Governador Tarcísio de Freitas mantém secretários, descarta volta de Gilberto Kassab e sinaliza diálogo com Lula no segundo mandato em São Paulo

O governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), afirmou nesta quinta-feira (29/10/2026) que pretende preservar a maior parte do secretariado em seu segundo mandato, confirmou a continuidade de Geraldo Melo Filho, na Agricultura, e indicou a permanência de Marília Marton, na Cultura, ao mesmo tempo em que descartou o retorno de Gilberto Kassab (PSD) à administração estadual. Em entrevista ao Estadão, concedida após as eleições de 2026, Tarcísio também anunciou que pretende substituir o comando da Saúde e afirmou que, apesar de continuar na oposição ao presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT), buscará cooperação com o Governo Federal em projetos de interesse de São Paulo.

A definição ocorre menos de um mês depois de Tarcísio conquistar novo mandato no primeiro turno da eleição paulista. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o governador recebeu 14.491.874 votos, equivalentes a 62,65% dos votos válidos, e foi reeleito ao lado do vice Felício Ramuth (MDB).

Tarcísio prevê continuidade, mas prepara mudanças pontuais no secretariado

Ao tratar da composição administrativa que assumirá em 2027, Tarcísio definiu o próximo mandato como “um governo de continuidade”. Segundo ele, a reeleição representa um respaldo à manutenção das políticas que considera bem-sucedidas, sem afastar a necessidade de revisão de áreas em que identifica problemas de desempenho.

O governador afirmou que a maioria dos secretários deverá permanecer, mas informou que algumas pastas terão mudanças. A orientação apresentada por ele é manter uma equipe com predominância de perfis técnicos, combinando experiência administrativa e capacidade de gestão.

As declarações representam, neste momento, decisões políticas anunciadas pelo governador. A permanência formal dos atuais titulares no segundo mandato dependerá dos atos administrativos correspondentes, incluindo nomeações e eventuais exonerações.

Geraldo Melo Filho permanecerá na Agricultura e Marília Marton é indicada para continuar na Cultura

Entre os nomes antecipados, Tarcísio informou que já convidou Geraldo Melo Filho para permanecer na Secretaria de Agricultura e Abastecimento. O economista assumiu a pasta em 13/01/2026, após substituir Guilherme Piai, que comandou a secretaria entre 2023 e 2025.

Melo Filho é economista formado pela Universidade de Brasília e presidiu o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) entre 2019 e 2022. Antes de assumir a pasta paulista, passou por instituições vinculadas ao setor agropecuário e ocupou a direção-geral do Instituto Pensar Agropecuária.

Na Cultura, Tarcísio afirmou que pretende convidar Marília Marton para continuar à frente da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas. A atual secretária é cientista social formada pela PUC-SP e possui trajetória em diferentes órgãos públicos. O portal oficial do Governo de São Paulo ainda a apresenta como titular da pasta.

Saúde deverá ter novo comando e Natália Resende ainda terá situação definida

Uma das mudanças expressamente antecipadas pelo governador deverá ocorrer na Secretaria de Estado da Saúde, atualmente comandada por Eleuses Paiva. Tarcísio afirmou que está entrevistando candidatos para substituir o atual titular e que procura um perfil com conhecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) e experiência em gestão.

Segundo o relato apresentado na entrevista, três pessoas já haviam sido entrevistadas e outras duas avaliações estavam previstas. Até a divulgação das declarações, nenhum nome havia sido oficialmente anunciado para assumir a secretaria a partir de 2027.

Também permanece indefinida a situação de Natália Resende, titular da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística. Tarcísio afirmou que teria uma conversa com a secretária para discutir seus planos. O Governo de São Paulo ainda registra Resende como responsável pela pasta.

Kassab fica fora do próximo secretariado após ocupar posição central no primeiro mandato

A manifestação de maior impacto político da entrevista ocorreu quando Tarcísio foi questionado sobre eventual retorno de Gilberto Kassab ao governo paulista. O governador respondeu: “Não. Acho que não.” Sua justificativa foi a premissa pessoal de que quem já passou por determinada função não deveria retornar à mesma posição.

Kassab integrou a administração desde o início do primeiro mandato de Tarcísio. Foi nomeado secretário de Governo e Relações Institucionais em 01/01/2023, cargo estratégico na articulação política do Palácio dos Bandeirantes.

Em 25/03/2026, o presidente nacional do PSD deixou a secretaria afirmando que a função se tornara incompatível com suas responsabilidades partidárias e eleitorais. À época, declarou apoio à reeleição do governador paulista. Reportagens publicadas naquele período também registraram desgaste político entre os dois, associado, entre outros fatores, às movimentações eleitorais do PSD e à composição da chapa estadual.

Kassab disputou a Vice-Presidência enquanto PSD manteve apoio a Tarcísio em São Paulo

A saída do governo antecedeu uma mudança relevante no posicionamento nacional de Kassab. Em 26/07/2026, a convenção nacional do PSD oficializou a chapa presidencial formada por Ronaldo Caiado e Gilberto Kassab, enquanto a legenda manteve, no plano paulista, apoio à reeleição de Tarcísio.

O cenário evidenciou uma separação entre as estratégias nacional e estadual do partido. Kassab seguiu liderando o PSD e disputou a Vice-Presidência, enquanto Tarcísio permaneceu aliado do campo político que apoiou Flávio Bolsonaro (PL) na corrida presidencial.

Antes disso, outra mudança havia reduzido a presença do PSD na chapa majoritária paulista. Em 28/03/2026, o vice-governador Felício Ramuth deixou a legenda de Kassab e filiou-se ao MDB. Tarcísio manteve Ramuth como companheiro de chapa e ambos foram reeleitos em outubro.

A sucessão desses movimentos — saída de Kassab do governo, candidatura nacional pelo PSD, migração partidária de Ramuth e agora a declaração de que o dirigente não voltará ao secretariado — demonstra uma redução do espaço institucional direto ocupado pelo presidente do PSD no Executivo paulista. Isso não significa, por si só, rompimento político integral entre Tarcísio e o PSD, questão que dependerá da composição definitiva da base parlamentar e administrativa do segundo mandato.

Tarcísio procura estabelecer relação institucional com Lula após derrota de Flávio Bolsonaro

A reorganização do governo estadual ocorre também sob um novo cenário nacional. No domingo (25/10/2026), Lula foi reeleito presidente com 64.256.232 votos, ou 51,79% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro recebeu 59.826.041 votos, equivalentes a 48,21%. A diferença final foi de 4.430.191 votos.

Tarcísio apoiou Flávio no segundo turno, mas relatou que, após a divulgação do resultado, telefonou para Edinho Silva, presidente nacional do PT, a fim de cumprimentá-lo pela vitória de Lula e comunicar sua disposição para manter cooperação institucional em temas de interesse paulista.

O governador deixou claro que pretende continuar fazendo oposição política ao governo petista, mas afirmou que colocará o “interesse de São Paulo em primeiro lugar” nas relações administrativas com Brasília.

A postura separa dois níveis de atuação: de um lado, oposição política e programática ao Governo Federal; de outro, cooperação federativa em áreas que dependem de coordenação entre União e Estado, especialmente infraestrutura, financiamentos e políticas públicas compartilhadas.

Tarcísio reclama de demora em operações de crédito, mas admite cooperação com Brasília

Na entrevista, Tarcísio voltou a acusar o Governo Federal de ter demorado na análise ou encaminhamento de operações financeiras pretendidas por São Paulo. Segundo sua versão, algumas operações externas não teriam sido encaminhadas ao Senado e um financiamento envolvendo o Banco do Brasil teria levado aproximadamente 90 dias para ser liberado, ante uma média de 20 dias mencionada pelo próprio governador para outras unidades da Federação.

Esses números constituem uma declaração do governador apresentada na entrevista e não devem ser confundidos com conclusão independente sobre eventual tratamento discriminatório pelo Governo Federal. A caracterização das dificuldades como punição política a São Paulo corresponde à interpretação de Tarcísio e exigiria análise documental comparativa das operações para confirmação.

Apesar das divergências, há exemplos concretos de cooperação entre os dois níveis de governo. O Túnel Santos–Guarujá integra uma parceria entre União e Estado. O projeto prevê cerca de R$ 6,8 bilhões em investimentos, com recursos públicos federais e estaduais, além da participação privada. As obras civis estão previstas entre 2027 e 2030, com operação estimada para 2031.

Segundo mandato terá saúde, segurança, digitalização e infraestrutura entre prioridades

Tarcísio afirmou que pretende concentrar o segundo mandato na ampliação dos serviços digitais, aproximação do Estado com o cidadão, redução de filas na saúde, melhoria da segurança pública e continuidade das grandes obras de infraestrutura.

A escolha de um novo comando para a Saúde se insere nesse planejamento. Ao mesmo tempo, a manutenção de titulares em áreas como Agricultura e Cultura indica uma reforma administrativa seletiva, e não uma substituição generalizada da equipe.

O desenho final do secretariado deverá ser divulgado gradualmente nas semanas seguintes, segundo o governador. Portanto, além das decisões já anunciadas, permanece aberta a definição sobre outras pastas e eventuais mudanças na distribuição política dos cargos.

Reeleição fortalece Tarcísio e projeta discussão sobre 2030

A vitória no primeiro turno ampliou o peso político de Tarcísio no campo de centro-direita. O governador obteve 62,65% dos votos válidos, resultado que lhe assegurou mais quatro anos à frente do maior colégio eleitoral do país.

Em outro trecho da mesma entrevista ao Estadão, o governador admitiu, pela primeira vez de forma explícita, que poderá avaliar uma candidatura à Presidência da República em 2030, condicionando essa possibilidade ao desempenho de seu segundo mandato e à conjuntura política futura.

Tarcísio também defendeu mudanças no Judiciário, incluindo discussão sobre critérios para ingresso no STF e restrições a decisões monocráticas, além de afirmar que ministros podem responder por crimes de responsabilidade nos termos previstos na legislação. Em segurança pública, manifestou apoio à PEC da Segurança e à redução da maioridade penal para determinados crimes. Essas posições ampliam sua presença no debate nacional, embora não constituam medidas de competência exclusiva do governador paulista.

Linha do tempo dos principais acontecimentos

  • 01/01/2023 — Kassab entra no Governo de São Paulo: Gilberto Kassab é nomeado secretário de Governo e Relações Institucionais no início do primeiro mandato de Tarcísio, assumindo papel central na articulação política estadual.
  • 13/01/2026 — Geraldo Melo Filho assume a Agricultura: o economista é nomeado secretário de Agricultura e Abastecimento, substituindo Guilherme Piai.
  • 25/03/2026 — Kassab deixa o secretariado: presidente do PSD anuncia saída para dedicar-se às atividades partidárias e eleitorais de 2026.
  • 28/03/2026 — Felício Ramuth troca o PSD pelo MDB: o vice-governador deixa o partido de Kassab e mantém-se no projeto eleitoral de Tarcísio.
  • 26/07/2026 — PSD oficializa Caiado e Kassab: convenção nacional confirma Ronaldo Caiado candidato a presidente e Gilberto Kassab a vice, mantendo simultaneamente apoio a Tarcísio na disputa paulista.
  • 04/10/2026 — Tarcísio é reeleito no primeiro turno: governador obtém 14.491.874 votos, ou 62,65% dos válidos, ao lado de Felício Ramuth.
  • 25/10/2026 — Lula vence o segundo turno presidencial: presidente recebe 64.256.232 votos (51,79%), contra 59.826.041 (48,21%) de Flávio Bolsonaro.
  • 28/10/2026 — Tarcísio detalha segundo governo: em entrevista ao Estadão, anuncia permanências na Agricultura e Cultura, prevê mudança na Saúde, descarta retorno de Kassab e relata contato com Edinho Silva após a vitória de Lula.
  • 29/10/2026 — Declarações ganham repercussão nacional: a composição do segundo governo paulista passa a ser analisada também sob a perspectiva da reorganização da centro-direita e da relação de Tarcísio com o quarto governo Lula.

As informações confirmadas permitem identificar uma combinação de continuidade administrativa e recomposição política. Tarcísio foi reeleito de maneira expressiva, pretende manter a maior parte da equipe e já anunciou decisões envolvendo Agricultura e Cultura. Entretanto, a composição definitiva do segundo mandato ainda não está formalizada: convites anunciados, intenção de substituição na Saúde e avaliações sobre outros secretários precisam ser convertidos em atos oficiais para que possam ser tratados como nomeações definitivas.

A exclusão de Kassab do futuro secretariado possui dimensão política superior a uma simples troca administrativa. O presidente do PSD participou da construção da primeira gestão, ocupou uma das secretarias mais próximas do governador e exerceu influência na articulação paulista. Ao longo de 2026, porém, o PSD lançou projeto presidencial próprio, Ramuth deixou a legenda e Kassab afastou-se do Executivo. A declaração de Tarcísio encerra, ao menos para o próximo secretariado, a possibilidade de retomada da posição institucional que Kassab ocupava desde 2023. Não há, contudo, elemento suficiente para concluir que toda relação política entre o governador e o PSD esteja rompida.

Na esfera federativa, a sinalização de diálogo com Lula é relevante porque São Paulo administra projetos que dependem da União, de bancos públicos, de autorizações federais e de investimentos compartilhados. A cooperação no Túnel Santos–Guarujá demonstra que divergência partidária e trabalho administrativo conjunto podem coexistir. Por outro lado, as acusações de Tarcísio sobre supostos atrasos federais em operações de crédito exigem documentação comparativa antes que seja possível determinar se houve tratamento político diferenciado.

O início do segundo mandato deverá mostrar se a reforma do secretariado será essencialmente técnica ou se também produzirá nova distribuição de poder entre Republicanos, MDB, PL, PSD e demais partidos da base. Caberá ao Governo de São Paulo formalizar as nomeações, enquanto Tarcísio terá de administrar simultaneamente os compromissos assumidos na eleição estadual, a relação institucional com o Governo Lula e a crescente expectativa de setores da centro-direita sobre seu futuro nacional em 2030.


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