passou a empregar desde a semana anterior drones a jato, mais rápidos do que os modelos Shahed utilizados anteriormente, ampliando a pressão sobre as defesas ucranianas. Em uma escola do distrito de Obolon, no norte de Kiev, a cerimônia de abertura do ano letivo foi transferida para o interior do prédio e interrompida por um alerta aéreo.
A rotina dos moradores também passou a ser organizada conforme os períodos de alerta. Compras são realizadas entre os intervalos dos ataques, medicamentos são armazenados e abrigos e estações de metrô são utilizados durante as noites, enquanto atividades comerciais e serviços públicos podem ser interrompidos quando há risco de novos bombardeios.
Estratégia russa busca pressionar a população de Kiev
O filósofo ucraniano Volodymyr Yermolenko, citado pelo Libération, avalia que a estratégia russa busca manter uma pressão contínua sobre a população civil. Segundo sua interpretação, a sucessão de ataques pretende dificultar o sono, o planejamento e a organização cotidiana dos moradores.
O analista geopolítico Ulrich Bounat, pesquisador associado da Euro Créative e entrevistado pela RFI, também apontou efeitos diretos sobre o funcionamento da capital. Conforme sua avaliação, os alertas aéreos provocam paralisações no transporte, interrupções no funcionamento do metrô, restrições à circulação em pontes e fechamento de lojas e centros comerciais.
A ofensiva combina grandes volumes de drones, drones a jato e mísseis balísticos, segundo a análise apresentada no texto. A capacidade de resposta ucraniana é afetada pela escassez de interceptadores e de mísseis Patriot americanos, enquanto os ataques também são relacionados à preparação para o próximo inverno.
Ucrânia adapta estrutura militar à guerra de drones
O Le Monde analisou a resposta ucraniana à ampliação da guerra aérea a partir da atuação do coronel Pavlo Yelizarov, fundador da unidade de drones Lasar. A formação militar é apresentada como parte dos esforços para aumentar a capacidade operacional da Ucrânia diante do emprego crescente de sistemas aéreos não tripulados pela Rússia.
Antes de ingressar na estrutura militar, Yelizarov atuou como empresário e produtor de televisão. Segundo o relato, ele organizou sua unidade a partir de um modelo inspirado no McDonald’s, com estrutura padronizada e integrada, buscando reproduzir procedimentos e resultados em diferentes setores da linha de frente.
Para o coronel, a guerra aérea passou a ocupar posição central no conflito. Sua avaliação é de que a Rússia procura destruir estruturas na retaguarda ucraniana para enfraquecer posteriormente as posições militares na frente de combate, transformando os ataques contra cidades e infraestrutura em parte da estratégia operacional.
Alemanha acusa Rússia de ataque híbrido em Leipzig
Paralelamente à situação em Kiev, a Alemanha ampliou a pressão diplomática sobre Moscou após acusar a Rússia de envolvimento em um ataque híbrido contra o Aeroporto de Leipzig, ocorrido em agosto. O terminal é considerado relevante para o transporte de equipamentos militares destinados ao Exército alemão e a aliados da Otan.
Nesta terça-feira (01/09/2026), o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, manifestou solidariedade à Alemanha após conversar com o chanceler Friedrich Merz. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, também declarou apoio a Berlim e afirmou que a União Europeia pretende manter a unidade diante do que classificou como aumento de ações desse tipo.
A Alemanha afirma que o episódio faz parte de um contexto mais amplo de operações de desestabilização, espionagem e sabotagem atribuídas a Moscou desde o início da guerra na Ucrânia, em fevereiro de 2022. A Rússia, por sua vez, é apontada pelas autoridades ocidentais como responsável por ações destinadas a pressionar governos europeus e reduzir o apoio à Ucrânia.
Aliados europeus apoiam resposta de Berlim
Além da Otan e da União Europeia, a Suécia anunciou medidas diplomáticas após o episódio. O primeiro-ministro Ulf Kristersson informou que o embaixador russo seria convocado para receber um protesto formal e declarou apoio da Suécia à Alemanha e à Ucrânia.
Reino Unido, Polônia e Estônia também manifestaram apoio à reação alemã. O posicionamento dos países ocorre em um momento de ampliação das discussões dentro da Europa sobre proteção de infraestrutura crítica, espionagem, sabotagem e outras formas de interferência atribuídas a governos estrangeiros.
Em resposta, Berlim anunciou medidas contra instituições e representantes russos. Entre elas está o fechamento do último consulado russo em Bonn e da Casa Russa da Ciência e Cultura, em Berlim, previsto para 18/09/2026, além da intenção de propor novas inclusões de cidadãos russos nas listas de sanções da União Europeia.
Investigação aponta drone com explosivos em aeroporto alemão
O episódio de Leipzig teve início, segundo o relato, no começo de agosto, quando um drone carregado com explosivos foi localizado na área de carga segura do aeroporto, próximo a aeronaves de carga ucranianas. O artefato foi neutralizado por um robô utilizado pela polícia alemã.
Posteriormente, outro drone teria atingido um avião cargueiro da DHL, enquanto um segundo equipamento também teria sido localizado nas proximidades do aeroporto com vestígios de explosivos. As circunstâncias dos episódios passaram a ser investigadas pelas autoridades alemãs.
O ministro do Interior da Alemanha, Alexander Dobrindt, afirmou que as investigações policiais, o modo de operação e informações dos serviços de inteligência apontam para a responsabilidade russa. Segundo o ministro, o episódio não deve ser analisado isoladamente, mas como parte de um conjunto mais amplo de ações híbridas.
Berlim amplia medidas contra estruturas ligadas à Rússia
Dobrindt e o ministro das Relações Exteriores, Johann Wadephul, afirmaram que a importância estratégica do Aeroporto de Leipzig para o apoio à Ucrânia aumenta a relevância do episódio. Wadephul também anunciou que a Alemanha pretende elevar a pressão sobre a chamada frota fantasma russa, formada por embarcações utilizadas para contornar sanções internacionais.
Outro incidente ocorreu na mesma terça-feira, quando um dispositivo explosivo improvisado danificou linhas de transmissão de energia próximas a uma usina termelétrica no leste da Alemanha. A polícia informou o caso, mas não apresentou informações sobre possíveis responsáveis.
Diante do aumento das ameaças, o governo alemão apresentou, em meados de agosto, uma reforma dos serviços de inteligência, com ampliação dos poderes atribuídos às estruturas responsáveis por atuar contra ameaças à segurança nacional.
Aeroporto de Leipzig tem função estratégica no apoio à Ucrânia
O Aeroporto de Leipzig desempenha papel relevante no transporte de equipamentos militares para o Exército alemão e para países aliados da Otan, de acordo com as informações apresentadas pelas autoridades alemãs. O complexo também é utilizado como base pela fabricante ucraniana de aeronaves Antonov.
A localização e a função logística do aeroporto fizeram com que o episódio fosse tratado por Berlim como uma questão relacionada à segurança nacional e ao apoio europeu à Ucrânia. A avaliação alemã é de que a escolha do local não teria ocorrido de maneira aleatória.
O chanceler Friedrich Merz afirmou anteriormente que os responsáveis por ataques híbridos contra a Alemanha enfrentariam consequências. O governo alemão passou, desde então, a discutir medidas de retaliação e novas formas de proteção contra ações atribuídas a agentes estrangeiros.
Casa Russa entra no centro da disputa política
Entre as medidas anunciadas por Berlim está o fechamento da Casa Russa da Ciência e Cultura, instituição localizada próxima à embaixada da Rússia e instalada em edifício construído em 1984, na antiga Berlim Oriental.
O deputado conservador Roderich Kiesewetter afirmou, em entrevista à Welt TV, que o espaço poderia funcionar como plataforma para agentes de inteligência russos. O parlamentar também levantou questionamentos sobre a presença de pessoas no edifício e sobre o consumo de energia do local.
Até o momento apresentado no relato, o governo alemão vinha defendendo a manutenção da instituição em razão de um acordo bilateral relacionado ao Instituto Goethe em Moscou. A decisão de encerramento representa, portanto, uma mudança na política de Berlim em relação à instituição.
Guerra amplia impacto sobre civis e relações europeias
Os acontecimentos em Kiev e Leipzig representam dimensões distintas do mesmo conflito. Na capital ucraniana, os efeitos aparecem diretamente na rotina da população, com escolas, transporte, comércio e atividades cotidianas condicionados aos alertas e aos ataques aéreos.
Na Alemanha, a preocupação está concentrada na possibilidade de operações híbridas contra infraestrutura estratégica, em um contexto de apoio militar e logístico à Ucrânia. As acusações alemãs também provocaram manifestações de solidariedade da Otan, da União Europeia e de governos aliados.
A continuidade dos ataques russos contra a Ucrânia e o aumento das acusações de ações híbridas em território europeu indicam que os efeitos da guerra permanecem além da linha de frente. A segurança da população civil, a proteção de infraestrutura crítica e a manutenção do apoio europeu à Ucrânia permanecem entre os principais pontos de tensão do conflito.
*Com informações da RFI.








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