Nesta segunda-feira (19/10/2026), permanece aberta uma controvérsia sobre a relação entre a advogada e influenciadora Gabriela Prioli e o Banco Master. Mensagens extraídas do celular do ex-controlador da instituição, Daniel Vorcaro, e reveladas pelo jornal O Estado de S. Paulo em 16/10/2026 registram integrantes da área de comunicação do banco mencionando um contrato de 12 meses, preparação de roteiros, envio antecipado de vídeos e alterações solicitadas pelo banqueiro. Prioli rejeita integralmente essa versão: afirma que nunca celebrou contrato, recebeu pagamentos, participou de reuniões ou manteve diálogo com Vorcaro, com funcionários do Master ou com representantes da instituição. Até agora, o contrato mencionado, comprovantes de pagamento e comunicações diretas entre a influenciadora e o banqueiro não foram apresentados publicamente na cobertura consultada.
Mensagens descrevem contrato, roteiros e estratégia de comunicação
A reportagem do Estadão, assinada por Aguirre Talento, Luiz Vassallo, Gustavo Côrtes e Vinícius Valfré, foi publicada em 16/10/2026, com base em mensagens obtidas do telefone de Vorcaro. Os principais diálogos reproduzidos são entre o banqueiro e Ana Matos, que comandou a área de Comunicação e Marketing do Banco Master entre 2023 e o final de 2025.
Segundo os registros publicados, Vorcaro passou a discutir o nome de Prioli no início de abril de 2025, período imediatamente posterior ao anúncio da tentativa de aquisição do Master pelo Banco de Brasília (BRB). Em 04/04/2025, o banqueiro classificou a participação da influenciadora como uma boa iniciativa. No dia seguinte, Matos informou que estava finalizando com Prioli o roteiro de uma postagem e escreveu que “o contrato está assinado por 12 meses”.
A mesma conversa menciona a mobilização, inicialmente por três meses, de aproximadamente 15 influenciadores de diferentes posições políticas. Em outra versão das mensagens divulgada pelo Poder360, a interlocutora de Vorcaro afirma que a relação com Prioli teria sido estruturada por intermédio de uma agência, de modo que o nome do Master não figurasse diretamente na contratação. Prioli nega que esse contrato tenha existido, inclusive por intermédio de agência.
Vorcaro sugeria argumentos e acompanhava publicações
As mensagens reveladas mostram que Vorcaro não se limitava a acompanhar a estratégia geral de comunicação. Em 05/04/2025, ele sugeriu que Prioli o mencionasse no texto e abordasse críticas que, na visão dele, constituíam notícias falsas contra o banco. Matos respondeu que havia incorporado esse eixo ao material atribuído à influenciadora.
Em 06/04/2025, o banqueiro elogiou novamente a estratégia. A reportagem identificou pelo menos quatro publicações relacionadas a esse fluxo de mensagens. Segundo o Estadão, esses conteúdos deixaram posteriormente de estar disponíveis nas páginas da influenciadora.
O primeiro vídeo relacionado à controvérsia foi publicado no começo de abril de 2025. Prioli abriu a gravação com a expressão “Quem desdenha quer comprar?” e sustentou que bancos médios poderiam oferecer remuneração superior à dos grandes concorrentes. Apresentou a abordagem como parte de uma série sobre dinheiro na qual falaria “não como especialista, mas como interessada”.
CDBs do Master entraram na estratégia discutida nas mensagens
Em 18/04/2025, Vorcaro sugeriu à área de comunicação um vídeo de Prioli sobre os CDBs do Banco Master. De acordo com os diálogos, a intenção era reagir ao movimento de investidores que estavam vendendo ou resgatando papéis em meio às dúvidas sobre a instituição e enfatizar a existência da cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
A republicação da investigação do Estadão registra que, em um dos vídeos posteriormente associados à estratégia, Prioli afirmou: “Esse investimento, o CDB, é mais seguro porque é garantido pelo FGC”. A existência da garantia é correta em termos gerais, mas a proteção não é ilimitada: o FGC cobre CDBs dentro de seus critérios e garante atualmente até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição ou conglomerado, submetidos ainda ao teto global de R$ 1 milhão em quatro anos.
Essa distinção é relevante porque garantia do FGC e solvência do emissor são conceitos diferentes. O mecanismo protege determinados créditos do investidor até os limites regulamentares quando ocorre intervenção ou liquidação, mas não transforma todo CDB, independentemente de valor, em ativo integralmente coberto.
Conversas avançam para maio e julho de 2025
Em 28/05/2025, Matos informou a Vorcaro que trabalhava em novo texto destinado a Prioli e pediu a avaliação do banqueiro. A resposta orientava a direcionar a crítica à atuação de jornalistas, e não a outra instituição financeira mencionada na conversa. No dia seguinte, Matos voltou a comentar uma publicação da influenciadora.
A sequência mais relevante ocorreu em 28/07/2025. A então executiva do Master enviou antecipadamente a Vorcaro um arquivo contendo um vídeo atribuído a Prioli que ainda seria publicado. O banqueiro pediu para vê-lo, analisou o conteúdo e, segundo a reportagem, solicitou alterações.
Dois dias depois, Matos informou que o material estava pronto para publicação e escreveu que Prioli havia incorporado o pedido recebido da equipe. O episódio constitui um dos elementos mais fortes usados pelo Estadão para sustentar a hipótese de interferência do Master no conteúdo. Ainda assim, a conversa ocorre entre Vorcaro e Matos, e não diretamente entre o banqueiro e Prioli — distinção central para a avaliação da força probatória do material.
Gabriela Prioli nega contrato, reunião, pagamentos e orientação
Após a publicação da reportagem, Gabriela Prioli apresentou uma negativa ampla. Em vídeo divulgado em 16/10/2026, declarou: “Eu não fiz absolutamente nada do que está sendo dito”. Segundo a apresentadora, ela nunca se reuniu nem manteve contato por telefone, videoconferência, mensagem ou presencialmente com Vorcaro ou integrantes do Banco Master.
Prioli também afirma que não assinou contrato com o banco, empresas vinculadas ao grupo, Vorcaro ou agência que o representasse. Disse nunca ter recebido pagamento dessas fontes e sustentou que 100% de seu faturamento profissional é documentado por notas fiscais, nenhuma delas emitida para o Master ou empresas ligadas ao ex-controlador.
A defesa pública destaca uma diferença documental objetiva: o material divulgado até agora contém terceiros falando sobre Prioli, mas a reportagem não publicou o suposto contrato de 12 meses, os comprovantes de pagamento nem conversas diretas da influenciadora com Vorcaro. Prioli questionou publicamente onde estariam esses documentos e anunciou a adoção das medidas que considera cabíveis.
Ausência de contrato público mantém questão probatória em aberto
A reportagem do Estadão afirma que a empresa utilizada por Prioli para esse tipo de atividade registrou R$ 14,9 milhões em receita bruta e distribuição de R$ 1 milhão em lucros em 2025, mas os dados empresariais, isoladamente, não demonstram que qualquer parcela desses recursos tenha origem no Banco Master. O próprio texto informa não ter revelado o valor supostamente pago à influenciadora.
Consequentemente, há dois níveis distintos de evidência. O primeiro é formado pelas mensagens nas quais executivos do Master descrevem internamente uma contratação, discutem roteiros e relatam pedidos de alteração. O segundo — contrato, agência intermediadora identificada, nota fiscal, transferência bancária ou diálogo direto com Prioli — ainda não apareceu publicamente no conjunto documental examinado.
Essa lacuna não elimina a relevância das mensagens, particularmente porque algumas delas descrevem fatos específicos antes das publicações atribuídas à influenciadora. Mas impede que o relato de terceiros seja automaticamente tratado como prova documental definitiva de que Prioli aceitou contrato, recebeu dinheiro ou tinha conhecimento de todo o fluxo de aprovação descrito pela equipe de Vorcaro.
Caso surgiu durante tentativa de venda do Master ao BRB
A sucessão de vídeos e mensagens começou quando o Banco Master atravessava uma fase decisiva. Em 28/03/2025, foi protocolado perante o Banco Central o pedido relacionado à aquisição, pelo BRB, de 49% das ações ordinárias e 100% das ações preferenciais do Master, participação equivalente a 58% do capital social total da instituição.
Foi nesse ambiente que surgiram questionamentos sobre a situação financeira do Master, a remuneração elevada de seus CDBs e os riscos que uma aquisição por um banco controlado pelo Governo do Distrito Federal poderia transferir para o comprador. Os vídeos atribuídos à estratégia de comunicação discutida nas mensagens procuravam rebater justamente parte dessas críticas.
Em 03/09/2025, o Banco Central indeferiu a aquisição. O veto encerrou o desenho original da operação que vinha sendo analisada desde março.
Liquidação do Master transformou debate reputacional em crise financeira e criminal
Pouco mais de dois meses depois da rejeição do negócio, a crise atingiu outro patamar. Em 18/11/2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, do Banco Master de Investimento, do Letsbank e da Master Corretora, além de impor regime especial ao Banco Master Múltiplo.
Segundo a autoridade monetária, a intervenção foi motivada por grave crise de liquidez, comprometimento significativo da situação econômico-financeira e graves violações às normas aplicáveis ao Sistema Financeiro Nacional. O conglomerado representava, naquele momento, 0,57% dos ativos e 0,55% das captações do sistema bancário nacional.
A liquidação ocorreu no contexto da Operação Compliance Zero, investigação que passou a apurar, entre outras suspeitas, carteiras de crédito supostamente sem lastro negociadas entre Master e BRB. O então controlador do banco havia sido preso pela Polícia Federal na noite de 17/11/2025. A estimativa de fraude divulgada pelo diretor-geral da PF durante a fase inicial chegou a aproximadamente R$ 12 bilhões, valor sujeito à comprovação no processo investigativo e judicial.
PF passou a investigar também atuação coordenada nas redes sociais
O componente comunicacional adquiriu relevância própria no avanço da investigação. Em 09/07/2026, a Polícia Federal deflagrou a 10ª fase da Operação Compliance Zero para apurar indícios de atuação coordenada em redes sociais destinada, em tese, a comprometer a credibilidade do Banco Central.
A PF informou ainda investigar possível organização criminosa relacionada à intimidação de jornalistas, monitoramento ilícito de pessoas ligadas a autoridades, obtenção indevida de informações sigilosas e iniciativas destinadas a interferir em investigações criminais.
A nota oficial dessa fase não cita Gabriela Prioli como investigada ou alvo. Portanto, a existência da investigação sobre campanhas digitais não autoriza concluir que a influenciadora integre organização criminosa ou responda criminalmente por essas condutas. Sua situação específica, no material analisado, permanece vinculada às mensagens divulgadas pela imprensa e à controvérsia sobre uma eventual relação comercial que ela nega.
Publicidade disfarçada de opinião envolve dever de transparência
A controvérsia alcança também uma questão estrutural da comunicação digital: a separação entre manifestação editorial ou pessoal e conteúdo produzido em razão de uma relação comercial.
O artigo 36 do Código de Defesa do Consumidor estabelece que a publicidade deve ser veiculada de forma que o consumidor possa identificá-la fácil e imediatamente como publicidade. O Conar também mantém regras específicas para influenciadores e, em sua atualização de 2026, voltou a destacar transparência, identificação da natureza publicitária, apresentação verdadeira e autenticidade de testemunhais.
Esses parâmetros ajudam a definir a relevância pública da controvérsia, mas não resolvem antecipadamente o caso de Prioli. Para que se examine eventual descumprimento de regras publicitárias, é indispensável demonstrar primeiro que houve efetivamente relação comercial ou outra forma de contrapartida. Essa premissa continua sendo contestada pela influenciadora.
O que está confirmado, o que é versão e o que permanece sem comprovação
Fatos confirmados: Prioli publicou vídeos sobre o Banco Master durante a discussão da operação com o BRB; o Estadão publicou mensagens extraídas do telefone de Vorcaro nas quais executivos do Master tratam de Prioli, de um suposto contrato de 12 meses e de roteiros; o Banco Central rejeitou a aquisição pelo BRB em setembro de 2025 e liquidou o Master em novembro; Prioli negou publicamente contrato, pagamento, contato e orientação.
Versão registrada nas mensagens: integrantes da comunicação do Master afirmam internamente que havia um contrato de 12 meses, intermediado por agência, e relatam preparação de roteiros, envio antecipado de vídeos e incorporação de alterações solicitadas por Vorcaro.
Versão de Gabriela Prioli: não houve contrato, reunião, diálogo, pagamento nem orientação do Banco Master, de Vorcaro ou de intermediários; seu faturamento estaria integralmente documentado por notas fiscais e sua equipe não reconheceria ter sido procurada pela instituição.
Informações ainda dependentes de confirmação documental: existência e teor do contrato de 12 meses; identidade da eventual agência intermediadora; valor e origem de pagamentos; notas fiscais correspondentes; registros de reunião; mensagens ou comunicações diretas com Prioli ou sua equipe; e eventual identificação da natureza comercial dos conteúdos, caso uma relação remunerada venha a ser documentalmente comprovada.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- 28/03/2025 — BRB e Banco Master: é protocolado o pedido relacionado à compra de 49% das ações ordinárias, 100% das preferenciais e 58% do capital total do Master pelo BRB. A operação passa a depender da aprovação regulatória do Banco Central.
- 04/04/2025 — Daniel Vorcaro e Ana Matos: mensagem divulgada pelo Estadão registra o banqueiro elogiando a estratégia relacionada a Prioli.
- 05/04/2025 — Comunicação do Master: Matos relata que estaria finalizando um roteiro com Prioli e afirma que um contrato de 12 meses estava assinado; outra mensagem divulgada posteriormente menciona intermediação por agência. Prioli nega a existência desse acordo.
- Início de abril de 2025 — Gabriela Prioli: é publicado vídeo sobre a negociação Master-BRB no qual a influenciadora questiona as críticas dirigidas ao banco e apresenta sua abordagem como interesse pessoal pelo tema.
- 18/04/2025 — CDBs do Master: Vorcaro propõe à área de comunicação um novo conteúdo sobre CDBs e garantia do FGC. Mensagens posteriores descrevem discussão da pauta.
- 28 e 29/05/2025 — Novos roteiros: mensagens mostram a área de marketing discutindo com Vorcaro outro texto associado a Prioli e a abordagem contra críticas jornalísticas.
- 28 a 30/07/2025 — Vídeo enviado antecipadamente: Matos encaminha a Vorcaro um vídeo ainda não publicado. Após solicitação de mudanças, informa posteriormente que o pedido havia sido incorporado ao material. Prioli nega ter recebido orientações do banqueiro.
- 03/09/2025 — Banco Central: a autoridade monetária rejeita a compra do Master pelo BRB.
- 17/11/2025 — Polícia Federal: Daniel Vorcaro é preso no contexto das investigações que dariam origem à fase ostensiva da Operação Compliance Zero.
- 18/11/2025 — Banco Central: é decretada a liquidação extrajudicial do Banco Master em razão de grave crise de liquidez, comprometimento econômico-financeiro e violações às normas do sistema financeiro.
- Janeiro de 2026 — Gabriela Prioli: a influenciadora publica manifestação negando ter sido contratada para defender o Banco Master.
- 09/07/2026 — Polícia Federal: a 10ª fase da Compliance Zero passa a investigar atuação coordenada em redes sociais destinada, em tese, a atingir a credibilidade do Banco Central e possíveis ações contra jornalistas. A nota oficial não identifica Prioli como alvo.
- 16/10/2026 — Estadão e Gabriela Prioli: o jornal publica a investigação baseada nas mensagens do telefone de Vorcaro; no mesmo dia, Prioli nega contrato, contato, pagamento e orientação e anuncia medidas cabíveis.
- 18 e 19/10/2026 — repercussão nacional: a apuração é repercutida por outros veículos; até o fechamento desta reportagem, permanece a divergência entre o conteúdo das mensagens e a negativa da influenciadora, sem divulgação pública do contrato e dos comprovantes de pagamento mencionados.
O núcleo do episódio está menos na circulação de opiniões favoráveis a uma instituição financeira e mais na possível diferença entre a aparência pública do conteúdo e sua eventual origem comercial. Caso venha a ser documentalmente comprovado que os vídeos integravam uma campanha remunerada e eram submetidos à orientação do anunciante, a questão alcança princípios básicos de transparência publicitária e informação ao consumidor. Caso essa documentação não exista, porém, as mensagens de terceiros não podem substituir a prova da contratação negada por Prioli.
As mensagens apresentam forte relevância investigativa porque registram, em ambiente interno do Master, cronologia, estratégias, pautas e alterações de conteúdo que guardam relação temporal com publicações efetivamente realizadas. Mas permanece uma lacuna probatória essencial entre aquilo que Ana Matos teria relatado a Vorcaro e aquilo que Prioli efetivamente contratou, recebeu ou autorizou. Essa distinção precisa ser preservada para evitar que indícios sejam transformados indevidamente em conclusão.
O caso também ultrapassa a situação individual da influenciadora. A 10ª fase da Compliance Zero demonstra que a própria Polícia Federal passou a investigar estratégias de comunicação destinadas, em tese, a atingir o Banco Central, intimidar jornalistas e interferir no ambiente informacional em torno do Master. Isso confere interesse público à apuração sobre contratos de comunicação e influência, mas não permite inserir automaticamente qualquer pessoa mencionada nas mensagens no conjunto dos investigados.
Os próximos passos dependem, sobretudo, da apresentação e autenticação do suposto contrato, da identificação da agência intermediadora, de documentos fiscais e bancários, de eventuais comunicações com a equipe de Prioli e da evolução das investigações da Polícia Federal, do Ministério Público e do STF no caso Master. Até que esses elementos apareçam, o fato documentalmente central permanece delimitado: executivos do banco registraram internamente uma relação que Prioli nega ter existido, e essa contradição só poderá ser resolvida com documentação independente e verificável.








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