De Jair Bolsonaro à chapa de Flávio: como Márcio Canella se tornou aliado da família Bolsonaro no Rio de Janeiro antes de ser preso pela PF

Quinta-feira, 15 de outubro de 2026 — A prisão preventiva do deputado estadual eleito Márcio Canella (União Brasil-RJ), ex-prefeito de Belford Roxo, na oitava fase da Operação Unha e Carne, atinge uma liderança que, desde 2022, se aproximou progressivamente do grupo Bolsonaro e chegou a integrar, em 2026, a chapa majoritária articulada pelo senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no Rio de Janeiro.

Canella rompeu politicamente com seu antigo aliado Waguinho após apoiar Jair Bolsonaro contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno presidencial de 2022. Dois anos depois, com apoio do PL e do governador Cláudio Castro, venceu a Prefeitura de Belford Roxo em primeiro turno, com 155.299 votos, equivalentes a 62,88% dos votos válidos.

A projeção alcançada na Baixada Fluminense levou Canella à chapa estadual organizada por Flávio Bolsonaro em fevereiro de 2026. O acordo entre PL, União Brasil e Progressistas previa sua candidatura ao Senado, ao lado de Cláudio Castro, e incluía Rogéria Bolsonaro, mãe de Flávio, como primeira suplente. A composição começou a ruir após a prisão em flagrante de Canella, em 7 de julho, durante outra etapa da Operação Unha e Carne. Em agosto, ele desistiu do Senado e voltou à disputa proporcional.

Eleito deputado estadual em 4 de outubro de 2026, com 197.178 votos, a segunda maior votação para a Alerj, Canella voltou a ser preso onze dias depois. Segundo a Polícia Federal, a investigação apura uma organização criminosa suspeita de utilizar uma rede de postos de combustíveis para lavagem de dinheiro e de manter relações com agentes públicos. Relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) citado pela PF aponta movimentação superior a R$ 7,6 bilhões em seis anos.

Os fatos documentam uma aliança política e eleitoral relevante entre Canella e o grupo Bolsonaro. Até o momento, porém, não há elementos públicos que permitam atribuir a Flávio Bolsonaro participação, conhecimento ou responsabilidade pelos crimes investigados pela Polícia Federal, distinção necessária entre a responsabilidade política pela escolha de aliados e eventual responsabilidade penal, que é individual e depende de provas.

Ruptura com Waguinho aproxima Canella do bolsonarismo em 2022

A inflexão política de Márcio Canella ocorreu durante a eleição presidencial de 2022.

Até então, ele havia construído parte de sua trajetória ao lado de Waguinho, com quem foi eleito vice-prefeito de Belford Roxo em 2016 e manteve uma parceria que contribuiu para sua projeção na política estadual.

A aliança se rompeu no segundo turno da disputa presidencial. Waguinho aderiu à candidatura de Lula e passou a atuar pela eleição do petista na Baixada Fluminense. Canella tomou o caminho oposto e apoiou Jair Bolsonaro.

Em Belford Roxo, Bolsonaro obteve 60,20% dos votos válidos, contra 39,80% de Lula, resultado que reforçou a posição de Canella entre os eleitores alinhados à direita no município.

Após a eleição presidencial, Daniela Carneiro, mulher de Waguinho, foi nomeada ministra do Turismo no governo Lula. Canella permaneceu no campo político adversário e começou a estruturar o projeto que o levaria a enfrentar o grupo do antigo aliado nas eleições municipais seguintes.

Vitória em 2024 amplia projeção de Canella

Em 2024, Canella disputou a Prefeitura de Belford Roxo contra Matheus do Waguinho, sobrinho do então prefeito.

Com apoio do PL e do governador Cláudio Castro, venceu no primeiro turno com 155.299 votos, ou 62,88% dos votos válidos. Matheus recebeu 35,20%.

Durante a campanha, levantamento da Quaest já indicava forte identificação de Canella com o eleitorado bolsonarista: 67% dos entrevistados que haviam votado em Jair Bolsonaro em 2022 declaravam intenção de votar nele, contra 13% para o adversário.

A vitória colocou Canella no comando de uma das maiores cidades da Baixada Fluminense e ampliou seu peso nas negociações estaduais. Como presidente do União Brasil no Rio de Janeiro, passou a reunir influência eleitoral municipal e controle partidário, combinação relevante para as articulações de 2026.

Flávio Bolsonaro inclui Canella na chapa para o Senado

A relação com Flávio Bolsonaro ganhou caráter formal em 24 de fevereiro de 2026.

Após uma reunião em Brasília, o senador apresentou a composição que pretendia levar às urnas no Rio de Janeiro. A aliança reunia PL, União Brasil e Progressistas e previa Douglas Ruas para o governo estadual, Rogério Lisboa como vice e Cláudio Castro e Márcio Canella para as duas vagas do Senado.

A escolha de Canella provocou repercussões dentro do próprio PL. O senador Carlos Portinho, que pretendia disputar a reeleição, ficou fora do desenho inicial e manifestou preocupação com a decisão.

A preferência por Canella demonstrava o valor atribuído à sua base eleitoral na Baixada Fluminense e ao apoio do União Brasil na construção do palanque presidencial de Flávio no estado.

Rogéria Bolsonaro é escolhida para a primeira suplência

O vínculo político ganhou dimensão familiar com a indicação de Rogéria Bolsonaro como primeira suplente de Canella.

Ex-vereadora do Rio de Janeiro, Rogéria é mãe de Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro e ex-mulher de Jair Bolsonaro. Se Canella fosse eleito e deixasse o mandato, caberia à primeira suplente assumir a cadeira no Senado.

A composição, portanto, ultrapassava o apoio convencional entre legendas e vinculava diretamente um integrante da família Bolsonaro à candidatura do presidente estadual do União Brasil.

Em abril, Flávio reiterou publicamente sua confiança no aliado ao declarar “apoio integral, 100%” e referir-se a Canella como “meu amigo Márcio Canella”.

Renúncia à Prefeitura abre caminho para candidatura nacional

Para disputar o Senado, Canella renunciou à Prefeitura de Belford Roxo em abril de 2026, pouco mais de um ano depois de iniciar o mandato conquistado nas urnas em 2024.

A vice-prefeita Mariana Malta assumiu o município.

A decisão marcou a passagem de Canella de uma liderança municipal e estadual para integrante de um projeto de alcance nacional, vinculado à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.

Prisão em julho provoca crise na chapa

O projeto sofreu seu primeiro grande abalo em 7 de julho de 2026, quando a Polícia Federal deflagrou a sexta fase da Operação Unha e Carne.

A investigação apurava uma suposta organização criminosa que utilizaria uma rede de postos de combustíveis para lavagem de dinheiro. Canella foi alvo de busca e apreensão.

Durante a diligência, agentes encontraram um fuzil calibre .556 em seu veículo. O então candidato ao Senado foi preso em flagrante por posse irregular da arma e negou ser seu proprietário.

Posteriormente, o vereador Jorge Canella, aliado político sem parentesco com o ex-prefeito, foi apontado em reportagens como responsável pelo fornecimento do armamento.

A prisão abriu uma crise imediata na composição eleitoral. Aliados passaram a discutir a substituição de Canella, e sua permanência na chapa tornou-se politicamente difícil.

Desistência do Senado desmonta composição de fevereiro

Em 3 de agosto, Canella anunciou que não disputaria mais o Senado e decidiu concorrer novamente a deputado estadual.

O movimento teve consequência partidária. O União Brasil do Rio de Janeiro, presidido por ele, também se afastou do palanque estadual estruturado por Flávio Bolsonaro.

O arranjo anunciado em fevereiro, que reunia PL, União Brasil e PP e incluía Rogéria Bolsonaro como suplente, deixou de existir nos moldes originalmente concebidos.

A ruptura encerrou a aliança eleitoral formal para aquela disputa, sem apagar o histórico de apoio político construído nos anos anteriores.

Canella recebe 197.178 votos para a Alerj

A mudança de estratégia não eliminou a força eleitoral de Canella.

Em 4 de outubro de 2026, ele recebeu 197.178 votos e terminou a eleição como o segundo candidato mais votado para deputado estadual no Rio de Janeiro.

O resultado demonstrou a permanência de uma base eleitoral expressiva mesmo após a prisão de julho e a desistência da candidatura ao Senado.

PF prende Canella novamente em 15 de outubro

Onze dias depois da eleição, a Polícia Federal voltou a prender o deputado estadual eleito.

Nesta quinta-feira (15), a corporação deflagrou a oitava fase da Operação Unha e Carne, com seis mandados de prisão preventiva e 16 de busca e apreensão, além de sequestro de bens e suspensão das atividades de 112 empresas.

Segundo a PF, 96 dessas empresas seriam postos de combustíveis relacionados à estrutura financeira investigada.

Relatório do Coaf mencionado pelos investigadores aponta que o grupo sob apuração movimentou mais de R$ 7,6 bilhões em seis anos.

Canella e o delegado Marcus Amim, ex-chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro, estão entre os nomes identificados pela imprensa entre os presos.

Documentos policiais reproduzidos em reportagens atribuem a Canella a condição de “patrono político e articulador de alto escalão” do grupo investigado. A afirmação representa a tese da investigação e ainda está sujeita ao contraditório, à defesa e à avaliação do Poder Judiciário.

A PF também apura supostas relações entre agentes públicos e integrantes de grupos criminosos, além de negociações envolvendo áreas sob influência territorial do crime organizado.

Defesa afirma aguardar acesso aos autos

Após a operação, a assessoria de Márcio Canella informou que ainda não havia obtido acesso integral aos autos. Outra manifestação atribuída à defesa declarou confiança na Justiça.

As acusações feitas no âmbito de uma investigação policial não representam condenação. Canella conserva os direitos à presunção de inocência, ao contraditório e à ampla defesa.

Até as consultas realizadas nesta quinta-feira, 15 de outubro de 2026, não havia sido localizada manifestação pública de Flávio Bolsonaro sobre a nova prisão do antigo aliado. O UOL informou que procurava a assessoria do senador.

Aliança política não significa corresponsabilidade criminal

Os registros públicos permitem estabelecer que Márcio Canella e o grupo Bolsonaro mantiveram uma relação política crescente entre 2022 e 2026.

Canella apoiou Jair Bolsonaro na eleição presidencial de 2022, recebeu respaldo do PL em sua campanha municipal de 2024 e, dois anos depois, foi escolhido por Flávio Bolsonaro para integrar a chapa ao Senado. A inclusão de Rogéria Bolsonaro como primeira suplente aprofundou essa vinculação eleitoral.

Esse histórico sustenta a análise sobre a responsabilidade política pela formação de alianças e pela escolha de candidatos. Não permite, entretanto, estender automaticamente ao senador Flávio Bolsonaro as suspeitas criminais formuladas contra Canella.

Responsabilidade política e responsabilidade penal pertencem a planos distintos. A primeira pode ser examinada a partir das escolhas públicas, alianças e apoios documentados. A segunda exige demonstração individualizada de conduta, conhecimento e participação nos fatos investigados.

Até o momento, os elementos públicos disponíveis não demonstram envolvimento de Flávio Bolsonaro nas condutas que a Polícia Federal atribui a Márcio Canella.

Linha do tempo

2022 — Canella apoia Jair Bolsonaro no segundo turno presidencial, enquanto Waguinho adere a Lula. A divergência contribui para a ruptura entre os antigos aliados.

2024 — Com apoio do PL e de Cláudio Castro, Canella vence a Prefeitura de Belford Roxo no primeiro turno, com 62,88% dos votos válidos.

24 de fevereiro de 2026 — Flávio Bolsonaro anuncia Canella como candidato ao Senado na chapa formada por PL, União Brasil e PP.

Fevereiro de 2026 — Rogéria Bolsonaro é indicada para a primeira suplência de Canella.

Abril de 2026 — Canella renuncia à Prefeitura para disputar o Senado; Flávio reafirma publicamente apoio ao aliado.

7 de julho de 2026 — Canella é preso em flagrante durante a sexta fase da Operação Unha e Carne após a PF localizar um fuzil em seu veículo. Ele nega ser proprietário da arma.

3 de agosto de 2026 — Canella abandona a candidatura ao Senado e decide disputar uma cadeira na Alerj.

4 de agosto de 2026 — O afastamento do União Brasil do palanque de Flávio torna público o desmonte da composição articulada em fevereiro.

4 de outubro de 2026 — Canella é eleito deputado estadual com 197.178 votos, segunda maior votação para o cargo no Rio.

15 de outubro de 2026 — A PF prende Canella preventivamente na oitava fase da Operação Unha e Carne. A investigação aponta movimentação superior a R$ 7,6 bilhões em seis anos pelo grupo investigado.

Márcio Canella aproximou-se do grupo Bolsonaro em 2022, venceu a Prefeitura de Belford Roxo com apoio do PL em 2024 e foi escolhido por Flávio Bolsonaro para disputar o Senado em 2026, com Rogéria Bolsonaro como suplente prevista. Após uma prisão em julho, abandonou a chapa, elegeu-se deputado estadual com 197.178 votos e voltou a ser preso pela Polícia Federal em outubro na Operação Unha e Carne.
Márcio Canella e Flávio Bolsonaro: aliança construída desde 2022 é desfeita após operações da Polícia Federal.

Descubra mais sobre Jornal Grande Bahia (JGB)

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.




Deixe um comentário

Banner de Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
O Jornal Grande Bahia completa 19 anos de atuação contínua no ambiente digital, consolidando-se como referência do jornalismo independente na Bahia. Fundado em 2007, o veículo construiu uma trajetória marcada por rigor editorial, pluralidade temática e compromisso com a informação pública, aliando tradição jornalística, inovação tecnológica e participação qualificada no debate democrático.
Banner da Jads Foto.
Banner de Lula Fotografia.
Banner da RFI.
Banner com tema Assine o JGB no Google.

Descubra mais sobre Jornal Grande Bahia (JGB)

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo