O Grupo Globo anunciou nesta quinta-feira (15/10/2026) o desligamento de Frederic Kachar, diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio, após ter acesso a conversas privadas mantidas pelo executivo com Daniel Vorcaro entre outubro de 2023 e julho de 2025. As mensagens, extraídas pela Polícia Federal (PF) do celular do ex-controlador do Banco Master, documentam negociações publicitárias, pedidos de exposição em veículos do conglomerado, reclamações sobre reportagens, interlocução sobre jornalistas e relações pessoais entre Kachar e Vorcaro. A Globo afirmou que o material revelou uma “relação inadequada do executivo com um anunciante”, reafirmou a independência de suas redações e informou que anunciará posteriormente o substituto do executivo.
Grupo Globo encerra trajetória de 29 anos de Frederic Kachar
Kachar trabalhava havia 29 anos no Grupo Globo. Ingressou na empresa em 1997 e, desde 2016, exercia funções de direção na Editora Globo e no Sistema Globo de Rádio. No cargo mais recente, estava ligado às operações dos jornais O Globo, Extra e Valor Econômico, às revistas da Editora Globo, entre elas Vogue Brasil e Marie Claire, e ao Sistema Globo de Rádio, que inclui a CBN. Em 2025, havia assumido também a presidência do Grupo de Diários América, associação que reúne jornais latino-americanos.
A decisão empresarial ocorreu menos de um dia depois da divulgação pública de parte das mensagens. Segundo o comunicado do conglomerado, o conteúdo foi conhecido pela empresa na quarta-feira (14/10/2026). A nota oficial não informou as condições trabalhistas do desligamento nem anunciou investigação interna adicional.
A Globo sustentou que a atuação de suas redações permaneceu independente apesar da conduta atribuída ao executivo. Segundo a empresa, a cobertura do Caso Master demonstra o compromisso dos veículos com seus princípios editoriais. O comunicado reconheceu a contribuição profissional de Kachar e afirmou que seu sucessor na Editora Globo e no Sistema Globo de Rádio será divulgado posteriormente.
Mensagens misturam interesses comerciais, exposição editorial e relação pessoal
O ponto institucionalmente mais relevante dos diálogos não está na existência de uma relação comercial entre o Banco Master e veículos do Grupo Globo — anunciantes e empresas de comunicação mantêm relações comerciais regulares —, mas na proximidade documentada entre o responsável por negócios de mídia e um anunciante que também buscava influência sobre sua exposição jornalística.
As reportagens que examinaram as mensagens identificaram um canal recorrente pelo qual Vorcaro apresentava pedidos, críticas ou interesses relacionados a conteúdos jornalísticos. Ao mesmo tempo, Kachar tratava com o banqueiro de publicidade, patrocínios, eventos e marcas vinculadas aos negócios do então controlador do Master.
Há, contudo, uma distinção factual necessária: o conjunto publicado não permite afirmar que Kachar tenha ordenado sistematicamente reportagens, determinado alterações editoriais ou submetido as redações à vontade de Vorcaro. Existem diálogos em que o próprio executivo resiste às cobranças do banqueiro e defende a autonomia dos jornalistas. O material demonstra a existência de uma interlocução direta e de fronteiras por vezes pouco nítidas entre interesses comerciais, pessoais e editoriais, mas cada eventual interferência precisa ser examinada individualmente.
Vorcaro pediu exposição para empresa ligada a Martha Graeff
Um dos episódios envolve Martha Graeff, então namorada de Vorcaro e ligada à marca de suplementos Happy Aging. Em 12 de outubro de 2024, segundo a Agência Pública, Vorcaro perguntou a Kachar sobre a possibilidade de conseguir uma capa da Vogue Brasil para a influenciadora.
Kachar respondeu que uma capa da Vogue dependia de um processo mais demorado, mas indicou que buscaria espaço para Graeff em outras publicações. Segundo as mensagens divulgadas pelo UOL, ele afirmou que pautaria Vogue, Marie Claire e Ela. Dias depois, conteúdos sobre Graeff e a Happy Aging foram publicados nas versões digitais desses veículos. Kachar enviou os links ao banqueiro e prosseguiu discutindo a possibilidade de uma futura capa.
No mesmo intercâmbio, aparecem tratativas sobre o contrato publicitário do banco com a editora. A proximidade temporal entre conversas sobre exposição editorial e negociações comerciais é um dos elementos que tornam o episódio relevante do ponto de vista da governança jornalística. Os documentos disponíveis, entretanto, não permitem concluir, isoladamente, que as reportagens tenham sido compradas ou publicadas mediante contrapartida financeira.
Patrocínios alcançaram Baile da Vogue e Carnaval
As relações comerciais entre empresas ligadas a Vorcaro e a Editora Globo incluíram eventos de grande visibilidade. Segundo tabela mencionada nas mensagens e publicada pelo UOL, o Master patrocinou o Baile da Vogue de 2024 com R$ 825 mil e um camarote da editora no Carnaval de 2023 com R$ 1,6 milhão.
Em 2025, quando a situação do Banco Master começava a receber maior escrutínio, a instituição financeira deixou de aparecer em determinadas propostas comerciais, enquanto outras marcas vinculadas aos negócios e ao círculo empresarial de Vorcaro continuaram em discussão. Em uma negociação, aparecem valores de R$ 500 mil para a Vogue e R$ 800 mil para um camarote, totalizando R$ 1,3 milhão.
A Agência Pública relata que, em 6 de fevereiro de 2025, Kachar apresentou propostas envolvendo marcas como Master, Desinchá, Veste, BeFly e Happy Aging. O material mostra negociações intensas até a definição do patrocínio e também referências a conteúdo de marca, modalidade publicitária que precisa ser distinguida editorialmente do jornalismo independente.
Canal direto alcançou discussões sobre reportagens
Outro episódio ocorreu em 31 de maio de 2024. Kachar comentou com Vorcaro uma notícia do G1 segundo a qual o Banco Master teria entrado no setor de supermercados. O banqueiro respondeu que a informação estava errada. O executivo perguntou se deveria solicitar correção, e Vorcaro respondeu afirmativamente.
Segundo a Agência Pública, o texto foi atualizado 23 minutos depois, passando a descrever de modo diferente a participação relacionada à operação. Vorcaro respondeu que o conteúdo havia ficado correto. O episódio, isoladamente, não comprova intervenção indevida — a correção de erros factuais integra a rotina jornalística —, mas evidencia o acesso direto do anunciante a um executivo situado no topo da estrutura empresarial do conglomerado.
Em outro momento, em abril de 2024, Kachar chegou a oferecer uma entrevista no Valor Econômico envolvendo Alexandre Afrange, executivo da Veste, empresa então controlada por Vorcaro. O banqueiro posteriormente descreveu a relação com Kachar como uma “amizade que supera negócios”, segundo as mensagens divulgadas.
Kachar também contrariou cobranças de Vorcaro e defendeu jornalistas
As conversas não apresentam uma relação unilateral de atendimento às demandas do banqueiro. Há registros em que Frederic Kachar rejeita pressões editoriais ou defende profissionais de sua própria organização.
Depois de uma reclamação de Vorcaro relacionada à colunista Malu Gaspar, Kachar afirmou que pediria correção caso existisse erro, mas, em outro diálogo posteriormente divulgado, registrou que não poderia censurar um colunista e seus perfis. Em 1º de abril de 2025, Vorcaro pediu que o executivo acompanhasse de perto a cobertura da jornalista sobre o Master e a negociação com o Banco de Brasília (BRB).
Em outra conversa, após crítica do banqueiro a uma reportagem sobre resultados do Master, Kachar respondeu que o texto havia mostrado os dois lados e afirmou: “Não dá pra fazer matéria sem olhar pra todos os fatos.”
Esses registros são essenciais para a interpretação do caso: as mensagens comprovam proximidade e acesso privilegiado, mas também contêm situações em que o executivo preservou limites editoriais. Por isso, a questão central para uma apuração mais ampla é determinar se pedidos específicos produziram alterações editoriais impróprias e, caso tenham produzido, por qual cadeia de decisão.
Relação com jornalistas e tentativa de aproximação de fontes
Os diálogos também mostram Kachar aproximando Vorcaro de jornalistas do grupo. Em julho de 2024, o executivo comemorou o contato do banqueiro com Lauro Jardim, colunista de O Globo, dizendo que havia sido estabelecida uma “linha direta” e que Vorcaro havia se tornado fonte.
A existência de contato entre jornalistas e empresários investigados não constitui, por si só, anormalidade. Relações com fontes são parte essencial da atividade jornalística. O problema institucional surge quando o acesso a profissionais de redação aparece simultaneamente a negociações de publicidade, patrocínios, reclamações editoriais e relações pessoais mantidas pelo executivo responsável pela estrutura empresarial.
O próprio material indica que jornalistas do grupo publicaram conteúdos desfavoráveis ao Master. Uma análise do Valor Econômico de 29 de março de 2025, por exemplo, provocou forte reclamação de Vorcaro. O banqueiro acusou a publicação de tratamento negativo e questionou o sentido da “parceria”; Kachar admitiu discordâncias e buscou dialogar, mas preservou o sigilo das fontes mencionadas na apuração.
Conversas pessoais ampliaram dimensão do vínculo
As mensagens também contêm convites para festas privadas e conversas pessoais que ultrapassavam a relação ordinária entre anunciante e executivo. Em maio de 2024, por exemplo, Vorcaro mencionou uma festa em local reservado, sem celulares, e Kachar manifestou interesse em comparecer. Os diálogos disponíveis não esclarecem o que efetivamente ocorreu no encontro.
Outras trocas utilizavam expressões relacionadas à “Ucrânia” ao tratar de encontros privados com mulheres estrangeiras. O tema passou a ser relacionado por reportagens posteriores a outra frente de investigação envolvendo Vorcaro. É necessário, porém, separar esses relatos do motivo formal apresentado pela Globo para o desligamento de Kachar: a empresa citou especificamente a relação inadequada com um anunciante.
Em manifestação divulgada anteriormente sobre alegações relativas a uma suposta rede de prostituição, a defesa de Vorcaro negou exploração de mulheres e afirmou que as mensagens estariam sendo divulgadas de forma descontextualizada e como parte de uma “manipulação criminosa”. Essa manifestação dizia respeito à investigação sobre prostituição e não constitui resposta específica às revelações envolvendo Kachar.
Caso Master explica origem e relevância das mensagens
As conversas ganharam dimensão pública porque integram o material extraído do celular de Daniel Vorcaro no contexto das investigações do Caso Banco Master.
Em 18 de novembro de 2025, a Polícia Federal deflagrou a primeira fase ostensiva da Operação Compliance Zero, que atingiu executivos ligados ao Master e ao BRB. Na mesma data, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master S.A. e de outras instituições do conglomerado. A autoridade monetária apontou grave crise de liquidez, comprometimento significativo da situação econômico-financeira e graves violações às normas do Sistema Financeiro Nacional.
O ato do Banco Central também tornou indisponíveis os bens de controladores e ex-administradores, entre eles Daniel Bueno Vorcaro. O ex-banqueiro permaneceu sob custódia e, em 6 de março de 2026, foi transferido para a Penitenciária Federal em Brasília, mediante autorização do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal.
Em setembro de 2026, diante de questionamentos sobre o material digital, a própria Polícia Federal informou ao STF que os dados originais extraídos do celular de Vorcaro permaneciam integralmente sob custódia da instituição, com cadeia de custódia documentada, lacres preservados e mecanismos de verificação de integridade. Posteriormente, cópias da extração foram entregues a gabinetes de ministros da Corte.
Grupo Globo invoca princípios editoriais e regras de conflito de interesses
A resposta institucional adotada pelo Grupo Globo deve ser analisada também à luz das próprias normas internas da organização.
O Código de Ética e Conduta do Grupo Globo determina que integrantes evitem situações em que interesses pessoais entrem em conflito com os objetivos da empresa e estabelece a obrigação de comunicar potenciais conflitos à gestão ou à área de compliance. O documento ressalta que um potencial conflito não configura necessariamente violação, mas que sua omissão deve ser tratada institucionalmente.
No comunicado sobre Kachar, a empresa afirmou que a independência editorial constitui premissa essencial de seus veículos e apresentou a cobertura crítica sobre o Master como evidência de que o comportamento do executivo não teria comprometido institucionalmente o jornalismo produzido pelas redações.
A distinção é relevante: o desligamento reconhece que a conduta individual ultrapassou o padrão considerado adequado pela empresa, enquanto a Globo rejeita a conclusão de que essa relação represente comprometimento geral de sua produção jornalística.
O que permanece sem resposta
Até a publicação das reportagens consultadas nesta quinta-feira (15/10/2026), não havia sido localizada manifestação pública específica de Frederic Kachar respondendo ponto a ponto ao conteúdo das mensagens. A Agência Pública informou que procurou o ex-executivo e não recebeu retorno até a publicação de sua reportagem.
Também não está esclarecido, no material divulgado, se o Grupo Globo pretende realizar auditoria editorial ou de compliance para reconstruir decisões relacionadas aos pedidos feitos por Vorcaro durante os quase dois anos de conversas.
Outro ponto que depende de apuração é a relação causal entre solicitações do banqueiro e conteúdos efetivamente publicados. Há coincidências temporais e interlocuções documentadas, mas também existe evidência de resistência de Kachar a determinadas cobranças. A análise responsável exige distinguir acesso privilegiado, que está documentado, de interferência editorial comprovada, que precisa ser demonstrada caso a caso.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- Outubro de 2023 a julho de 2025 — Período das conversas privadas entre Frederic Kachar e Daniel Vorcaro posteriormente examinadas pela Globo; o conglomerado classificaria a relação como inadequada entre um executivo e um anunciante.
- Abril de 2024 — Kachar oferece interlocução relacionada ao Valor Econômico e, em outra discussão, recebe reclamações de Vorcaro sobre a cobertura de Malu Gaspar; os diálogos revelam o canal direto entre os dois.
- 31/05/2024 — Vorcaro aponta erro em notícia do G1; Kachar pergunta se deve pedir correção e o texto é atualizado pouco depois.
- Julho de 2024 — As conversas registram aproximação de Vorcaro com Lauro Jardim e referência do banqueiro a uma “amizade que supera negócios” com Kachar.
- 12/10/2024 — Vorcaro pede ajuda para obter exposição para Martha Graeff, inclusive cogitando capa da Vogue; dias depois, veículos do grupo publicam conteúdos sobre a influenciadora e sua empresa.
- Fevereiro de 2025 — Conversas registram negociações de patrocínio envolvendo Baile da Vogue, Carnaval e marcas relacionadas a Vorcaro; valores discutidos chegam a R$ 1,3 milhão no acordo referido nas mensagens.
- 29/03/2025 — Análise crítica do Valor Econômico sobre a operação BRB-Master gera reclamação de Vorcaro e nova discussão com Kachar sobre a cobertura jornalística.
- Julho de 2025 — Encerra-se o período de mensagens que, segundo a Globo, fundamentou sua avaliação sobre a conduta do executivo.
- 18/11/2025 — A Operação Compliance Zero alcança o Banco Master; o Banco Central decreta a liquidação extrajudicial da instituição e indisponibilidade de bens de controladores e ex-administradores.
- 06/03/2026 — Daniel Vorcaro é transferido para a Penitenciária Federal em Brasília, mediante autorização do STF.
- 13 e 14/09/2026 — PF informa ao STF que preserva os dados originais do celular sob cadeia de custódia e entrega cópias da extração a gabinetes da Corte.
- 14/10/2026 — Conversas entre Vorcaro e Kachar ganham ampla divulgação pública; o Grupo Globo afirma ter tido acesso ao conteúdo nesse dia.
- 15/10/2026 — O Grupo Globo anuncia o desligamento de Frederic Kachar, após 29 anos de empresa, e classifica sua relação com Vorcaro como inadequada.
O episódio coloca no centro do debate uma das fronteiras essenciais à credibilidade do jornalismo profissional: a separação entre atividade comercial, relações pessoais e decisões editoriais. Empresas jornalísticas dependem de anunciantes, patrocínios e eventos para financiar suas operações, mas a legitimidade desse modelo pressupõe mecanismos que impeçam interesses comerciais de determinar cobertura, pauta ou tratamento jornalístico. As mensagens tornam relevante perguntar se esses controles funcionaram adequadamente no nível executivo.
Os documentos conhecidos sustentam duas constatações simultâneas. A primeira é factual: Vorcaro possuía acesso excepcionalmente direto a Kachar e utilizava esse canal para tratar de publicidade, exposição, jornalistas, matérias e interesses empresariais. A segunda é igualmente necessária: o material divulgado não demonstra que todas as solicitações tenham sido atendidas nem autoriza concluir que as redações de O Globo, Valor, Extra ou das revistas estivessem subordinadas ao ex-banqueiro. Há exemplos documentados de resistência às pressões e de cobertura crítica ao Master.
O desligamento reduz uma controvérsia administrativa imediata, mas não esgota o interesse público do caso. Permanecem abertas questões sobre os mecanismos de compliance, a eventual comunicação interna da relação de Kachar com Vorcaro, a origem das decisões sobre conteúdos publicados após determinados pedidos e a existência — ou não — de procedimentos internos capazes de identificar conflitos entre relações comerciais e produção editorial. Esses pontos dependem de documentos, auditorias, manifestações dos envolvidos ou novos elementos investigativos.
O núcleo factual, portanto, é claro: o Grupo Globo rompeu em 15/10/2026 uma relação profissional de 29 anos depois de considerar inadequadas as conversas de seu diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio com Daniel Vorcaro, personagem central do Caso Banco Master. A relevância pública ultrapassa a substituição de um executivo porque envolve confiança no funcionamento institucional da imprensa e amplia o alcance dos dados apreendidos pela PF no caso Master. Caberá ao Grupo Globo esclarecer seus mecanismos internos, à PF preservar e analisar o material dentro das atribuições legais e às autoridades competentes avaliar eventuais fatos com repercussão jurídica, mantendo separadas questões éticas, administrativas e criminais.








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