Francis Halzen recebe Nobel de Física de 2026 por avanços na detecção de neutrinos de alta energia

O físico belga Francis Halzen foi anunciado como laureado com o Prêmio Nobel de Física de 2026, em reconhecimento às contribuições para o Observatório de Neutrinos IceCube e à descoberta de neutrinos de alta energia de origem astrofísica. O anúncio foi feito nesta terça-feira (06/10/2026) pela Academia Real das Ciências da Suécia.

O IceCube está instalado sob o gelo da Antártida e reúne milhares de sensores distribuídos em uma estrutura com volume aproximado de um quilômetro cúbico. O observatório permitiu identificar neutrinos de alta energia e determinar tanto a energia das partículas quanto a direção de onde elas chegaram à Terra.

Parte do processamento de dados relacionado às pesquisas contou com a infraestrutura da GridUnesp, estrutura computacional instalada no câmpus de São Paulo da Universidade Estadual Paulista (Unesp). O trabalho também envolveu pesquisadores brasileiros, entre eles Sérgio Novaes, diretor científico do Núcleo de Computação Científica (NCC) da Unesp e pesquisador responsável pelo SPRACE.

IceCube amplia capacidade de estudar o Universo

Segundo Sérgio Novaes, o diferencial do IceCube está na capacidade de identificar duas informações fundamentais sobre os neutrinos: a energia com que chegam e sua direção de origem. De acordo com o pesquisador, o experimento foi o primeiro a conseguir realizar essa identificação de forma sistemática.

A trajetória de colaboração entre Halzen e Novaes começou em 1991, quando o físico belga coordenava um dos principais grupos internacionais de fenomenologia, área situada na interface entre a física teórica e a experimental.

A colaboração entre os pesquisadores se desenvolveu posteriormente na Universidade de Wisconsin–Madison, nos Estados Unidos, e contribuiu para o intercâmbio de estudantes entre os grupos de pesquisa. A parceria também aproximou pesquisadores brasileiros dos projetos associados ao estudo dos neutrinos e da física de partículas.

GridUnesp participou do processamento de dados

A infraestrutura computacional da GridUnesp, localizada no câmpus de São Paulo, foi utilizada no processamento de dados relacionados aos avanços científicos associados ao trabalho de Halzen. A estrutura apoia análises que exigem grande capacidade computacional.

Segundo Novaes, a participação da infraestrutura da Unesp também ocorreu em outros experimentos que resultaram em descobertas reconhecidas com o Prêmio Nobel. Entre eles estão os trabalhos relacionados à detecção do bóson de Higgs e ao experimento LIGO, responsável pela detecção de ondas gravitacionais.

A participação brasileira no processamento de dados demonstra a integração entre estruturas computacionais nacionais e grandes colaborações internacionais em física experimental. No caso do IceCube, o processamento é parte da cadeia necessária para transformar os dados coletados pelos sensores instalados no gelo em informações científicas sobre a origem e as características dos neutrinos.

Neutrinos são conhecidos como “partículas fantasmas”

Os neutrinos estão entre as partículas fundamentais da natureza. Eles apresentam massa extremamente pequena, existem em grande quantidade e interagem muito pouco com a matéria, características que dificultam sua detecção.

Milhões de neutrinos atravessam a Terra e o corpo humano a cada segundo, mas a maioria passa pela matéria sem produzir uma interação que possa ser registrada diretamente. Essa propriedade deu origem à denominação de “partículas fantasmas”.

Apesar da dificuldade de detecção, os neutrinos desempenham papel importante na investigação dos processos físicos que ocorrem no Universo. Eles são produzidos em diferentes fenômenos, incluindo reações no interior das estrelas, explosões estelares e processos associados à formação de buracos negros.

Neutrinos de alta energia funcionam como mensageiros cósmicos

Os neutrinos de alta energia possuem uma característica relevante para a astronomia: podem percorrer grandes distâncias sem serem desviados por campos magnéticos. Dessa forma, preservam informações relacionadas à região do Universo onde foram produzidos.

Essa propriedade diferencia os neutrinos de outras partículas que também são geradas em fenômenos astrofísicos extremos. Ao chegarem à Terra, eles podem fornecer informações sobre ambientes que não são facilmente observados por meio da luz ou de outras formas de radiação eletromagnética.

O IceCube utiliza os sensores instalados no gelo da Antártida para registrar os sinais produzidos quando neutrinos interagem com a matéria. A partir desses registros, os pesquisadores conseguem determinar características das partículas e reconstruir sua direção de chegada.

Nobel reconhece contribuição para a física de partículas e astronomia

A distinção concedida a Francis Halzen reconhece o desenvolvimento de uma infraestrutura experimental voltada à identificação de neutrinos de alta energia e sua utilização para investigar fenômenos astrofísicos.

A importância científica do método está na possibilidade de estudar o Universo por meio de partículas que carregam informações diretamente das regiões onde foram produzidas. Como os neutrinos podem atravessar grandes distâncias sem sofrer desvios magnéticos significativos, sua trajetória contribui para relacionar os eventos observados na Terra às fontes cósmicas de origem.

A pesquisa associada ao IceCube amplia, portanto, as ferramentas disponíveis para a astronomia e para a física fundamental. A detecção de neutrinos de alta energia permite investigar processos extremos do Universo por uma abordagem complementar às observações realizadas por meio da luz e de outras formas de radiação.


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