Deepfakes na reta final da eleição e o desafio de checar o que circula

Na reta final de uma eleição, a quantidade de conteúdo político que circula em grupos de WhatsApp, no Instagram e no TikTok explode. Entre vídeos de comício, cortes de debate e áudios de apoiadores, aparece um tipo de material que exige atenção redobrada: os deepfakes, vídeos e áudios fabricados ou manipulados com inteligência artificial para fazer alguém dizer ou fazer algo que nunca aconteceu. Em 2026, com o segundo turno marcado para o fim de outubro, o desafio de separar o verdadeiro do falso chega a Feira de Santana, a Salvador e a cada grupo de família na Bahia.

O que mudou com a inteligência artificial

Montagens sempre existiram, mas exigiam tempo e habilidade. Hoje, aplicativos e ferramentas on-line conseguem clonar uma voz com poucos segundos de gravação e sincronizar os lábios de uma pessoa com um texto qualquer. O resultado nem sempre é perfeito, mas costuma ser bom o bastante para quem assiste no celular, com o som baixo, entre uma mensagem e outra.

O áudio é o formato mais traiçoeiro. Sem imagem para revelar falhas, uma voz conhecida dizendo algo polêmico tende a ser aceita de primeira, ainda mais quando chega encaminhada por alguém de confiança.

Há ainda um efeito colateral pouco comentado: quando qualquer conteúdo pode ser falso, conteúdos verdadeiros também passam a ser desacreditados. Um vídeo autêntico e comprometedor pode ser descartado como “montagem de IA” por quem não quer acreditar nele. A dúvida generalizada, nesse caso, também prejudica o eleitor.

O que diz a regra eleitoral

O Tribunal Superior Eleitoral proibiu o uso de deepfakes na propaganda eleitoral e passou a exigir que conteúdos produzidos ou alterados com inteligência artificial tragam aviso claro ao eleitor. A regra vale para campanhas, partidos e candidatos, e o descumprimento pode levar à remoção do conteúdo e a punições previstas na legislação eleitoral.

O TSE também mantém canais para denúncia de desinformação e parcerias com plataformas digitais. Mas a norma não impede que conteúdos falsos sejam produzidos por terceiros e espalhados de forma anônima, e é aí que entra o papel de cada eleitor.

Sinais de que um vídeo ou áudio pode ser falso

Em vídeos, observe a boca e os olhos: movimentos labiais que não acompanham bem a fala, piscadas estranhas, contornos borrados no rosto e variações de iluminação entre o rosto e o fundo. Em áudios, preste atenção em entonação monótona, respirações ausentes, ruídos que somem de repente e frases que soam fora do jeito habitual de falar da pessoa.

O contexto também importa. Conteúdo sem data, sem local, sem fonte original e com tom de urgência, do tipo “repasse antes que apaguem”, merece desconfiança. Se uma declaração bombástica não aparece em nenhum veículo de imprensa, a chance de ser montagem é grande.

Desconfie também de perfis recém-criados, sem histórico de publicações e com muitos seguidores sem foto, que aparecem de repente compartilhando o mesmo conteúdo. Essa repetição coordenada é típica de campanhas de desinformação e serve para dar a impressão de que o assunto é um consenso.

Como checar antes de compartilhar

Procure a origem. Uma busca pelo trecho da frase ou pelas palavras-chave do vídeo costuma revelar se o material já foi desmentido. Iniciativas de checagem, como o Projeto Comprova, que reúne veículos de imprensa de todo o país, publicam verificações de conteúdos que viralizam durante a campanha.

Ferramentas automáticas de detecção ajudam, mas ainda erram, tanto para mais quanto para menos. Por isso vale acompanhar quem estuda o tema de perto, como os pesquisadores do Cybernews, que publicam análises sobre inteligência artificial, privacidade e golpes digitais e mostram como essas técnicas evoluem rapidamente. O conhecimento sobre como os deepfakes são feitos é uma das melhores defesas contra eles.

O papel de quem recebe

Na dúvida, não encaminhe. Um conteúdo falso perde força quando para de circular, e cada pessoa que decide checar antes de compartilhar interrompe uma corrente. Em grupos de família ou de trabalho, vale responder com educação, indicando a checagem disponível, em vez de discutir com quem enviou.

Se você identificar um conteúdo falso em circulação, é possível denunciá-lo nas próprias plataformas, que têm opções específicas para desinformação eleitoral, e nos canais do TSE. Guardar o link e um print ajuda na análise.

A desinformação não escolhe lado. Ela pode atingir qualquer candidato e prejudicar qualquer eleitor. Desconfiar de vídeos e áudios perfeitos demais, buscar a fonte e dar tempo para que a checagem aconteça são atitudes simples que protegem o debate e o voto, na Bahia e em todo o Brasil.  


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