O violonista e compositor carioca Guinga, aos 76 anos, realiza uma nova turnê pela Europa, com apresentações na França, na Bélgica e na Inglaterra, em uma programação que termina no final de outubro, em Paris. Em entrevista à Rádio França Internacional (RFI), o artista falou sobre sua trajetória profissional, o processo de composição, as parcerias musicais, a relação com o letrista Aldir Blanc e sua avaliação do cenário político brasileiro.
Reconhecido por músicos, intérpretes e críticos pela singularidade de sua obra, Guinga atribui importância central à convivência entre artistas e ao trabalho coletivo. Nos concertos desta temporada, divide o palco com nomes como Yamandu Costa, Anna Paes e Débora Dienstmann. Apesar da diversidade de formações e repertórios, afirma que suas apresentações são resultado de preparação e planejamento.
“Eu acho que o palco é como a mesa. Você fazer uma refeição sozinho é bem menos marcante do que você fazer uma refeição com alguém que você ama”, declarou à RFI, ao explicar sua concepção de encontro musical.
O compositor também rejeita a ideia de que suas apresentações dependam do improviso. “Eu não improviso nada”, afirmou. Para ele, a interpretação resulta do trabalho desenvolvido na composição e do diálogo entre músicos que compartilham uma compreensão da obra.
Guinga valoriza parcerias e encontros musicais na turnê europeia
Entre os artistas que acompanham Guinga nesta temporada estão músicos com trajetórias próprias e relações distintas com seu repertório. Anna Paes, cantora e violonista, dedica-se há mais de uma década à interpretação de suas composições e também se tornou parceira do compositor na criação de novas obras.
Débora Dienstmann, cantora brasileira radicada na Itália, figura entre as intérpretes europeias que mantêm proximidade com a música de Guinga. A presença dessas artistas nos concertos evidencia a circulação de seu repertório entre diferentes gerações e ambientes musicais.
Yamandu Costa também integra a programação da turnê. Para Guinga, a convivência entre intérpretes constitui parte essencial da experiência artística.
“Na vida a gente tem que aprender a compartilhar”, afirmou, sintetizando uma concepção de música baseada na troca entre os participantes.
Da odontologia à composição: trajetória profissional de Guinga
A carreira de Guinga seguiu um percurso diferente daquele geralmente associado aos músicos profissionais. Embora tenha iniciado sua atividade artística aos 16 anos, o compositor interrompeu o desenvolvimento de uma carreira musical em tempo integral para estudar odontologia.
Guinga trabalhou durante 32 anos como dentista, período em que continuou a compor. Segundo ele, a estabilidade financeira proporcionada pela profissão permitiu que desenvolvesse sua produção musical sem depender exclusivamente do mercado fonográfico.
“Eu pude investir na arte, então eu compus a maior parte da minha obra quando era dentista e grande parte dentro do consultório de dentista”, recordou na entrevista.
A conciliação entre as duas atividades marcou sua formação como compositor. Enquanto exercia a odontologia, Guinga desenvolveu canções que posteriormente passaram a integrar o repertório de intérpretes brasileiros e estrangeiros, consolidando sua presença na música popular brasileira.
Composições de Guinga foram gravadas por artistas brasileiros e estrangeiros
A obra de Guinga foi interpretada por nomes como Elis Regina, Chico Buarque, Clara Nunes, Ivan Lins, Leila Pinheiro, Sérgio Mendes e Michel Legrand. Sua produção também inclui parcerias com letristas como Aldir Blanc, Paulo César Pinheiro, Nei Lopes e Chico Buarque.
A combinação entre elaboração harmônica, diversidade rítmica e referências à tradição popular brasileira constitui uma característica de sua produção. Seu repertório circula entre intérpretes de diferentes estilos, mantendo vínculos com as matrizes musicais que influenciaram sua formação.
A singularidade dessa obra também foi reconhecida por outros compositores. O músico Hermeto Pascoal resumiu sua admiração por Guinga com a declaração: “Um cara como esse só aparece a cada cem anos”.
A frase tornou-se uma referência na recepção crítica de sua música e expressa o reconhecimento que o compositor recebe de outros profissionais do setor. Guinga, entretanto, prefere evitar definições que o coloquem em uma posição de destaque individual e enfatiza a importância das relações construídas ao longo da carreira.
Segunda turnê na França amplia divulgação da obra de Guinga
A atual temporada europeia é produzida pela cantora, instrumentista e compositora Aurélie Tyszblat, que há anos trabalha na divulgação da música de Guinga na França.
Tyszblat chama a atenção para a presença relativamente limitada do compositor em Paris ao longo da carreira, apesar de suas passagens por outros países europeus. Essa constatação motivou a produção de seu primeiro concerto na capital francesa, em 2018.
Ao comentar a obra do brasileiro, a produtora destacou sua dimensão humana e a capacidade de estabelecer conexões com diferentes públicos. Para ela, a música de Guinga deve ser transmitida a novas gerações de ouvintes e instrumentistas.
A turnê também inclui masterclasses voltadas a jovens músicos. Nessas atividades, o compositor compartilha experiências profissionais e discute os desafios para quem busca desenvolver uma identidade artística em um mercado marcado pela concorrência e pelas dificuldades de acesso a espaços de apresentação.
Guinga defende liberdade criativa e formação de novos músicos
Ao falar sobre as novas gerações, Guinga ressalta a necessidade de persistência para que os artistas consigam apresentar suas propostas. “Essa é a luta, é a pessoa se impor fazendo aquilo que ela acredita”, afirmou.
O compositor também defende a liberdade de criação e evita estabelecer hierarquias rígidas entre gêneros musicais. Sua perspectiva parte da compreensão de que a experimentação pode produzir resultados que não estavam previstos inicialmente.
Para ilustrar essa ideia, recorre à própria linguagem musical: “Às vezes você dá uma nota errada num acorde e descobre que ele fica mais bonito com a nota errada”.
A observação expressa sua abertura para possibilidades criativas que podem surgir durante o processo de composição e interpretação. Em vez de tratar a música como uma atividade restrita a regras fixas, Guinga enfatiza a importância da descoberta e do desenvolvimento contínuo.
Essa reflexão se estende à maneira como compreende a existência humana. “Eu acho que a missão do ser humano é tentar melhorar nessa baldeação que ele faz aqui no planeta”, declarou.
Aldir Blanc teve papel decisivo no primeiro disco autoral de Guinga
A relação com o letrista Aldir Blanc ocupa um lugar central na trajetória pessoal e profissional de Guinga. O compositor lançou seu primeiro disco autoral aos 41 anos, e atribui ao amigo parte decisiva do esforço que tornou a gravação possível.
“Meu primeiro disco foi gravado por uma verdadeira batalha que ele travou para que eu conseguisse fazer meu primeiro disco aos 41 anos”, afirmou.
Aldir Blanc, médico psiquiatra e letrista, foi um dos principais parceiros de Guinga. A colaboração entre os dois contribuiu para a construção de um repertório que combina elaboração musical e letras com diferentes abordagens temáticas.
A relação ultrapassou o campo profissional. Os dois tinham formação na área da saúde e compartilharam experiências relacionadas à juventude durante a ditadura militar brasileira. Segundo Guinga, ambos enfrentaram a censura e chegaram a ser presos ainda jovens, antes de se conhecerem.
Essas experiências ajudaram a estabelecer uma identificação que se aprofundou ao longo dos anos. Ao recordar o amigo, Guinga destacou a influência de Aldir Blanc também em sua vida pessoal. “Ele me ajudou muito como ser humano também”, declarou.
Guinga critica Bolsonaro e aponta educação e cultura como prioridades
Na entrevista à RFI, Guinga também comentou o cenário político brasileiro. O compositor declarou que “detesta a família Bolsonaro” e criticou o ex-presidente Jair Bolsonaro e seu filho Flávio Bolsonaro, a quem o texto da entrevista identifica como candidato do PL à Presidência da República.
Guinga atribuiu ao grupo político uma visão de sociedade que, segundo sua avaliação, privilegia o armamento da população em detrimento da valorização da cultura. O artista relacionou essa crítica a problemas que considera persistentes no país, especialmente a falta de prioridade para a educação, a produção cultural e a preservação ambiental.
“O Brasil, cada vez mais, quanto mais o Brasil pode, mais ele regride e deixa de valorizar o que é realmente de valor”, afirmou.
As declarações integram a avaliação pessoal do compositor sobre as escolhas políticas e sociais do país. Sua posição associa o desenvolvimento nacional à ampliação das oportunidades educacionais, ao acesso à cultura e à proteção do meio ambiente.
Para sustentar esse argumento, Guinga recorreu a uma frase atribuída ao antropólogo e educador Darcy Ribeiro, cuja obra considera relevante para o debate contemporâneo: “Muito melhor construir escolas, educar a criança, do que depois levantar muros e construir presídios”.
Turnê europeia reúne música, memória e reflexão social
A temporada europeia de Guinga combina apresentações, encontros com intérpretes e atividades de formação musical. A programação na França, na Bélgica e na Inglaterra também amplia a circulação de uma obra construída ao longo de décadas, inicialmente conciliada com o exercício da odontologia.
A trajetória do compositor é marcada por parcerias com artistas como Aldir Blanc, pela interpretação de suas canções por nomes de diferentes gerações e pelo reconhecimento entre músicos brasileiros e estrangeiros.
Ao abordar a criação musical, a formação de novos artistas e a política brasileira, Guinga mantém como eixos de seu discurso a convivência, a liberdade criativa e a importância da educação e da cultura. A turnê, com encerramento previsto para o final de outubro em Paris, integra esse percurso de divulgação internacional de sua obra.
*Com informações da RFI.








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