A 14ª edição da Festa Literária Internacional de Cachoeira (FLICA) promoverá, entre 5 e 7 de novembro de 2026, debates sobre os impactos da inteligência artificial (IA) na criação artística, na autoria e na identidade cultural. A programação da Geração FLICA, espaço dedicado à juventude, reunirá escritores, ilustradores, quadrinistas e criadores de conteúdo para discutir as transformações tecnológicas e seus efeitos sobre o trabalho criativo.
As atividades serão realizadas no Cine Theatro Cachoeirano, em Cachoeira, no Recôncavo Baiano. A programação inclui conversas sobre literatura, narrativa, ilustração e histórias em quadrinhos, com atenção aos limites do uso da inteligência artificial, à proteção dos direitos autorais e às características da criação humana que não podem ser reduzidas à reprodução de padrões algorítmicos.
A curadoria é de Deco Lipe, que propõe o diálogo entre diferentes linguagens artísticas e referências culturais. A iniciativa busca aproximar a juventude de questões relacionadas ao uso da tecnologia na produção de conteúdo, incluindo oportunidades profissionais, preservação da identidade autoral e construção de narrativas capazes de estabelecer conexões com o público.
André Carvalhal abre debates sobre inteligência artificial e imaginação
A mesa de abertura da Geração FLICA, intitulada “(IA)gora, para onde vai a nossa imaginação?”, está programada para quinta-feira (05/11), às 14h. O encontro reunirá o escritor carioca André Carvalhal e a poeta e pesquisadora Sandra Liss, com mediação de Breno Fernandes.
Carvalhal é escritor, finalista do Prêmio Jabuti e diretor criativo com atuação nas áreas de comportamento, branding e design sustentável. Sandra Liss é escritora, doutora em Literatura e Cultura pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e professora de Literatura da Universidade do Estado da Bahia (UNEB).
A mediação ficará a cargo de Breno Fernandes, escritor e coordenador do Laboratório de Inteligência Artificial do Programa de Pós-Graduação em Crítica Cultural da UNEB, em Alagoinhas, onde pesquisa os impactos da IA na cultura.
Durante o debate, a discussão deverá abordar o equilíbrio entre o uso de ferramentas tecnológicas e o desenvolvimento da capacidade criativa individual. Carvalhal defende a preservação da curiosidade, da descoberta espontânea e do repertório construído fora das recomendações automatizadas.
Para o escritor, a dependência excessiva dos algoritmos pode comprometer o exercício do pensamento, da imaginação e do autoconhecimento. A reflexão coloca em pauta a necessidade de utilizar a tecnologia sem abrir mão da autonomia intelectual e da construção de uma identidade própria.
Dora Freind discute narrativa humana e lança livro na FLICA
Na sexta-feira (06/11), às 16h, a mesa “Histórias que só a gente conta” reunirá a escritora e atriz carioca Dora Freind e o artista baiano Matheus Chão de Palha. A conversa será mediada pela educadora Catarina Neris e abordará a experiência humana na construção de histórias e as diferenças entre processos criativos humanos e sistemas de inteligência artificial.
Durante a programação, Dora Freind apresentará o livro As vacas não me olham mais na cara. A obra parte das relações entre humanos e animais para desenvolver reflexões sobre a fronteira entre o humano e o robótico, tema que dialoga com os debates sobre tecnologia, identidade e construção de personagens.
A escritora pretende compartilhar o processo intuitivo de desenvolvimento da narrativa e discutir como experiências, sensações e escolhas individuais participam da criação literária. A proposta é examinar os elementos que contribuem para uma voz narrativa própria e para histórias que escapam a fórmulas genéricas de produção de conteúdo.
Outro ponto abordado por Dora será o desafio de estabelecer vínculos duradouros com os leitores em um ambiente marcado pelo consumo acelerado de informações. A escritora questiona como a literatura pode produzir experiências significativas em meio à circulação contínua de vídeos, áudios e publicações nas plataformas digitais.
Paulo Moreira e ilustradores debatem IA nos quadrinhos
No sábado (07/11), às 9h, a mesa “Traço, quadro e ideia: Ilustração e HQ na era da IA” reunirá artistas para discutir as transformações da inteligência artificial na ilustração, nos quadrinhos e nas perspectivas profissionais do setor.
Participam do encontro o ilustrador paraibano Paulo Moreira, a ilustradora baiana Isabella Ismile e o ilustrador baiano Breu. A mediação será realizada por Daniel Cesart, ilustrador, escritor, quadrinista e editor, vencedor do 36º e do 37º Troféu HQMIX.
Paulo Moreira venceu três categorias do 42º Troféu Angelo Agostini e é conhecido pelas tirinhas de humor publicadas nas redes sociais. Isabella Ismile criou a página Eipretinha e a personagem Maflô, por meio das quais aborda temas como autoestima e identidade negra. Breu pesquisa quadrinhos pelo Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC), é psicólogo e estudante de Artes Visuais da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).
O debate deverá abordar o uso de grandes acervos de imagens para treinar sistemas de IA e simular estilos visuais desenvolvidos por artistas. Paulo Moreira defende a discussão de limites e mecanismos de proteção ao trabalho autoral, diante das mudanças provocadas pela tecnologia.
Para o ilustrador, a ausência de regulamentação suficiente e o uso de obras disponíveis na internet para reproduzir linguagens artísticas levantam questões sobre direitos autorais, reconhecimento profissional e valorização do trabalho humano.
Direitos autorais e mercado criativo entram na discussão
A programação da Geração FLICA coloca em debate questões que atravessam diferentes setores da economia criativa. Na literatura, na ilustração e nos quadrinhos, a expansão das ferramentas de inteligência artificial modifica os processos de produção, edição e distribuição de conteúdo.
Entre os temas em discussão estão a autoria de obras produzidas com auxílio de sistemas automatizados, o uso de trabalhos preexistentes no treinamento de modelos de IA e os efeitos dessas ferramentas sobre as oportunidades profissionais de escritores e artistas.
As conversas também abordam a relação entre tecnologia e identidade cultural. A diversidade de experiências, repertórios e referências regionais aparece como elemento relevante para a produção artística, especialmente em um ambiente digital no qual conteúdos podem ser reproduzidos e distribuídos em grande escala.
Ao reunir profissionais de diferentes áreas, a Geração FLICA propõe uma reflexão sobre o uso da tecnologia sem desconsiderar os aspectos éticos, econômicos e culturais envolvidos. A programação busca aproximar o público jovem das discussões sobre inovação, criatividade e valorização do trabalho artístico.
FLICA 2026 integra programação cultural da Bahia
A 14ª edição da Festa Literária Internacional de Cachoeira integra o Bahia Literária, programa da Fundação Pedro Calmon (FPC), unidade vinculada à Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SecultBA).
O evento conta com patrocínio do Governo do Estado da Bahia, por meio do FazCultura, da Secretaria da Fazenda (Sefaz), da SecultBA e da Secretaria da Educação (SEC). A realização é da SCHOMMER Produções.
A programação da Geração FLICA amplia a presença de temas relacionados à tecnologia e à cultura entre as atividades da festa literária. Ao reunir escritores, artistas visuais e criadores de conteúdo, o espaço busca promover o intercâmbio de experiências e discutir os efeitos da inteligência artificial sobre a produção cultural contemporânea.
Os debates previstos para 5, 6 e 7 de novembro colocam no centro da programação questões sobre autoria, identidade, direitos dos artistas e os limites da automação na criação. A iniciativa insere a discussão sobre inteligência artificial no contexto da formação cultural e das perspectivas profissionais das novas gerações.








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