Brasil fica em 53º no Índice Global de Inovação 2026, ocupa 2º lugar na América Latina e mantém avanço em ciência e tecnologia

O Brasil ocupa a 53ª posição entre 139 economias no Índice Global de Inovação (GII) 2026, divulgado pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI) na terça-feira (29/09/2026), em Genebra. Nesta quinta-feira (01/10/2026), os dados mostram o país na 2ª colocação entre as economias da América Latina e do Caribe, atrás do Chile, 51º, e à frente de México, 65º, Uruguai, 66º, e Costa Rica, 70º. O relatório identifica o Brasil como a única economia latino-americana com desempenho em inovação acima do esperado para seu nível de desenvolvimento e destaca sua base científica, investimentos em pesquisa, atividade empresarial e mercado de capital de risco.

A edição de 2026 analisa 79 indicadores, distribuídos em sete pilares e 21 subpilares, e cobre economias que representam 95,5% da população mundial e 98% do Produto Interno Bruto global em paridade do poder de compra. O estudo mede tanto os recursos empregados na construção de capacidade inovadora quanto os resultados efetivamente produzidos pelos sistemas nacionais.

Embora tenha perdido a liderança regional que ocupava em 2024 — quando estava na 50ª posição global —, o Brasil integra um grupo de economias que, segundo a OMPI, apresenta trajetória de avanço desde 2019. O relatório ressalta, porém, que a leitura das mudanças anuais deve considerar alterações metodológicas, disponibilidade de informações e o período de referência dos indicadores. Mais de 80% dos dados utilizados na edição de 2026 correspondem aos anos de 2024 a 2026.

Brasil é segundo na América Latina, atrás do Chile

O Chile lidera a América Latina e o Caribe em 2026, na 51ª posição mundial, seguido pelo Brasil, em 53º, México, em 65º, Uruguai, em 66º, e Costa Rica, em 70º lugar. A classificação confirma uma disputa regional concentrada principalmente entre as economias com maior capacidade científica, tecnológica, empresarial e institucional.

No caso brasileiro, a OMPI identifica como ativos relevantes a profundidade da base regional de ciência e pesquisa e desenvolvimento (P&D), o tamanho do mercado interno, a presença de empresas envolvidas em pesquisa, o financiamento de startups e a atividade relacionada à propriedade intelectual.

O relatório afirma ainda que o Brasil permanece, pelo sexto ano consecutivo, entre as economias cujo desempenho inovador supera o que seria esperado para seu nível de desenvolvimento econômico. É o único país da América Latina e do Caribe nessa categoria em 2026.

Brasil se destaca em mercado, marcas, capital de risco e pesquisa

Entre os indicadores destacados pela OMPI, o Brasil aparece em 8º lugar mundial pelo tamanho do mercado interno e também na 8ª posição em atividade de marcas. O país ocupa a 13ª colocação em pagamentos relacionados à propriedade intelectual, a 16ª em operações de capital de risco em estágios avançados, a 23ª em investidores empresariais em P&D e a 24ª em modelos de utilidade.

A concentração territorial da capacidade tecnológica brasileira também aparece no estudo. O cluster de inovação de São Paulo ocupa a 49ª posição mundial entre os principais polos de ciência, tecnologia e capital de risco mapeados pela OMPI. A região é uma das poucas pertencentes a economias de renda média presentes entre os 100 maiores clusters globais.

Para a OMPI, essas características ajudam a explicar a posição brasileira na América Latina. O país possui, segundo o relatório, a base científica e de P&D mais profunda da região e é também a única economia latino-americana analisada com gastos em pesquisa e desenvolvimento superiores a 1% do PIB.

Produtividade, ambiente empresarial e formação científica permanecem como desafios

A avaliação também registra limitações estruturais. O crescimento da produtividade do trabalho coloca o Brasil apenas na 94ª posição, enquanto a participação empresarial na execução de P&D aparece na 36ª colocação.

O ambiente de negócios brasileiro ocupa a 129ª posição, e o indicador referente à formação de graduados em ciência e engenharia aparece em 101º lugar. Para a OMPI, ampliar a capacidade de transformar ciência, financiamento e propriedade intelectual em produtividade constitui uma das questões centrais para o avanço do sistema brasileiro.

A organização também aponta a necessidade de expandir a inovação para além de São Paulo e de outros grandes centros. A questão é relevante porque o desempenho agregado de uma economia depende não somente da existência de universidades, empresas tecnológicas ou fontes de financiamento isoladamente, mas da conexão entre pesquisa, empresas, crédito, recursos humanos, instituições e mercados.

Índice reúne 79 indicadores de insumos e resultados de inovação

O GII é estruturado em dois grandes subíndices de igual peso. O primeiro mede os insumos de inovação, reunindo condições que favorecem o desenvolvimento tecnológico, científico e empresarial. O segundo avalia os resultados da inovação, isto é, aquilo que a economia consegue produzir a partir dos recursos disponíveis.

Os cinco pilares dos insumos incluem instituições, capital humano e pesquisa, infraestrutura, sofisticação do mercado e sofisticação empresarial. Os produtos da inovação estão reunidos em dois pilares: conhecimento e tecnologia e produção criativa.

O resultado final corresponde à média dos dois subíndices. Em 2026, os 79 indicadores incluem 64 variáveis quantitativas, dez índices compostos e cinco componentes baseados em levantamentos qualitativos.

Suíça mantém liderança mundial; China permanece no top 10

A Suíça ocupa o primeiro lugar mundial pelo 16º ano consecutivo, seguida por Suécia e Estados Unidos. República da Coreia e Singapura completam as cinco primeiras posições.

Entre as demais economias de destaque estão Reino Unido, Países Baixos, Finlândia, Dinamarca e China, em 10º lugar. A China permanece como a única economia de renda média entre as 30 primeiras posições e representa, segundo a OMPI, uma das principais mudanças estruturais de longo prazo no ranking.

O grupo das 15 primeiras economias não recebeu novos integrantes em 2026. Entre as mudanças posteriores aparecem Canadá, em 16º, Austrália, em 20º, e Nova Zelândia, em 24º, que recuperaram posições, enquanto os Emirados Árabes Unidos passaram a integrar as 25 economias mais bem classificadas.

Países de renda média ampliam presença no sistema global de inovação

A OMPI identifica um movimento de avanço de economias de renda média. Desde 2013, China, Índia, Vietnã, Turquia, Filipinas, Marrocos e Indonésia figuram entre os países que mais avançaram no ranking.

Outro grupo ganhou impulso principalmente a partir de 2019. Nele estão Arábia Saudita, Catar, Maurício, Brasil, Jordânia e Bahrein. No caso brasileiro, o movimento combina ciência, empreendedorismo, propriedade intelectual, capital de risco e a dimensão de seu mercado doméstico.

A própria OMPI ressalva, entretanto, que a ascensão das economias de renda média enfrenta um limite estrutural. A integração internacional da produção, exportações de tecnologia, propriedade intelectual e financiamento de startups pode produzir avanços mais rapidamente do que a construção de universidades, laboratórios, pesquisadores e sistemas empresariais próprios de P&D, que exige investimentos de longo prazo.

Gastos mundiais com pesquisa devem alcançar US$ 3,4 trilhões

O cenário global apresenta recuperação dos investimentos em inovação. Segundo as estimativas do GII 2026, os gastos mundiais em pesquisa e desenvolvimento cresceram 4,7% em termos reais em 2024 e teriam avançado aproximadamente 3,3% em 2025.

Para 2026, a projeção é de aumento real de 3,6%, acima do crescimento esperado da economia mundial. O documento situa o volume global de P&D em aproximadamente US$ 3,4 trilhões e observa expansão da capacidade científica em países de renda média, entre eles Egito, Indonésia, Malásia e Vietnã.

Os gastos em pesquisa e desenvolvimento das grandes empresas chegaram ao recorde de US$ 1,5 trilhão, após crescimento real de 5,8%, puxado principalmente por empresas ligadas a software, inteligência artificial e, em outra frente, pelas indústrias aeroespacial e de defesa.

Inteligência artificial concentra capital de risco

O financiamento por capital de risco voltou a crescer em valor. Em 2025, as operações movimentaram aproximadamente US$ 510 bilhões, aumento de cerca de 28%, o maior avanço anual desde 2021.

A recuperação, porém, ocorreu com forte concentração temática. Projetos ligados à inteligência artificial responderam por 53% do valor global do capital de risco em 2025. No primeiro semestre de 2026, essa participação chegou a 77%.

Ao mesmo tempo, o número total de operações caiu 1,4% em 2025, completando o quarto ano consecutivo de redução. Os dados indicam, portanto, que valores maiores estão sendo direcionados para uma quantidade mais restrita de empresas e segmentos tecnológicos.

África amplia participação no financiamento de startups

Apesar da concentração global, o capital de risco começa a atingir mercados que historicamente receberam parcela reduzida desses recursos. As startups africanas captaram aproximadamente US$ 3,2 bilhões em 2025, crescimento de cerca de 40% em comparação com 2024.

A ampliação geográfica dos investimentos é acompanhada pelo aparecimento de novos centros tecnológicos em economias emergentes. Para a OMPI, o fenômeno ocorre em paralelo à manutenção da predominância dos Estados Unidos, da China e de alguns mercados europeus e asiáticos na pesquisa científica, financiamento e geração de propriedade intelectual.

O desafio dessas economias emergentes está em sustentar a passagem entre pesquisa, prototipagem, produção industrial e comercialização, fases que exigem diferentes fontes de financiamento, infraestrutura, regulação e capacidade empresarial.

Ciência avançada reúne mais de 30 mil startups

Um dos temas centrais do GII 2026 é o crescimento do chamado empreendedorismo de ciência avançada ou deep science, caracterizado pela transformação de pesquisa científica de fronteira em empresas e tecnologias comercialmente escaláveis.

A OMPI mapeou mais de 30 mil startups de ciência avançada criadas desde 2000, abrangendo segmentos como ciências da vida, semicondutores, robótica, atividades espaciais, energia e materiais avançados. Essas empresas alcançaram avaliação conjunta estimada em US$ 7,6 trilhões.

Somente em 2025, startups desse grupo receberam cerca de US$ 122 bilhões em capital de risco. Mais de 40% das empresas de energia e ciências da vida criadas desde 2010 analisadas no estudo surgiram a partir de pesquisas acadêmicas.

Patentes tornam-se ativos centrais das empresas de ciência avançada

A propriedade intelectual desempenha papel particularmente relevante nesse segmento devido ao longo intervalo que pode existir entre uma descoberta científica e sua comercialização.

Segundo a OMPI, cerca de 50% das startups de ciência avançada possuem patentes, ante 15,4% das demais startups. A proporção aumenta conforme as empresas avançam nas etapas de financiamento: aproximadamente 43% das companhias em fase inicial possuem patentes, percentual que chega a 69% nos estágios mais avançados.

O Brasil também aparece nesse mapeamento. A empresa brasileira HiLab é citada entre os detentores de patentes de ciência avançada em economias de renda média, com dez famílias de patentes registradas no levantamento da OMPI.

América Latina enfrenta dificuldade para levar startups científicas à escala

Apesar da expansão das empresas baseadas em ciência, o estudo identifica obstáculos específicos para países em desenvolvimento.

Na América Latina, 72% das startups intensivas em ciência permanecem na etapa de capital semente, enquanto apenas 19% chegam à Série A, fase em que os negócios normalmente começam a buscar ampliação de escala.

A OMPI relaciona essa dificuldade a lacunas de financiamento entre a pesquisa inicial e a industrialização, além de restrições regulatórias, disponibilidade de profissionais especializados, infraestrutura de testes e ausência de demanda inicial capaz de permitir que novas tecnologias atinjam escala comercial.

Esse quadro ajuda a contextualizar o próprio desempenho brasileiro: possuir universidades, pesquisa científica, startups, propriedade intelectual e capital de risco constitui uma vantagem, mas a transformação dessas capacidades em produtos, empresas de grande escala, exportações tecnológicas e produtividade exige conexões institucionais e empresariais que não dependem de um único indicador.

OMPI recomenda integração entre ciência, empresas, financiamento e mercado

Na apresentação do relatório, o diretor-geral da OMPI, Daren Tang, afirmou que a inteligência artificial está ampliando as fronteiras tecnológicas da ciência enquanto investimentos públicos e empresariais em pesquisa alcançaram novos níveis.

Tang destacou ainda que uma geração de empresas baseadas em ciência está convertendo descobertas em produtos nos campos das ciências da vida, atividades espaciais, robótica e energia limpa.

A orientação metodológica do próprio GII é que governos utilizem o índice como instrumento de diagnóstico, e não apenas como uma competição por posições. Em pesquisa realizada pela OMPI em 2025 e 2026, 78% dos Estados-membros respondentes — 93 de 120 — disseram utilizar o índice para aperfeiçoar políticas ou informações relacionadas à inovação.

Política brasileira de ciência e tecnologia ganha horizonte até 2034

O resultado ocorre no momento em que o Brasil estrutura sua política de ciência, tecnologia e inovação para a próxima década. Em julho de 2026, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) aprovou a Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação para 2024–2034, estabelecendo diretrizes para políticas, programas e investimentos no setor.

A relação entre estratégia nacional e indicadores internacionais não é automática. O GII mede diferentes dimensões do ecossistema e muitos de seus dados apresentam defasagem temporal: apenas 4,1% dos dados utilizados na edição de 2026 são do próprio ano, enquanto 31,4% correspondem a 2025 e 44,7% a 2024.

Por esse motivo, políticas adotadas recentemente podem demorar a aparecer no índice. Da mesma forma, alterações anuais na posição precisam ser interpretadas considerando tanto mudanças efetivas no país quanto o desempenho relativo das demais economias.

Linha do tempo dos principais acontecimentos

  • 2007 — O Índice Global de Inovação começa a ser publicado e posteriormente se consolida como instrumento internacional de comparação de ecossistemas de inovação.
  • 2019 — Inicia-se o período a partir do qual a OMPI identifica o Brasil entre um grupo de economias com avanços sustentados em inovação, ao lado de Arábia Saudita, Catar, Maurício, Jordânia e Bahrein.
  • 2024 — O Brasil aparece na 50ª posição mundial e lidera a América Latina e o Caribe no GII daquele ano.
  • 2025 — O capital de risco global alcança aproximadamente US$ 510 bilhões, avanço de 28%, enquanto empresas de inteligência artificial concentram 53% do valor investido. Startups africanas captam cerca de US$ 3,2 bilhões.
  • 2025 — Os maiores investidores empresariais em P&D elevam seus gastos em 5,8% em termos reais, para o recorde de US$ 1,5 trilhão.
  • 29/07/2026 — O Brasil oficializa a Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação 2024–2034, destinada a orientar políticas federais para o setor.
  • Primeiro semestre de 2026 — Projetos ligados à inteligência artificial passam a representar 77% do valor mundial das operações de capital de risco, segundo o GII.
  • 29/09/2026 — A OMPI lança em Genebra o Índice Global de Inovação 2026, com avaliação de 139 economias e 79 indicadores.
  • 2026 — O Brasil aparece em 53º lugar mundial e 2º na América Latina e Caribe, atrás do Chile. O país permanece pelo sexto ano consecutivo como a única economia da região com desempenho acima do esperado para seu nível de desenvolvimento.

O GII 2026 apresenta um quadro brasileiro composto por duas dimensões que precisam ser analisadas conjuntamente. De um lado, o país dispõe de mercado interno de grande escala, base científica e de P&D relevante para os padrões latino-americanos, atividade de propriedade intelectual, capital de risco e um polo internacionalmente reconhecido em São Paulo. De outro, os indicadores de produtividade, ambiente empresarial, formação de profissionais em ciência e engenharia e participação empresarial em pesquisa mostram obstáculos à transformação desses recursos em resultados econômicos mais amplos.

A 53ª colocação global não deve, portanto, ser interpretada isoladamente nem como medida absoluta da capacidade tecnológica brasileira. A própria metodologia da OMPI adverte que mudanças de posição podem resultar simultaneamente do desempenho nacional, da evolução de outros países, da atualização das bases estatísticas e de ajustes metodológicos. A defasagem temporal dos indicadores também impede atribuir a classificação diretamente a políticas adotadas no período imediatamente anterior ao lançamento.

No cenário internacional, a expansão da inteligência artificial e da ciência avançada modifica a estrutura do financiamento tecnológico. O crescimento do capital de risco ocorre paralelamente à concentração dos recursos em IA, enquanto startups científicas enfrentam dificuldades para atravessar as etapas entre pesquisa, protótipo, produção e escala comercial. Para a América Latina — onde 72% das startups intensivas em ciência permanecem no estágio semente — essa transição constitui um ponto relevante para políticas de financiamento, universidades, empresas e instituições de propriedade intelectual.

O Brasil permanece entre as principais economias inovadoras de renda média, ocupa o 53º lugar mundial e o segundo da América Latina, ao mesmo tempo em que conserva vantagens científicas e empresariais e enfrenta dificuldades para converter essas capacidades em produtividade e inovação disseminada pelo território. Os próximos resultados dependerão da execução de políticas de ciência e tecnologia, da ampliação da pesquisa empresarial, da formação de recursos humanos, do financiamento às empresas tecnológicas e da capacidade de conectar universidades, empresas, propriedade intelectual e mercados.


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