Na terça-feira (13/10/2026), em Brasília, o governador Jerônimo Rodrigues participou da assinatura de um acordo de cooperação técnica entre o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), por meio da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), e a Secretaria de Desenvolvimento Rural da Bahia (SDR), por intermédio da Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR), destinado a estruturar pesquisa, monitoramento e previsão da safra de cacau na Bahia. O objetivo é produzir informações capazes de orientar produtores, cooperativas, indústria e governos em decisões sobre cultivo, comercialização, crédito, seguro agrícola, investimentos e políticas públicas.
A iniciativa ocorre em um momento de recuperação da produção estadual. O Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA) do IBGE, referente a agosto de 2026, estima aproximadamente 137 mil toneladas de cacau na Bahia, crescimento de 15,4% na comparação com 2025.
O acordo busca transformar o acompanhamento da lavoura em um sistema mais regular e integrado, aproximando a experiência técnica da Ceplac da atuação territorial da CAR e das políticas estaduais de desenvolvimento rural.
Acordo pretende preencher lacuna de informação sobre a safra
A previsão de safra permitirá estimar antecipadamente o volume de produção, acompanhar o desempenho das lavouras e ampliar a base de informações disponível para decisões econômicas.
Para os produtores, os dados poderão auxiliar no planejamento do custeio, contratação de mão de obra, compra de insumos, obtenção de crédito, contratação de seguro e definição de estratégias de venda.
Cooperativas e indústrias poderão utilizar as estimativas para programar armazenamento, beneficiamento, processamento e aquisição de matéria-prima. Para o poder público, o levantamento poderá subsidiar políticas de assistência técnica, pesquisa, defesa sanitária, financiamento, infraestrutura e comercialização.
Jerônimo Rodrigues afirmou que a integração entre os governos federal e estadual, a Ceplac e os demais agentes do setor pretende ampliar o conhecimento sobre a capacidade produtiva baiana.
“Estamos unindo esforços entre o Governo Federal, por meio do Ministério da Agricultura e da Ceplac, o setor empresarial e o Governo do Estado para conhecer melhor a capacidade de produção de cacau da Bahia. Esse diagnóstico é fundamental para nos anteciparmos às necessidades do setor, planejarmos políticas públicas e construirmos iniciativas que contribuam para fortalecer a atividade e dar melhores condições aos produtores.”
Segundo o governador, a proposta também busca reforçar a posição estratégica da cacauicultura na economia e na estrutura produtiva rural da Bahia.
CAR afirma que levantamento técnico já começou
O diretor-presidente da CAR, Jeandro Ribeiro, informou que os trabalhos destinados à construção da previsão de safra já foram iniciados.
“Já iniciamos o trabalho para construir a previsão de safra de cacau na Bahia. Esse acompanhamento vai qualificar as informações sobre o desempenho da lavoura e oferecer subsídios importantes para orientar ações, investimentos e políticas públicas voltadas ao setor.”
A CAR será uma das instituições responsáveis pela articulação territorial do levantamento, especialmente em áreas onde a produção de cacau está vinculada à agricultura familiar e a políticas de desenvolvimento rural.
A secretária estadual de Desenvolvimento Rural, Elisabete Costa, afirmou que o acordo permitirá aperfeiçoar a formulação de políticas direcionadas à cadeia produtiva.
“Essa parceria fortalece a articulação entre as instituições e aprimora o planejamento das ações voltadas à cacauicultura baiana. Com informações atualizadas sobre a produção, podemos qualificar as políticas públicas, valorizar os produtores e ampliar as oportunidades para o desenvolvimento rural.”
Seagri defende acompanhamento semelhante ao de outras culturas
O secretário estadual da Agricultura, Pecuária, Irrigação, Pesca e Aquicultura, Vivaldo Góis, destacou que a intenção é estabelecer para o cacau um acompanhamento sistemático semelhante ao já existente para culturas como soja, milho, café e algodão.
Segundo ele, a Seagri participou da articulação entre os governos estadual e federal e pretende integrar o acordo ao Plano Estadual da Cacauicultura.
“A Seagri, como órgão formulador e articulador dessas políticas públicas, atua para reunir os governos estadual e federal em torno do acordo. Garantimos que ele siga o Plano Estadual da Cacauicultura, com equilíbrio entre a agricultura familiar e o agronegócio de média e grande escala. E levamos à agenda de pesquisas as demandas das Câmaras Setoriais.”
A preocupação com a qualidade das informações agropecuárias já vinha sendo discutida pelo Governo da Bahia. Em 6 de maio de 2026, Seagri e Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI) trataram da integração e do aperfeiçoamento de bases de dados do setor.
IBGE estima 137 mil toneladas de cacau na Bahia em 2026
O levantamento do IBGE referente a agosto projeta aproximadamente 137 mil toneladas de cacau no estado em 2026.
A estimativa representa aumento de 15,4% em relação a 2025 e mostra recuperação das lavouras ao longo do ano.
Em janeiro, a projeção era de aproximadamente 125 mil toneladas, crescimento previsto de 5,3%. Em maio, a estimativa já havia avançado para cerca de 137 mil toneladas.
A mudança dos números durante o ano demonstra a natureza própria das previsões agrícolas, que são revisadas de acordo com o comportamento das lavouras, a produtividade observada, as condições climáticas e a evolução da área colhida.
O levantamento referente a setembro tem divulgação prevista pelo IBGE para 15/10/2026, podendo alterar novamente as projeções.
Declaração sobre liderança nacional exige contextualização
Na divulgação do acordo, Vivaldo Góis afirmou que a Bahia é a maior produtora de cacau do Brasil.
Os dados mais recentes consolidados da Produção Agrícola Municipal (PAM) de 2025, entretanto, apontam o Pará como maior produtor nacional.
Naquele levantamento, o Brasil produziu 314.364 toneladas de cacau. O valor da produção paraense foi de aproximadamente R$ 6,16 bilhões, enquanto o da Bahia alcançou cerca de R$ 5,80 bilhões.
A posição dos dois estados tem oscilado nos últimos anos.
Em 2023, a Bahia havia produzido 139.011 toneladas, ligeiramente acima das 138.471 toneladas registradas no Pará.
A diferença mostra a necessidade de distinguir dados consolidados de produção e estimativas conjunturais. A PAM registra a produção anual dos municípios, enquanto o LSPA acompanha mensalmente a evolução das expectativas para o ano corrente.
Previsão de safra já estava na agenda do setor
A criação de um sistema estruturado de previsão não surgiu apenas com o acordo assinado em outubro.
Em 4 de fevereiro de 2026, durante a primeira reunião da Comissão Estadual para Fortalecimento da Cacauicultura, produtores e representantes do poder público discutiram preços, importações, regras fitossanitárias, comercialização e mecanismos de planejamento.
Entre as medidas apresentadas estava justamente a implantação de um sistema de previsão de safra.
O acordo de outubro representa, portanto, um desdobramento institucional de uma demanda que vinha sendo discutida pelo setor ao longo do ano.
Informações mais precisas sobre a oferta podem contribuir para decisões relacionadas à comercialização, capacidade industrial, estoques e necessidade de importações, embora preços e fluxos comerciais dependam também de fatores como mercado internacional, câmbio, demanda e custos de produção.
Ceplac já desenvolveu metodologia para previsão de produção
A pesquisa sobre estimativas de safra de cacau possui antecedentes técnicos.
Em 2018, trabalho publicado na revista científica Agrotrópica, vinculada à Ceplac, apresentou um método empírico de previsão de safras de cacau.
O estudo destacou a importância de estimativas confiáveis e produzidas com antecedência para apoiar produtores, indústrias e demais agentes da cadeia.
A novidade do acordo de 2026 está, portanto, menos na criação do conceito de previsão e mais na tentativa de institucionalizar e ampliar um sistema regular de acompanhamento estadual.
Plano Inova Cacau 2030 amplia contexto da iniciativa
O acordo também se insere em uma política nacional mais ampla.
Em 26 de maio de 2026, o Mapa instituiu, por meio da Portaria nº 909, o Plano Inova Cacau 2030.
O programa estabelece ações destinadas ao aumento da produtividade, melhoria da qualidade das amêndoas, ampliação da renda dos produtores e fortalecimento da posição brasileira no mercado internacional.
Nesse contexto, a produção de informações estatísticas torna-se instrumento essencial para avaliar produtividade, desempenho das políticas públicas e evolução da cadeia produtiva.
Sul concentra tradição produtiva e Oeste amplia fronteira do cacau
A cacauicultura permanece historicamente associada ao Sul e ao Baixo Sul da Bahia, onde a atividade possui relevância econômica, social e cultural.
A região concentra municípios tradicionalmente vinculados à produção, ao beneficiamento e ao processamento de cacau.
Nos últimos anos, entretanto, experiências de cultivo vêm avançando em áreas não tradicionais, especialmente no Oeste da Bahia, onde sistemas irrigados e novas tecnologias passaram a integrar o debate produtivo.
Em setembro de 2026, reunião da Câmara Setorial do Cacau, realizada em Barreiras, discutiu a integração entre os polos do Sul e do Oeste, além de temas como cooperativismo, comercialização e competitividade.
Essa diversidade produtiva reforça a necessidade de levantamentos regionalizados capazes de distinguir sistemas tradicionais, agricultura familiar, propriedades empresariais e áreas irrigadas.
Cabruca associa produção e conservação ambiental
Uma das particularidades da produção baiana é o sistema cacau-cabruca, no qual os cacaueiros são cultivados sob árvores remanescentes da Mata Atlântica.
Material técnico da Ceplac estima que esse modelo corresponda a cerca de 60% da área cacaueira da Bahia.
O sistema contribui para a manutenção do sombreamento, da biodiversidade, do microclima e de serviços ambientais importantes para as propriedades rurais.
Em abril de 2026, a Ceplac lançou, em Ilhéus, projeto de conservação e manejo sustentável das paisagens cacaueiras, com participação da FAO e financiamento do Fundo Global para o Meio Ambiente.
A iniciativa prevê atendimento a 3 mil produtores, restauração de 12 mil hectares de cacau-cabruca e aprimoramento da gestão de aproximadamente 203 mil hectares de áreas protegidas.
Cacau fino e industrialização ampliam agregação de valor
A cadeia baiana também passa por mudanças no perfil econômico.
Além da comercialização tradicional de amêndoas, cresceram iniciativas relacionadas ao cacau fino, chocolates de origem, produção bean-to-bar, agroindústrias familiares, cooperativismo e turismo rural.
Projetos como Bahia Cacau e Natucoa representam modelos em que produtores e cooperativas incorporam etapas de beneficiamento e fabricação de chocolate.
Nesse segmento, uma previsão de safra confiável também pode melhorar o planejamento do fornecimento de matéria-prima e da capacidade de processamento.
Da crise da vassoura-de-bruxa à reconstrução produtiva
A importância histórica da nova iniciativa também precisa ser compreendida à luz da trajetória da cacauicultura baiana.
A Ceplac foi criada em 20 de fevereiro de 1957, em um período no qual o cacau possuía papel central na economia regional.
A partir de 1989, a disseminação da vassoura-de-bruxa, somada a problemas de preços, crédito e produtividade, provocou uma profunda crise econômica no Sul da Bahia.
A produção caiu, propriedades foram fragilizadas e a estrutura social e econômica de diversos municípios foi afetada.
Desde então, pesquisas científicas passaram a investir em variedades mais resistentes, melhoramento genético, manejo de doenças, fertilidade do solo, irrigação, sistemas agroflorestais e qualificação das amêndoas.
A atual agenda de monitoramento e previsão de safra integra esse processo de reconstrução produtiva e de modernização da cadeia.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- 20/02/1957 — criação da Ceplac, que posteriormente se consolida como principal instituição federal de pesquisa e desenvolvimento da cacauicultura.
- 1989 — avanço da vassoura-de-bruxa aprofunda a crise da lavoura cacaueira baiana e provoca fortes impactos econômicos e sociais.
- 2018 — estudo publicado pela Ceplac apresenta metodologia empírica voltada à previsão de safra de cacau.
- 2023 — Bahia produz 139.011 toneladas de cacau, contra 138.471 toneladas do Pará.
- 2025 — dados consolidados da PAM/IBGE colocam o Pará na liderança nacional da produção de cacau.
- 04/02/2026 — Comissão Estadual para Fortalecimento da Cacauicultura inclui a criação de um sistema de previsão de safra entre as medidas discutidas.
- 14/04/2026 — Ceplac lança projeto de conservação e manejo sustentável da cacauicultura no Sul da Bahia, com previsão de atendimento a 3 mil produtores.
- 06/05/2026 — Seagri e SEI discutem integração e aperfeiçoamento das bases de dados agropecuários do estado.
- 26/05/2026 — Mapa institui o Plano Inova Cacau 2030, por meio da Portaria nº 909.
- Agosto de 2026 — IBGE estima aproximadamente 137 mil toneladas de cacau na Bahia, alta de 15,4% sobre 2025.
- 15/09/2026 — Câmara Setorial do Cacau debate integração entre os polos do Sul e Oeste da Bahia.
- 13/10/2026 — Mapa/Ceplac e SDR/CAR assinam, em Brasília, acordo para pesquisa, monitoramento e construção da previsão estadual de safra.
- 15/10/2026 — está prevista a divulgação pelo IBGE de nova atualização do LSPA referente a setembro.
O acordo firmado entre a Bahia e a Ceplac tem relevância porque trata de um problema estrutural da cadeia cacaueira: a insuficiência de informações conjunturais capazes de antecipar o comportamento da produção. Em uma atividade marcada por ciclos longos, riscos fitossanitários, diversidade tecnológica e forte exposição às condições climáticas e ao mercado internacional, dados confiáveis podem melhorar significativamente a qualidade das decisões públicas e privadas.
A utilidade do sistema dependerá, entretanto, da transparência metodológica. Será necessário informar como as propriedades serão selecionadas, quais regiões terão cobertura, quais indicadores serão medidos, com que periodicidade as previsões serão revisadas e qual será a margem de erro das estimativas. A comparação com dados do IBGE também exigirá padronização de períodos e conceitos para evitar divergências aparentes entre diferentes bases estatísticas.
A controvérsia sobre a posição da Bahia no ranking nacional exemplifica essa necessidade. Enquanto integrantes do governo estadual classificam o estado como maior produtor, a PAM/IBGE de 2025 identifica o Pará na liderança. O episódio reforça a importância de que cada dado seja acompanhado de fonte, período e metodologia, especialmente em uma cadeia sujeita a oscilações anuais.
O núcleo factual é que Mapa/Ceplac, SDR e CAR iniciaram uma articulação formal para transformar o acompanhamento da cacauicultura baiana em um sistema mais estruturado de previsão de safra. Os próximos desdobramentos deverão revelar quando será publicada a primeira estimativa oficial, qual metodologia será utilizada e de que maneira os resultados serão incorporados por governos, produtores, cooperativas, instituições financeiras e indústria na definição de políticas e decisões econômicas.








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