El Niño pode levar 4,8 milhões de pessoas à pobreza na América Latina e no Caribe, alerta Cepal

A possibilidade de um episódio extremo do fenômeno climático El Niño pode provocar perdas de pelo menos 2% do Produto Interno Bruto (PIB) da América Latina e do Caribe e levar até 4,8 milhões de pessoas à pobreza até o final da década. O alerta foi divulgado pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), em relatório que analisa os impactos econômicos e sociais de uma anomalia climática de elevada intensidade na região.

Segundo as estimativas da entidade, os prejuízos poderão se estender pelos próximos três anos, com concentração de aproximadamente metade das perdas no primeiro ano do fenômeno. Os efeitos sobre a renda das famílias, a produção agrícola e os serviços essenciais podem ampliar desigualdades e agravar vulnerabilidades sociais.

O relatório também prevê pressões inflacionárias e impactos sobre os setores energético, pesqueiro e agrícola. A intensidade dos efeitos deverá variar entre os países, de acordo com suas características econômicas, a dependência de recursos naturais e a capacidade de preparação e resposta a eventos climáticos extremos.

Cepal projeta perdas econômicas e aumento da pobreza

A análise da Cepal considera um cenário de El Niño extremo e compara seus efeitos com uma situação em que o fenômeno não ocorra. Nesse contexto, a estimativa de até 4,8 milhões de pessoas adicionais em situação de pobreza reflete os possíveis efeitos da redução da renda e da deterioração das condições econômicas.

As perdas econômicas projetadas não se limitam ao período de ocorrência da anomalia climática. De acordo com o relatório, os efeitos poderão persistir por três anos, afetando a atividade produtiva e a capacidade de recuperação das economias nacionais.

A distribuição dos prejuízos também deverá ser desigual. Comunidades rurais, famílias de baixa renda e setores dependentes das condições meteorológicas podem enfrentar dificuldades mais intensas, especialmente quando secas, temperaturas elevadas e alterações nos padrões de precipitação comprometem a produção e o abastecimento.

El Niño pode atingir intensidade muito forte em 2026 e 2027

As projeções da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês) indicam probabilidade superior a 90% de o El Niño atingir intensidade muito forte durante o outono e o inverno de 2026–2027 no Hemisfério Norte, conforme os dados citados no relatório.

A mesma avaliação aponta uma probabilidade de 69% de ocorrência de um episódio classificado como “Super El Niño”, caracterizado por anomalias na temperatura da superfície do mar superiores a 2,5 °C ou 3 °C, conforme o critério utilizado.

O El Niño é um fenômeno climático natural associado ao aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico equatorial, capaz de alterar padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do planeta. Seus efeitos variam conforme a região, podendo provocar secas em algumas áreas e chuvas intensas em outras.

Mudanças climáticas ampliam os riscos econômicos e sociais

A Cepal ressalta que a possibilidade de um El Niño intenso ocorre em um contexto de mudanças climáticas provocadas pela atividade humana, que ampliam os riscos associados à variabilidade natural do clima.

O relatório cita que a temperatura média global em 2024 ficou 1,55 °C acima dos níveis pré-industriais. Esse dado reforça a preocupação com a exposição de países e comunidades a eventos extremos, sobretudo quando há infraestrutura insuficiente e elevada dependência de atividades sensíveis às condições ambientais.

A combinação entre temperaturas elevadas, irregularidade das chuvas e pressão sobre os recursos naturais pode afetar a disponibilidade de alimentos, o custo da energia e a renda de trabalhadores. Esses fatores também podem repercutir sobre a inflação, principalmente quando a redução da oferta agrícola aumenta os preços de produtos básicos.

Setor energético enfrenta risco de falta de água e aumento da demanda

O setor energético é apontado pela Cepal como uma das áreas estruturalmente vulneráveis na América Latina. Em alguns países, a geração hidrelétrica representa mais de 70% da matriz elétrica, enquanto mais da metade da capacidade instalada tem mais de 30 anos de uso.

Em períodos de menor disponibilidade hídrica, a redução da geração hidrelétrica pode coincidir com o aumento da demanda de eletricidade para climatização, especialmente nas grandes cidades. Essa combinação eleva o risco de interrupções no fornecimento e de custos operacionais adicionais.

A vulnerabilidade da infraestrutura também representa um desafio para o planejamento energético. A diversificação das fontes de geração, a modernização das instalações e a adoção de medidas de gestão da demanda podem contribuir para reduzir a exposição a períodos prolongados de seca e calor extremo.

Agricultura e pesca podem sofrer perdas de produção

No setor agrícola, o relatório identifica probabilidades superiores a 70% de ocorrência de secas com efeitos sobre a agricultura nos meses seguintes, segundo as projeções citadas. A falta de chuva pode comprometer lavouras de subsistência, reduzir a produtividade e diminuir a renda das comunidades rurais.

Os impactos podem alcançar diferentes etapas das cadeias produtivas, desde o plantio até a distribuição dos alimentos. A queda da produção, quando combinada com dificuldades logísticas e aumento dos custos, pode pressionar os preços e ampliar os riscos de insegurança alimentar.

A pesca também está exposta às alterações ambientais associadas ao El Niño. Experiências anteriores demonstraram que mudanças nas condições oceânicas podem reduzir capturas e alterar a distribuição de espécies importantes para a atividade econômica. Essas mudanças afetam pescadores, trabalhadores do processamento e comunidades que dependem dos recursos marinhos.

Segurança alimentar pode ser afetada por eventos climáticos extremos

A deterioração das condições de produção agrícola e pesqueira pode repercutir sobre o acesso aos alimentos, principalmente entre famílias que destinam uma parcela elevada da renda à alimentação.

O material citado no relatório também apresenta uma estimativa da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), segundo a qual o El Niño pode acrescentar pelo menos 49 milhões de pessoas à população em situação de insegurança alimentar aguda até o final de 2027. Essa projeção amplia a dimensão internacional das preocupações relacionadas ao fenômeno.

A insegurança alimentar pode resultar tanto da redução da disponibilidade de alimentos quanto da perda de renda e do aumento dos preços. Por isso, o acompanhamento das safras, o apoio aos produtores e a preparação dos sistemas de proteção social são considerados elementos relevantes para reduzir os impactos sobre as populações mais vulneráveis.

Cepal defende prevenção e planejamento antecipado

O secretário-executivo da Cepal, José Manuel Salazar-Xirinachs, afirmou que as respostas adotadas depois da declaração de uma emergência tendem a custar mais do que as medidas preventivas. A entidade recomenda que os governos antecipem os riscos e incorporem a dimensão climática ao planejamento econômico e social.

Entre as medidas sugeridas estão a inclusão permanente dos riscos climáticos nas políticas nacionais, a proteção de infraestruturas estratégicas e de meios de subsistência e o fortalecimento da coordenação regional para administrar recursos compartilhados.

A preparação antecipada também envolve o monitoramento das condições meteorológicas, o planejamento do uso da água, a proteção das atividades agrícolas e a adoção de estratégias para reduzir a vulnerabilidade do sistema energético. A implementação dessas ações pode contribuir para limitar perdas econômicas e reduzir os efeitos sobre a população.

O alerta da Cepal destaca que a intensidade dos prejuízos dependerá não apenas da força do El Niño, mas também da capacidade dos países de prevenir danos e proteger as famílias mais expostas. O planejamento e a cooperação regional são apresentados como instrumentos para evitar que os efeitos climáticos se convertam em crises sociais prolongadas.

*Com informações da ONU News.


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