Nordeste chega a 57,1 milhões de habitantes e mantém peso demográfico, cultural e social no Brasil, aponta IBGE

Na quinta-feira (08/10/2026), por ocasião da celebração do Dia do Nordestino, a Superintendência Estadual do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na Bahia divulgou um levantamento que reúne indicadores históricos e recentes sobre o perfil demográfico e social do Nordeste. A região chegou a 57,069 milhões de habitantes em 2025, equivalentes a 26,8% da população brasileira, mantém-se como a segunda mais populosa do país, concentra a maior população quilombola entre as grandes regiões, reúne 529.128 indígenas, apresenta predominância feminina e uma população proporcionalmente mais jovem que a média nacional. Ao mesmo tempo, os dados revelam a permanência de desafios estruturais, sobretudo na educação, apesar da redução da taxa de analfabetismo de 37,6% em 1991 para 10,6% em 2025.

Nordeste permanece como segunda região mais populosa do Brasil

A posição demográfica do Nordeste foi construída ao longo de mais de um século de transformações na distribuição da população brasileira. No primeiro recenseamento nacional, realizado em 1872, a região reunia 4,639 milhões de habitantes, equivalentes a 46,7% da população do país. Desde o Censo Demográfico de 1890, porém, ocupa a segunda posição entre as grandes regiões em número de moradores.

No Censo Demográfico de 2022, o Nordeste tinha 54,659 milhões de habitantes, aproximadamente um em cada quatro brasileiros, ou 26,9% da população nacional. A PNAD Contínua elevou essa estimativa para 57,069 milhões em 2025, embora a participação relativa tenha permanecido praticamente estável, em 26,8%.

A comparação histórica evidencia duas tendências simultâneas: forte crescimento absoluto da população — o contingente regional tornou-se mais de 12 vezes maior desde 1872 — e redução da participação nordestina no conjunto nacional, de quase metade dos brasileiros no século XIX para pouco mais de um quarto atualmente.

Mulheres são maioria e estrutura etária permanece mais jovem que a média nacional

A composição populacional também diferencia o Nordeste das demais regiões. Em 2025, as mulheres representavam 51,7% da população nordestina, ou 29,524 milhões de pessoas, proporção superior aos 51,2% registrados no Brasil. Segundo o levantamento, o Nordeste era a grande região com a maior participação feminina no total de habitantes.

A estrutura etária mostra uma região relativamente mais jovem. Pessoas de 0 a 17 anos somavam 14,356 milhões, equivalentes a 25,1% da população regional. O indicador superava a média brasileira, de 23,6%, igualava o Centro-Oeste e ficava abaixo apenas do Norte, onde crianças e adolescentes correspondiam a 29,2% dos moradores.

Esse perfil tem implicações diretas sobre a demanda por educação básica, formação profissional, políticas de proteção à infância e juventude e, posteriormente, geração de postos de trabalho. O tamanho das novas gerações transforma a capacidade de expansão dos serviços públicos e do mercado de trabalho em elemento central do desenvolvimento regional.

Pardos são maioria e Nordeste concentra maior proporção de pessoas pretas

Os indicadores de cor ou raça reforçam características históricas da formação social nordestina. Em 2025, 60,7% dos moradores da região se declaravam pardos, o equivalente a 34,664 milhões de pessoas.

O Nordeste apresentava também a maior proporção regional de pessoas pretas do Brasil: 12,9%, correspondentes a 7,375 milhões de habitantes. No conjunto nacional, a proporção era de 10,4%.

Somados os dois grupos informados pelo levantamento, pretos e pardos representavam mais de sete em cada dez moradores da região. O perfil é relevante para a formulação e avaliação de políticas relacionadas à igualdade racial, educação, mercado de trabalho, renda, saúde, acesso à terra e representação institucional.

Nordeste reúne 68,1% da população quilombola do Brasil

Uma das características de maior relevância nacional aparece entre os povos e comunidades tradicionais. Segundo os resultados utilizados pelo levantamento do IBGE, o Nordeste reunia 906.337 pessoas quilombolas no Censo 2022, equivalentes a 68,1% do total nacional, além de registrar a maior participação proporcional dessa população entre as grandes regiões, com 1,66% dos moradores.

Dados divulgados pelo próprio IBGE para o primeiro recenseamento nacional específico da população quilombola confirmam 906.337 quilombolas no Nordeste, diante de um total nacional de aproximadamente 1,33 milhão.

Esse contingente representa uma dimensão essencial da organização territorial, histórica e cultural nordestina. O Censo 2022 foi o primeiro recenseamento demográfico brasileiro a identificar a população quilombola como grupo étnico em escala nacional, ampliando a base estatística disponível para políticas de regularização territorial, saneamento, educação, saúde e infraestrutura.

A relevância da Bahia nesse quadro é particularmente elevada. Dados anteriores do Censo já mostraram o estado como a unidade da Federação com maior população quilombola do país. Levantamento publicado pelo Jornal Grande Bahia em 2025 registrou cerca de 397,5 mil quilombolas no estado e destacou a forte presença dessa população também em áreas urbanas.

Nordeste possui segunda maior população indígena entre as regiões

O levantamento registra ainda 529.128 indígenas no Nordeste, correspondentes a 31,2% da população indígena brasileira, colocando a região em segundo lugar em números absolutos, atrás apenas do Norte. Os indígenas representavam 0,97% da população nordestina, terceiro maior percentual entre as cinco grandes regiões.

Os dados detalhados do Censo 2022 confirmam o contingente de 529.128 indígenas, dos quais 129.882 residiam em Terras Indígenas e 399.246 fora desses territórios.

A Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste também identificou expansão expressiva dessa população entre os censos de 2010 e 2022: o número passou de 209.457 para 529.128 pessoas, acréscimo de 319.671 indígenas. A interpretação das variações intercensitárias deve considerar, além da dinâmica demográfica, mudanças metodológicas e avanços nos processos de autodeclaração e identificação étnica.

Catolicismo mantém maior participação regional do país

A religião constitui outro elemento distintivo. Segundo o Censo Demográfico 2022, 30,122 milhões de nordestinos com 10 anos ou mais se declararam católicos apostólicos romanos, correspondendo a 63,9% da população dessa faixa etária.

O percentual era o maior entre as grandes regiões brasileiras e superava a média nacional de 56,7%.

Os resultados preliminares da amostra do Censo 2022 mostram que, no Nordeste, os evangélicos representavam 22,5%, enquanto 8,9% declaravam não possuir religião. O catolicismo também permanecia majoritário nas demais regiões, mas atingia sua maior participação justamente no Nordeste.

Os dados retratam permanências históricas relacionadas ao processo de formação social da região, mas também um cenário religioso diversificado e sujeito a transformações que somente comparações entre levantamentos sucessivos poderão dimensionar adequadamente.

Analfabetismo recua de 37,6% para 10,6% em três décadas

Entre os indicadores analisados, a educação apresenta uma das transformações históricas mais significativas e, simultaneamente, uma das principais desigualdades ainda existentes.

Em 1991, 37,6% das pessoas com 15 anos ou mais no Nordeste não sabiam ler nem escrever. O índice caiu para 26,2% em 2000, 19,1% em 2010 e 14,2% no Censo 2022. Em 2025, a PNAD Contínua apontou nova redução, para 10,6%.

Isso significa uma queda de 27 pontos percentuais entre 1991 e 2025, equivalente a uma redução relativa superior a 70% no indicador.

Apesar do avanço, a diferença regional permanece. A taxa brasileira de analfabetismo das pessoas com 15 anos ou mais chegou a 4,9% em 2025, primeira vez abaixo de 5% desde o início da série da PNAD Contínua considerada pelo IBGE. O país ainda tinha 8,4 milhões de pessoas analfabetas naquele ano.

Assim, a taxa nordestina de 10,6% continuava superior ao dobro da média nacional. A distância revela que a melhora dos indicadores absolutos não eliminou a desigualdade territorial acumulada historicamente.

Educação continua como desafio estrutural

A trajetória de redução do analfabetismo demonstra expansão da escolarização e efeitos de políticas educacionais ao longo de diferentes períodos, mas o estoque de adultos e idosos que passaram parte da vida sem acesso regular à escola mantém pressão sobre programas de alfabetização e educação de jovens e adultos.

A própria série histórica oferece dimensão desse processo. Em pouco mais de três décadas, o Nordeste deixou de registrar quase quatro analfabetos a cada dez pessoas com pelo menos 15 anos para pouco mais de um em cada dez.

O desafio contemporâneo, portanto, não se limita ao acesso inicial à alfabetização. Ele envolve permanência escolar, qualidade da aprendizagem, conclusão da educação básica, formação profissional e redução das diferenças educacionais associadas à renda, local de residência, idade e pertencimento racial.

Nordeste amplia participação nas viagens domésticas

O levantamento do IBGE também aponta fortalecimento da região no turismo nacional. Em 2024, o Nordeste foi o segundo principal destino das viagens domésticas e a única grande região a registrar simultaneamente aumento no número de visitantes e ganho de participação em relação a 2023.

O número de viagens nacionais cujo principal destino estava no Nordeste avançou 8,1% e chegou a 5,455 milhões em 2024, correspondendo a 27,4% das viagens domésticas realizadas no país.

O desempenho regional dialoga com a expansão observada posteriormente em estados como a Bahia. Em 2025, o estado registrou crescimento das atividades turísticas acima da média nacional em diferentes períodos do ano, segundo dados acompanhados pelo Jornal Grande Bahia.

O peso do turismo amplia a importância econômica da preservação do patrimônio histórico, cultural e ambiental, da infraestrutura de transportes, do saneamento e da qualificação profissional, sobretudo porque o setor conecta serviços, alimentação, comércio, economia criativa e geração de empregos.

Data nasceu em São Paulo e calendário municipal foi alterado em 2019

A divulgação do IBGE foi preparada em referência ao Dia do Nordestino, tradicionalmente lembrado em 8 de outubro. A origem institucional dessa data remonta à cidade de São Paulo, destino histórico de sucessivas ondas migratórias provenientes dos nove estados nordestinos.

A Lei Municipal nº 14.952, de 13 de julho de 2009, incluiu formalmente o Dia do Nordestino no calendário oficial paulistano para ser celebrado anualmente em 8 de outubro. A norma teve origem no Projeto de Lei nº 220/2009.

Em 25 de julho de 2019, entretanto, a Lei Municipal nº 17.145 revogou a legislação anterior e redefiniu oficialmente a comemoração no calendário da cidade para 2 de agosto.

A alteração jurídica municipal não eliminou, contudo, o uso social de 8 de outubro, que continuou difundido nacionalmente como referência simbólica à identidade nordestina. O próprio levantamento da Superintendência Estadual do IBGE na Bahia registra essa consolidação social da data, distinguindo-a da mudança ocorrida na legislação paulistana.

Nove estados formam uma região decisiva para a estrutura populacional brasileira

O Nordeste é composto por Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí e Maranhão. As diferenças internas entre esses estados impedem que a região seja tratada como uma realidade social homogênea.

Os indicadores agregados, entretanto, permitem identificar dimensões que afetam diretamente o planejamento nacional. Uma região com mais de 57 milhões de moradores, alta presença de crianças e adolescentes, forte contingente de populações preta, parda, indígena e quilombola e participação crescente nas viagens domésticas possui peso decisivo na demanda por infraestrutura, educação, saúde, políticas sociais e oportunidades econômicas.

O mesmo conjunto de dados demonstra que relevância demográfica e avanços históricos convivem com desigualdades persistentes. Essa combinação constitui o principal elemento para interpretar os números apresentados pelo IBGE: transformações sociais expressivas ocorreram, mas seus efeitos permanecem distribuídos de forma desigual no território brasileiro.

Linha do tempo dos principais acontecimentos

  • 1872 — Primeiro Censo do Brasil: o Nordeste tinha 4,639 milhões de habitantes, equivalentes a 46,7% da população brasileira; a região concentrava quase metade dos moradores do país.
  • Desde 1890 — posição demográfica nacional: o Nordeste passa a permanecer como a segunda região mais populosa do Brasil, embora sua participação relativa na população nacional diminua ao longo do tempo.
  • 1991 — analfabetismo: 37,6% dos nordestinos com 15 anos ou mais não sabiam ler nem escrever, evidenciando a dimensão histórica do déficit educacional.
  • 2000 — avanço educacional: a taxa regional de analfabetismo cai para 26,2%.
  • 2010 — continuidade da queda: o indicador recua para 19,1%.
  • 13/07/2009 — Dia do Nordestino: a Lei Municipal nº 14.952, em São Paulo, estabelece 8 de outubro como Dia do Nordestino no calendário municipal.
  • 25/07/2019 — mudança legal em São Paulo: a Lei nº 17.145 revoga a norma de 2009 e redefine oficialmente a comemoração municipal para 2 de agosto.
  • 2022 — Censo Demográfico: o Nordeste contabiliza 54,659 milhões de habitantes, 906.337 quilombolas, 529.128 indígenas e taxa de analfabetismo de 14,2% entre pessoas de 15 anos ou mais. O catolicismo reúne 63,9% da população regional com dez anos ou mais.
  • 2024 — turismo doméstico: o Nordeste registra 5,455 milhões de viagens nacionais como destino principal, alta de 8,1%, respondendo por 27,4% do total brasileiro.
  • 2025 — população: a PNAD Contínua estima 57,069 milhões de habitantes no Nordeste, ou 26,8% da população brasileira.
  • 2025 — perfil demográfico: mulheres representam 51,7% dos moradores, pessoas de até 17 anos correspondem a 25,1%, pardos são 60,7% e pretos, 12,9%.
  • 2025 — educação: a taxa de analfabetismo regional recua para 10,6%, mas permanece acima do indicador nacional de 4,9%.
  • 08/10/2026 — levantamento temático: a Superintendência Estadual do IBGE na Bahia reúne os indicadores por ocasião da celebração social do Dia do Nordestino e apresenta um retrato histórico e contemporâneo da população regional.

Os indicadores revelam uma transformação demográfica e social de longo prazo. O Nordeste multiplicou sua população desde o século XIX, preservou posição central na estrutura demográfica brasileira e registrou avanços mensuráveis em educação. Ao mesmo tempo, perdeu participação relativa no total nacional, processo relacionado às diferentes taxas regionais de crescimento populacional e aos movimentos migratórios que marcaram a história econômica e social brasileira.

O contraste mais evidente está na educação. A redução do analfabetismo de 37,6% em 1991 para 10,6% em 2025 constitui uma mudança estrutural, mas a distância em relação à média nacional de 4,9% demonstra que a convergência regional permanece incompleta. O acompanhamento jornalístico precisa avançar para além das médias e verificar como idade, renda, raça, território rural ou urbano e acesso às políticas educacionais influenciam esse resultado.

Outro elemento central é a dimensão dos povos e comunidades tradicionais. O fato de o Nordeste reunir 68,1% dos quilombolas brasileiros e quase um terço da população indígena do país transforma políticas de reconhecimento territorial, educação, saneamento, saúde e preservação cultural em questões de alcance nacional. Os dados censitários permitem quantificar essa realidade, mas a avaliação da efetividade das políticas públicas exige acompanhamento de orçamento, execução administrativa e indicadores sociais específicos.

O conjunto apresentado pelo IBGE mostra uma região de 57,069 milhões de habitantes, marcada por grande diversidade demográfica, racial, cultural e religiosa, crescente importância turística e avanços sociais acompanhados de desigualdades persistentes. Os próximos passos dependem da capacidade da União, dos nove governos estaduais, municípios, IBGE e demais instituições públicas de transformar informação estatística em planejamento, execução e avaliação de políticas. O interesse público está justamente em verificar se os avanços observados nas séries históricas serão capazes de reduzir as diferenças que ainda separam o Nordeste das médias nacionais.


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