Na terça-feira (13/10/2026), em Brasília, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, recebeu o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, para definir como deverão ser encaminhadas as referências a ministros da Corte localizadas nas investigações relacionadas ao Banco Master. Fachin afirmou que a PF deve remeter todas as menções encontradas, sem exceção, acompanhadas do respectivo contexto e em caráter estritamente descritivo, enquanto eventual realização de atos investigativos contra integrantes do Supremo dependerá de autorização do Plenário, após manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR). A audiência também tratou de ameaças dirigidas a ministros, do andamento de investigações relacionadas ao Master e ao INSS e da conclusão do Inquérito 4.781/DF, conhecido como Inquérito das Fake News. A nota conjunta foi atualizada pelos órgãos nesta quarta-feira (14/10/2026).
Fachin estabelece rito para referências a ministros encontradas pela PF
O encontro foi solicitado pela própria Polícia Federal e teve como ponto de partida o Ofício 3467748, de 02/10/2026, por meio do qual a direção da corporação pediu esclarecimentos sobre o formato adequado para apresentar ao Supremo informações relacionadas aos integrantes da Corte encontradas no conjunto de dados sob investigação.
Segundo a manifestação oficial, Fachin estabeleceu uma distinção entre o simples encaminhamento dos achados policiais e a abertura de atos investigativos contra magistrados. A PF deverá apresentar as referências encontradas, mas não poderá transformar automaticamente uma citação, mensagem, anotação ou registro em investigação formal contra ministro do Supremo.
A orientação é relevante porque o material relacionado ao caso Master reúne informações de naturezas distintas. Há mensagens diretas, anotações atribuídas a terceiros, registros de reuniões, contratos, vínculos profissionais, referências a familiares ou pessoas próximas e operações financeiras examinadas em diferentes procedimentos. A existência de uma menção, isoladamente, não comprova participação em crime nem permite antecipar responsabilidade jurídica.
Plenário do STF terá de autorizar eventual investigação
Fachin vinculou os próximos passos ao artigo 33, parágrafo único, da Lei Complementar nº 35/1979, a Lei Orgânica da Magistratura Nacional. O dispositivo determina que, se durante uma investigação surgirem indícios de prática de crime por magistrado, a autoridade policial deverá remeter os autos ao tribunal ou ao órgão competente para que a investigação prossiga sob a competência constitucional adequada.
A nota conjunta informa que, apresentados os elementos considerados necessários, o Plenário do STF, depois de ouvida a PGR, poderá deliberar sobre os procedimentos cabíveis. A fórmula institucional adotada busca preservar simultaneamente a atividade investigativa da Polícia Federal, as atribuições do Ministério Público e as prerrogativas jurisdicionais aplicáveis aos integrantes da Suprema Corte.
Esse procedimento significa que o relatório a ser apresentado pela PF terá inicialmente função descritiva. Caberá posteriormente ao Supremo avaliar se determinada informação constitui uma referência irrelevante, elemento que necessita de esclarecimento, indício que justifica diligências ou material capaz de sustentar a abertura de procedimento investigativo.
Material do celular de Daniel Vorcaro está no centro da controvérsia
Parte importante da discussão decorre de dados extraídos do telefone de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. O material passou a produzir sucessivos desdobramentos institucionais depois de ser incorporado às investigações da Operação Compliance Zero.
Em setembro, a própria Polícia Federal esclareceu que o conteúdo original extraído do aparelho permaneceu integralmente sob sua guarda, dentro de cadeia de custódia formalmente documentada, com lacres e mecanismos destinados à verificação da integridade digital. A corporação informou ainda que cópias dos dados haviam sido fornecidas a gabinetes do Supremo mediante solicitações formuladas no âmbito dos procedimentos.
Um dos processos surgidos desse material é a Petição 16.662, protocolada no STF em 28/08/2026. O procedimento está relacionado a relatório policial produzido a partir de dados extraídos do celular de Vorcaro e que apontou supostos diálogos ou registros relacionados ao ministro Alexandre de Moraes.
Julgamento da Petição 16.662 foi suspenso sem análise do mérito
O Plenário do Supremo iniciou em 15/09/2026 a análise da Petição 16.662, mas não chegou ao mérito do material relacionado a Moraes.
A sessão foi interrompida após pedido de vista do ministro Flávio Dino enquanto os integrantes da Corte discutiam uma questão processual apresentada pelo ministro Gilmar Mendes. O debate envolvia a possibilidade de tramitação conjunta das Petições 16.662 e 16.704, a redistribuição dos procedimentos e a identificação de magistrados mencionados no conjunto de documentos do caso Master.
A certidão do julgamento registra ainda que Kassio Nunes Marques declarou impedimento e Dias Toffoli afirmou suspeição para participar daquele procedimento. Esses registros dizem respeito à participação dos magistrados naquele julgamento e não correspondem, por si mesmos, a reconhecimento de responsabilidade em relação aos fatos investigados.
Menções a ministros aparecem em contextos diferentes
Informações já tornadas públicas indicam que integrantes do STF aparecem no material relacionado ao Master em circunstâncias diversas. Reportagens e documentos processuais mencionam, entre outros, Alexandre de Moraes, André Mendonça, Dias Toffoli, Kassio Nunes Marques, Luiz Fux e Gilmar Mendes, mas o conteúdo, a origem e a relevância jurídica das referências não são uniformes.
No caso de Alexandre de Moraes, a Petição 16.662 está associada a material que a Polícia Federal relacionou a contatos atribuídos ao magistrado. Moraes contestou a interpretação do conteúdo, questionou o modo como o relatório foi produzido e negou irregularidades. Até o momento, o Plenário não julgou o mérito da petição nem decidiu sobre eventual responsabilidade do ministro.
André Mendonça, atual relator de parte relevante das investigações do Master, também confirmou publicamente ter recebido Vorcaro em março de 2025, afirmando que o encontro tratou de processo relacionado a precatórios e que posteriormente adotou decisão contrária ao interesse apresentado pelo então banqueiro.
Caso Toffoli já provocou mudança de relatoria em fevereiro
A questão de como tratar referências a integrantes do próprio Supremo não surgiu apenas em setembro.
Em fevereiro de 2026, a Polícia Federal encaminhou a Fachin informações extraídas do celular de Vorcaro que mencionavam o então relator das investigações, Dias Toffoli. O episódio levou à abertura de procedimento sobre eventual suspeição do ministro.
Toffoli deixou voluntariamente a relatoria do caso em 12/02/2026, e as investigações foram posteriormente distribuídas a André Mendonça. Fachin arquivou a arguição de suspeição em 21/02/2026. O arquivamento significou que Toffoli não foi declarado suspeito, embora tenha deixado a função de relator das investigações.
O antecedente ajuda a explicar a atual tentativa da Presidência do STF de criar um procedimento uniforme para todos os integrantes da Corte mencionados no material: primeiro identificar o contexto de cada referência e, somente depois, deliberar institucionalmente sobre eventual necessidade de investigação.
Fachin e Andrei também discutem ameaças a ministros do Supremo
Outro tema tratado no encontro foi a existência de ameaças dirigidas a integrantes do STF.
Segundo a nota oficial, Fachin defendeu uma atuação preventiva e coordenada dos órgãos responsáveis pela segurança, com o objetivo de proteger a integridade dos magistrados, a independência judicial e o funcionamento regular das instituições. Andrei Rodrigues afirmou que a Polícia Federal colaborará nas medidas preventivas e nas providências incluídas em sua esfera de competência.
A manifestação, porém, não identifica autores das ameaças, não informa quando ocorreram, não descreve o conteúdo das mensagens ou ações investigadas e não esclarece se já existem procedimentos policiais específicos.
Também não há, na nota conjunta, afirmação de que essas ameaças tenham relação direta com Daniel Vorcaro, com o Banco Master ou com as informações encontradas nos aparelhos apreendidos. O assunto aparece como um eixo próprio da reunião e deve ser tratado separadamente até que eventual conexão seja oficialmente demonstrada.
Investigações sobre Master e INSS também entram na agenda
Fachin e Andrei discutiram ainda o andamento das investigações relacionadas ao Banco Master e ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
A Presidência do Supremo registrou que aguarda manifestação da Procuradoria-Geral da República na Petição 16.704 para definir os próximos encaminhamentos, inclusive em relação a pedidos ainda sujeitos à apreciação judicial.
A nota não detalha quais pedidos específicos serão decididos depois do parecer da PGR. Esse ponto permanece, portanto, dependente da manifestação do Ministério Público e de futuras decisões do Supremo.
Fachin pede celeridade para conclusão do Inquérito 4.781
O presidente da Corte aproveitou a reunião para solicitar à Polícia Federal celeridade na análise destinada à conclusão do Inquérito 4.781/DF, instaurado em 2019 e conhecido como Inquérito das Fake News.
Andrei Rodrigues informou que a PF examinará eventuais diligências ainda pendentes.
Embora o Inquérito 4.781 não tenha origem no caso Master, sua inclusão na reunião reforça que o encontro entre a Presidência do Supremo e a direção da PF teve caráter institucional mais amplo, envolvendo procedimentos sensíveis, segurança de magistrados e delimitação de competências entre as duas instituições.
Caso Master começou como investigação financeira e avançou sobre agentes públicos
A atual discussão sobre ministros do Supremo representa uma etapa posterior de uma investigação iniciada no campo financeiro.
A Operação Compliance Zero começou a ser desenvolvida a partir de apurações abertas em 2024, depois de requisição do Ministério Público Federal sobre operações envolvendo carteiras de crédito e títulos negociados por instituições financeiras. Desde novembro de 2025, a investigação passou por sucessivas fases e incorporou suspeitas de crimes financeiros, corrupção, lavagem de dinheiro, acesso indevido a informações sigilosas, interferência em investigações e relações entre executivos do Master e agentes públicos.
Em 18/11/2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master S.A., do Banco Master de Investimento, do Letsbank e da Master Corretora, além de estabelecer regime especial para outra instituição do conglomerado. O BC fundamentou a medida em grave crise de liquidez, comprometimento significativo da situação econômico-financeira e graves violações às normas do Sistema Financeiro Nacional.
Na ocasião, o Banco Central informou que o conglomerado correspondia a aproximadamente 0,57% dos ativos e 0,55% das captações do Sistema Financeiro Nacional. A dimensão percentual relativamente limitada do grupo não impediu que o caso adquirisse alcance institucional crescente em razão da natureza das operações investigadas e das relações identificadas ao longo das diligências.
Operação Compliance Zero chegou a dez fases
Até setembro de 2026, a investigação havia acumulado dez fases ostensivas, com ramificações envolvendo gestores do Master, BRB, fundos previdenciários, agentes políticos, servidores públicos e suspeitas relacionadas a interferência na fiscalização ou nas próprias investigações.
Na oitava fase, em 26/05/2026, a PF investigou aplicações relacionadas ao Rioprevidência. A corporação informou que os aportes examinados chegavam a cerca de R$ 3 bilhões, somando Letras Financeiras e investimentos em fundos associados ao banco privado investigado.
Em 18/06/2026, a nona fase chegou a suspeitas de corrupção envolvendo agente público com prerrogativa de foro. Já a décima etapa, deflagrada em 09/07/2026, aprofundou apurações relacionadas, entre outros pontos, a possível atuação coordenada contra o Banco Central e interferência em investigações.
O que muda depois da reunião de Fachin e Andrei
A principal consequência do encontro de 13 de outubro é a definição de um procedimento institucional para evitar que referências a integrantes do Supremo sejam examinadas de maneira fragmentada ou segundo critérios distintos.
A Polícia Federal deverá organizar e encaminhar as menções acompanhadas de contexto, sem formular automaticamente imputações contra os magistrados. O Supremo, por sua vez, terá de avaliar o material de forma colegiada se surgirem elementos que justifiquem providências investigativas.
A PGR funcionará como etapa indispensável antes de eventual deliberação do Plenário. A nota oficial divulgada depois da reunião, entretanto, não estabelece prazo público para a entrega definitiva dos relatórios pela Polícia Federal, nem informa quantos ministros serão formalmente relacionados na documentação.
Esses pontos deverão constituir os próximos marcos verificáveis do caso: a entrega dos documentos pela PF, a manifestação do Ministério Público, eventual retomada da Petição 16.662 e as decisões do Supremo sobre quais informações possuem relevância jurídica suficiente para justificar novos procedimentos.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- 2024 — início das apurações: investigações sobre operações relacionadas ao Banco Master começam após requisição do Ministério Público Federal; suspeitas envolvem carteiras de crédito e operações financeiras.
- Março de 2025 — encontro com André Mendonça: o ministro afirma ter recebido Daniel Vorcaro uma única vez para tratar de processo relacionado a precatórios e nega atuação irregular.
- 17/11/2025 — prisão de Daniel Vorcaro: o então controlador do Master é preso pela Polícia Federal antes de viagem internacional; sua defesa rejeita a interpretação de que pretendia fugir.
- 18/11/2025 — liquidação do Banco Master: Banco Central decreta regimes especiais sobre instituições do conglomerado, apontando crise de liquidez, comprometimento econômico-financeiro e violações às normas do sistema financeiro.
- Fevereiro de 2026 — controvérsia envolvendo Dias Toffoli: PF comunica menções ao então relator; Toffoli deixa a relatoria em 12 de fevereiro, e a arguição de suspeição é posteriormente arquivada por Fachin.
- 26/05/2026 — oitava fase da Compliance Zero: PF amplia investigações sobre aplicações previdenciárias relacionadas ao caso Master.
- 18/06/2026 — nona fase: investigação passa a examinar suspeitas de corrupção envolvendo agente público com prerrogativa de foro.
- 09/07/2026 — décima fase: PF investiga suspeitas relacionadas a interferência nas apurações e ações voltadas contra a credibilidade do Banco Central.
- 28/08/2026 — Petição 16.662: procedimento originado de relatório produzido a partir do material extraído do celular de Vorcaro é protocolado no STF.
- 13/09/2026 — cadeia de custódia: PF informa oficialmente que os dados originais do celular permanecem sob sua guarda e submetidos a mecanismos formais de preservação da integridade.
- 15/09/2026 — julgamento suspenso: Plenário inicia discussão sobre as Pets 16.662 e 16.704, mas Flávio Dino pede vista; mérito das informações relacionadas a Alexandre de Moraes não é examinado.
- 02/10/2026 — definição preliminar do procedimento: Fachin responde a consulta da direção da PF e reafirma que os fatos deverão ser apresentados integralmente e sem exceções.
- 13/10/2026 — reunião no STF: Fachin recebe Andrei Rodrigues e determina que todas as menções sejam encaminhadas contextualizadas e em caráter descritivo; encontro também aborda ameaças a ministros, investigações sobre Master e INSS e o Inquérito 4.781.
- 14/10/2026 — atualização oficial: STF e PF atualizam a nota conjunta com as diretrizes definidas na audiência; permanece pendente a apresentação completa dos materiais e eventual deliberação do Plenário.
A decisão de centralizar e contextualizar todas as menções a integrantes do Supremo enfrenta um problema institucional que se tornou evidente com o avanço do caso Master: uma investigação financeira passou a produzir informações sobre autoridades que integram justamente o tribunal competente para supervisionar procedimentos envolvendo seus próprios membros. Nessa situação, transparência, uniformidade de critérios e respeito às competências legais são requisitos simultâneos, não alternativas.
O ponto mais importante é distinguir menção, indício e prova. Um nome registrado em telefone, agenda, mensagem de terceiro, contrato ou conversa não constitui, isoladamente, demonstração de crime. Ao mesmo tempo, a condição funcional da pessoa citada não pode impedir a verificação de informação juridicamente relevante. O procedimento anunciado por Fachin tenta acomodar essas duas exigências: impedir conclusões automáticas e, simultaneamente, evitar exclusões prévias de autoridades do processo de análise.
Há lacunas relevantes. Ainda não foi divulgado oficialmente o conjunto integral de ministros que constará dos relatórios, o contexto detalhado de cada referência, quais elementos a PF considera juridicamente relevantes nem quando o material completo será entregue. Também permanecem pendentes decisões sobre as Petições 16.662 e 16.704. Quanto às ameaças discutidas na reunião, não foram identificados autores, fatos específicos ou eventual ligação com o caso Master, razão pela qual qualquer associação entre os dois assuntos seria prematura.
Os próximos passos caberão principalmente à Polícia Federal, que deverá organizar os achados; à PGR, responsável pela manifestação prevista antes de decisões investigativas; e ao Plenário do STF, ao qual compete deliberar sobre eventual prosseguimento contra integrantes da Corte. A relevância pública do episódio está justamente nesse ponto: além de esclarecer possíveis irregularidades surgidas da investigação do Banco Master, as instituições terão de demonstrar que critérios de apuração, garantias processuais e mecanismos de controle podem funcionar de maneira uniforme mesmo quando as informações alcançam integrantes das mais altas estruturas do Estado.








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