Câmara Municipal de Salvador pagou R$ 16,97 milhões por TI em oito meses; servidores relatam falhas e despesas publicitárias sobem em 2026

A Câmara Municipal de Salvador (CMS) registrou R$ 16.967.856,67 em pagamentos a três empresas de tecnologia da informação entre janeiro e agosto de 2026, enquanto servidores efetivos relataram problemas recorrentes com computadores, sistemas, rede, equipamentos e mecanismos de controle de acesso. A apuração foi publicada pelo jjornal A Tarde neste domingo (25/10/2026) e também apontou forte crescimento das despesas da Casa com publicidade nos meses de julho e agosto, período coincidente com etapas decisivas do calendário das Eleições Gerais de 2026. Os dados suscitam questões sobre fiscalização, comprovação das entregas e efetividade dos serviços, mas não constituem, isoladamente, prova de corrupção, favorecimento, desvio de recursos ou ilícito eleitoral.

A Câmara é presidida pelo vereador Carlos Muniz (PSDB), que exerce a Presidência no biênio 2025–2026. Segundo a própria CMS, Muniz assumiu o atual mandato na direção da Casa em 2 de janeiro de 2025, após ter sido reeleito vereador em 2024.

A dimensão dos pagamentos ganha relevância pública porque os serviços contratados envolvem áreas essenciais ao funcionamento administrativo e parlamentar: desenvolvimento e manutenção de sistemas, locação de equipamentos, ferramentas de gestão empresarial, controle de acesso, reconhecimento facial, atendimento automatizado e suporte técnico. A questão central, portanto, não é apenas quanto foi gasto, mas o que foi efetivamente entregue, como as entregas foram atestadas e quais indicadores demonstram que os serviços contratados funcionaram conforme previsto.

Três empresas receberam R$ 16,97 milhões em oito meses

Segundo documentos internos examinados pelo A Tarde, os pagamentos efetuados de janeiro a agosto alcançaram R$ 16.967.856,67. Os recursos foram destinados à Sudoeste Informática e Consultoria, à DW3 Serviços Especializados e à DO Serviços de Tecnologia. O montante corresponde a despesas efetivamente lançadas e pagas no período, e não necessariamente ao valor global de todos os contratos relacionados.

A Sudoeste concentrou a maior parcela. De acordo com a apuração, recebeu aproximadamente R$ 9,8 milhões, equivalentes a cerca de 58% do total. Desse valor, R$ 9,26 milhões foram relacionados ao desenvolvimento, manutenção e treinamento da plataforma Maker All, no contexto de serviços associados ao consórcio ASTEC III. O objeto mencionado compreende desenvolvimento e manutenção de sistemas, portais e aplicativos, além de suporte técnico.

A concentração financeira, por si só, não demonstra irregularidade. O ponto de controle é verificar se os objetos de cada contratação são tecnicamente distintos, se houve medição das entregas e se os pagamentos guardam correspondência com serviços efetivamente executados e aceitos pela Administração.

DW3 recebeu R$ 5,8 milhões para equipamentos, ERP e controle de acesso

A DW3 Serviços Especializados aparece com aproximadamente R$ 5,8 milhões em despesas no mesmo intervalo. Segundo o levantamento, cerca de R$ 2,83 milhões corresponderam à locação de equipamentos de informática, R$ 1,31 milhão a sistema de gestão empresarial, conhecido como ERP, e R$ 1,5 milhão a soluções de controle de acesso, incluindo catracas e reconhecimento facial. Outros R$ 154,5 mil foram registrados como ressarcimento relacionado a equipamentos danificados no incêndio que atingiu a Câmara em 2025.

O incêndio ocorreu em 24/02/2025. A própria Câmara informou na ocasião que o fogo atingiu parte do teto e do forro do edifício histórico, especialmente na região do Salão Nobre. O prédio foi evacuado e não houve feridos. A instituição informou ainda que seria realizada perícia para identificar a origem exata das chamas.

Os relatos apresentados posteriormente por servidores, porém, atingem áreas vinculadas justamente aos objetos que recebem recursos públicos. Funcionários entrevistados pelo A Tarde mencionaram computadores lentos, dificuldade para obter equipamentos, falhas de catracas, indisponibilidade de rede e sistemas que deixam de responder durante procedimentos administrativos.

Servidores relatam paralisações e problemas recorrentes

Os servidores ouvidos pelo veículo tiveram a identidade preservada. Um deles afirmou que falhas na infraestrutura tecnológica chegam a interromper o trabalho dos setores. Outro relatou que problemas são corrigidos e posteriormente reaparecem, enquanto funcionalidades previstas na modernização demorariam a ser implementadas.

As queixas alcançam também ferramentas usadas nas atividades legislativas. Segundo a reportagem, o painel eletrônico do plenário está entre os sistemas mencionados nos relatos de problemas. A relevância desse equipamento decorre de sua utilização em procedimentos diretamente ligados às sessões e às atividades parlamentares.

O quadro precisa, contudo, ser confrontado com os registros técnicos de cada contrato. Relatos de usuários são evidência importante sobre a qualidade percebida dos serviços, mas não substituem auditoria sobre inventários, chamados técnicos, níveis de serviço, relatórios de manutenção, ordens de serviço, códigos entregues, medições, notas fiscais, termos de aceite e registros dos fiscais responsáveis.

Câmara anunciou nova modernização da Ouvidoria dez dias antes da denúncia

Há também informações institucionais que devem integrar o contraditório documental. Em 15/10/2026, dez dias antes da publicação da reportagem, a própria Câmara anunciou que equipes da Ouvidoria e da Secretaria de Tecnologia da Informação haviam discutido a implantação de uma nova plataforma informatizada para atendimento ao cidadão.

Segundo a CMS, a ferramenta substituiria o atendimento baseado em WhatsApp operado em aparelho convencional por uma solução com recursos destinados à organização dos registros, melhoria do fluxo de trabalho e redução do tempo de resposta. A informação demonstra que projetos de modernização permaneciam em andamento em outubro, embora não esclareça, isoladamente, as falhas relatadas nem estabeleça qual das empresas citadas participa desse projeto.

A existência de iniciativas de modernização e, simultaneamente, de reclamações de usuários torna ainda mais relevante a publicação de indicadores objetivos: quantidade de equipamentos disponibilizados, disponibilidade média dos sistemas, tempo de resposta a chamados, número de ocorrências, serviços concluídos e resultados das homologações técnicas.

DO Serviços teve mensalidade elevada de R$ 130 mil para R$ 168 mil

A terceira fornecedora citada, DO Serviços de Tecnologia, acumulou R$ 1.344.949,12 em despesas de janeiro a agosto. Seu contrato envolve sistema de gestão de solicitações e atendimento automatizado.

De acordo com os valores publicados, o pagamento mensal passou de R$ 130 mil para R$ 168 mil, alta de aproximadamente 29%. Mantido o novo patamar por 12 meses, o custo anual alcança R$ 2,016 milhões, ante R$ 1,56 milhão no valor mensal anterior — diferença matemática de aproximadamente R$ 456 mil por ano.

A reportagem informa que o contrato prevê correção de erros e falhas sem cobrança adicional durante sua execução e nos três meses seguintes ao encerramento. Para avaliar a regularidade e a economicidade da alteração, é necessário conhecer a justificativa administrativa, a base jurídica do reajuste ou revisão, eventuais alterações de escopo e os indicadores utilizados para aferir o serviço.

Fiscalização contratual é ponto decisivo para esclarecer pagamentos

A legislação brasileira atribui à Administração responsabilidade direta pelo acompanhamento dos contratos. A Lei nº 14.133/2021, em seu artigo 117, estabelece que a execução deve ser acompanhada e fiscalizada por um ou mais fiscais especialmente designados, cabendo a eles registrar ocorrências e determinar providências destinadas a corrigir falhas ou defeitos.

A aplicação concreta do regime jurídico depende da data e da forma de cada contratação, pois contratos originados durante a transição entre a antiga Lei nº 8.666/1993 e a Lei nº 14.133 podem permanecer submetidos ao regime escolhido no procedimento de origem. O princípio administrativo, entretanto, permanece: pagamento público precisa estar vinculado à execução e ao recebimento do objeto contratado.

Por isso, uma apuração conclusiva sobre os R$ 16,97 milhões exige acesso aos contratos e aditivos, processos de pagamento, notas fiscais, relatórios dos fiscais, ordens de serviço, termos de recebimento, inventário dos equipamentos e documentação que demonstre a efetiva disponibilidade dos sistemas.

Duas empresas concentram cerca de 92% dos pagamentos

Os dados publicados mostram ainda elevada concentração dos desembolsos: aproximadamente 58% foram destinados à Sudoeste e cerca de 34% à DW3. Juntas, as duas empresas ficaram com aproximadamente 92% dos pagamentos de tecnologia analisados.

Concentração contratual não significa, por definição, favorecimento. Serviços de tecnologia podem demandar fornecedores especializados, contratos de grande escala ou soluções integradas. O aspecto que precisa ser demonstrado é se os escopos são claros, se não existem sobreposições indevidas e se cada despesa corresponde a uma entrega identificável.

Essa distinção é particularmente relevante porque a Sudoeste aparece associada ao desenvolvimento e manutenção de sistemas, enquanto a DW3 atua, segundo a reportagem, com equipamentos, ERP e controle de acesso, e a DO Serviços responde por solução de solicitações e atendimento automatizado.

Publicidade cresce em julho e agosto de 2026

O segundo eixo da apuração envolve as despesas publicitárias da Câmara. A W4 Comunicação & Marketing, apontada como uma das duas agências contratadas pelo Legislativo, registrou R$ 2,35 milhões em despesas entre janeiro e junho. Em apenas dois meses — julho e agosto — foram outros R$ 2,9 milhões.

Isso significa que o valor acumulado em julho e agosto foi cerca de 23% superior ao total dos seis meses anteriores, apesar de representar apenas um terço do período. Em agosto, segundo o levantamento, foram registrados R$ 1,76 milhão, montante descrito pelo A Tarde como quase sete vezes o registrado em janeiro.

A relação comercial entre a W4 e o Legislativo não é recente. O próprio portfólio público da agência registra campanhas produzidas para a Câmara Municipal de Salvador em anos anteriores, incluindo trabalhos identificados como “A Câmara É Sua” e “Câmara Itinerante”.

Aumento coincide com período sensível do calendário eleitoral

O crescimento das despesas ocorreu em um período especialmente sujeito a controle eleitoral. O calendário oficial do Tribunal Superior Eleitoral estabeleceu as convenções partidárias entre 20/07 e 05/08/2026, o encerramento do registro das candidaturas em 15/08, o início da propaganda eleitoral em 16/08 e o primeiro turno em 04/10/2026.

Além disso, as principais restrições impostas a agentes públicos nos três meses anteriores ao primeiro turno começaram em 04/07/2026. O TSE informou que o chamado defeso eleitoral inclui regras específicas sobre publicidade institucional destinadas a impedir o uso da estrutura estatal para desequilibrar a disputa entre candidaturas.

A coincidência temporal entre aumento dos pagamentos publicitários e calendário eleitoral, entretanto, não comprova desvio de finalidade. Uma conclusão jurídica dependeria da análise das campanhas efetivamente produzidas, datas de autorização e veiculação, meios utilizados, conteúdos, públicos atingidos, agentes eventualmente identificados e eventual benefício eleitoral obtido.

Regra eleitoral exige exame do conteúdo, não apenas do valor gasto

A Lei nº 9.504/1997, em seu artigo 73, estabelece restrições a condutas de agentes públicos capazes de afetar a igualdade entre candidaturas. Entre elas está a publicidade institucional durante o período eleitoral, ressalvadas as hipóteses previstas em lei.

A regulamentação atual do TSE determina que a análise da publicidade deve considerar elementos como nomes, slogans, símbolos, imagens ou outros elementos capazes de identificar autoridades, governos ou administrações cujos cargos estejam em disputa. Portanto, a existência de gasto elevado ou sua ocorrência durante o calendário eleitoral não basta, isoladamente, para caracterizar uma infração.

Para esclarecer esse aspecto, seriam necessários os planos de mídia, peças produzidas, ordens de inserção, veículos contratados, períodos de veiculação, valores individualizados e objetivos das campanhas custeadas pela Câmara.

Ausência de contraditório específico deixa lacuna na apuração

Na versão pública da reportagem consultada, não aparecem manifestações específicas atribuídas à Câmara Municipal de Salvador, a Carlos Muniz, à Sudoeste Informática, à DW3 Serviços Especializados, à DO Serviços de Tecnologia ou à W4 Comunicação & Marketing respondendo aos questionamentos apresentados pelos servidores. Uma republicação que resumiu o conteúdo também registrou expressamente essa ausência.

Essa lacuna impede, neste momento, comparar as reclamações com as explicações dos gestores e fornecedores sobre equipamentos entregues, sistemas implementados, indicadores contratuais, problemas eventualmente registrados, providências adotadas e razões para as alterações financeiras.

Também não é possível transformar as reclamações dos servidores em conclusão sobre crime, improbidade, superfaturamento, fraude, direcionamento ou ilícito eleitoral sem documentação complementar e, quando cabível, apuração dos órgãos competentes.

Novas denúncias e contratos estão em apuração pelo A Tarde

O A Tarde informou ter recebido novas denúncias relativas a outros contratos da Câmara Municipal de Salvador e declarou que o material permanece em apuração, podendo resultar em reportagens posteriores.

Esse dado amplia a possibilidade de novos desdobramentos jornalísticos, mas não permite antecipar o conteúdo, a procedência ou as consequências das informações ainda examinadas.

Do ponto de vista do controle público, os próximos passos relevantes serão a eventual apresentação de documentação pela Câmara, a manifestação das empresas, a abertura dos processos de contratação e pagamento à fiscalização social e, se houver provocação ou elementos suficientes, a atuação das instituições responsáveis pelo controle administrativo, financeiro ou eleitoral.

Linha do tempo dos principais acontecimentos

  • 02/01/2025 — Carlos Muniz (PSDB) inicia o mandato como presidente da Câmara Municipal de Salvador no biênio 2025–2026. A Presidência é responsável pela condução político-administrativa do Legislativo.
  • 24/02/2025 — Incêndio atinge parte do prédio histórico da Câmara, especialmente teto e forro. O edifício é evacuado, não há feridos e a CMS informa que seria realizada perícia. Parte das despesas posteriormente atribuídas à DW3 inclui ressarcimento de equipamentos danificados no episódio.
  • Janeiro a agosto de 2026 — Segundo documentos obtidos pelo A Tarde, a Câmara efetua R$ 16.967.856,67 em pagamentos relacionados a três empresas de tecnologia.
  • 04/07/2026 — Entram em vigor as principais restrições eleitorais aplicáveis a agentes públicos nos três meses anteriores ao primeiro turno das Eleições 2026, incluindo regras relativas à publicidade institucional.
  • Julho e agosto de 2026 — A W4 Comunicação & Marketing registra R$ 2,9 milhões em despesas da Câmara, superando os R$ 2,35 milhões contabilizados nos seis meses anteriores.
  • 20/07 a 05/08/2026 — Partidos e federações realizam as convenções destinadas à escolha das candidaturas das Eleições Gerais de 2026.
  • 16/08/2026 — Começa oficialmente a propaganda eleitoral geral nas ruas e na internet.
  • 04/10/2026 — Ocorre o primeiro turno das Eleições Gerais de 2026.
  • 15/10/2026 — A Câmara anuncia discussão para implantação de nova plataforma informatizada na Ouvidoria, destinada a substituir o atendimento baseado em WhatsApp e reorganizar os fluxos internos.
  • 25/10/2026 — O A Tarde publica reportagem sobre os gastos de tecnologia, as reclamações de servidores e o crescimento das despesas publicitárias, informando também que outras denúncias sobre contratos da Câmara permanecem sob apuração jornalística.

Os fatos confirmados até o momento são os valores e objetos atribuídos aos pagamentos descritos nos documentos examinados pelo A Tarde, os relatos de servidores sobre problemas operacionais, o crescimento das despesas publicitárias e o contexto institucional e eleitoral no qual esses gastos ocorreram. A existência de despesas elevadas, concentração de pagamentos ou reclamações sobre desempenho não autoriza, sem documentação complementar, concluir pela existência de corrupção, fraude, superfaturamento ou favorecimento.

A questão administrativa mais relevante é a rastreabilidade entre gasto e entrega. Em serviços de tecnologia, essa comprovação exige mais do que notas fiscais: deve ser possível identificar sistemas desenvolvidos, versões entregues, equipamentos instalados, localização dos bens, níveis de disponibilidade, chamados solucionados, métricas de desempenho, homologações e responsáveis pelo aceite. Se os documentos demonstrarem execução integral e fiscalização regular, os relatos deverão ser avaliados à luz desses registros. Caso revelem divergências relevantes entre pagamento e entrega, o problema assume outra dimensão e poderá demandar controle administrativo ou externo.

Na publicidade, a concentração de R$ 2,9 milhões em julho e agosto merece transparência adicional porque ocorreu durante o período eleitoral, mas a coincidência cronológica não substitui a prova. O ponto decisivo será saber o que foi divulgado, por quem, em quais meios, em que datas, com qual conteúdo e finalidade, e se algum material ultrapassou os limites aplicáveis à comunicação institucional no período.

O episódio possui relevância pública porque envolve quase R$ 17 milhões em recursos destinados à infraestrutura tecnológica de um Poder Legislativo municipal, além de despesas milionárias de comunicação institucional. A responsabilidade pelos próximos esclarecimentos recai inicialmente sobre a Câmara Municipal de Salvador e seus setores de gestão e fiscalização contratual, sem prejuízo das manifestações das empresas citadas e de eventual atuação dos órgãos de controle. A publicação integral dos documentos de execução, medições e campanhas publicitárias é o elemento capaz de transformar questionamentos legítimos em conclusões verificáveis — seja para confirmar a regularidade dos contratos, seja para revelar fatos que exijam providências adicionais.


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