OpenAI alerta Polícia Federal sobre ameaças contra Lula no ChatGPT; Caso pode gerar dois inquéritos

A OpenAI, empresa responsável pelo ChatGPT, comunicou à Polícia Federal (PF) a identificação de conversas de pelo menos dois usuários que manifestaram intenções de ameaçar ou atacar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Segundo documentos obtidos pela imprensa, os diálogos continham referências a atentado, armamentos, possíveis rotas de fuga e outros episódios de violência. O caso foi encaminhado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública para avaliação sobre a abertura de investigações e também comunicado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A empresa informou que identificou motivos razoáveis para considerar que as conversas poderiam evoluir para atos de violência física. A OpenAI declarou que comunica às autoridades situações nas quais identifica riscos concretos e iminentes de danos a terceiros. A companhia também afirmou ter notificado o TSE em cumprimento ao plano de conformidade eleitoral apresentado à Corte.

No início de outubro de 2026, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, encaminhou a documentação ao ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, para análise. Conforme as informações divulgadas, estão em avaliação dois possíveis inquéritos: um relacionado a suspeitas de ameaça e injúria e outro especificamente sobre ameaça contra Lula. A abertura formal das investigações depende da análise das autoridades competentes.

Conversas mencionavam possível atentado contra Lula

Um dos episódios identificados envolve mensagens enviadas ao ChatGPT desde janeiro de 2026. Em setembro, o usuário relatou ter visto Lula em um palanque montado para um ato de campanha, situado, segundo seu relato, a aproximadamente 400 metros de sua residência. Em seguida, manifestou intenção de atirar na cabeça do presidente e perguntou à inteligência artificial quais seriam as consequências penais caso o matasse.

De acordo com os documentos divulgados, o usuário também enviou uma fotografia de uma torre que, segundo ele, permitiria obter um ângulo favorável para um possível ataque. Nas conversas, mencionou binóculos, um fuzil AR-15 equipado com luneta e alternativas de fuga após a ação.

Embora tenha afirmado que não cometeria o atentado e que não possuía arma de fogo, o usuário voltou a expressar intenções violentas em diferentes diálogos. O conjunto das mensagens motivou a comunicação às autoridades, que deverão avaliar o conteúdo e as circunstâncias para determinar a existência de elementos que justifiquem medidas investigativas.

Mensagens também citavam violência contra outras pessoas

A documentação encaminhada à Polícia Federal indica que as conversas não se limitaram a referências ao presidente da República. O usuário também teria manifestado vontade de agredir pessoas próximas, incluindo familiares, além de compartilhar imagens de armas brancas e símbolos nazistas.

Em uma das mensagens, afirmou que promoveria um massacre caso dispusesse de dinheiro. Em outros diálogos, alternou declarações de que não machucaria ninguém com referências a possíveis ataques. O material também incluía o envio de uma receita de explosivo e menções a ações contra centros médicos.

A OpenAI encerrou a conta no início de outubro e encaminhou os dados às autoridades para análise independente. Os documentos divulgados não apresentam as respostas fornecidas pelo ChatGPT durante as conversas, o que limita a avaliação pública da interação completa entre o usuário e o sistema de inteligência artificial.

OpenAI já havia comunicado outro caso às autoridades

O episódio ocorre após uma comunicação anterior da empresa que, em junho de 2026, contribuiu para a prisão, no Espírito Santo, de um homem suspeito de planejar a morte do próprio filho, de oito anos. Segundo informações sobre a investigação, o suspeito teria utilizado o ChatGPT para discutir o crime e mantido contato com um homem apontado como pistoleiro.

Os casos ampliam o debate sobre os procedimentos adotados por empresas de inteligência artificial diante de conversas que indiquem possíveis ameaças à integridade física de terceiros. A identificação de mensagens preocupantes, contudo, não equivale, por si só, à comprovação de que um crime foi cometido ou de que o usuário efetivamente executaria as ações mencionadas.

A análise das informações compartilhadas com as autoridades deverá considerar o conteúdo integral dos diálogos, os elementos disponíveis e os requisitos legais aplicáveis. Caberá aos órgãos competentes verificar a materialidade de eventuais delitos e decidir sobre a instauração de procedimentos formais.

Governo amplia ações sobre plataformas digitais

O caso também se insere em um contexto de maior atenção do governo federal à atuação de plataformas digitais no Brasil. Em agosto de 2026, a Advocacia-Geral da União (AGU) acionou a Justiça contra o Discord e pediu multa de R$ 500 milhões por dano moral coletivo, além da adequação da plataforma à legislação brasileira. A iniciativa ocorreu após a morte de uma adolescente de 13 anos em uma transmissão na plataforma, episódio que também motivou medidas da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) e investigações administrativas e criminais.

No campo eleitoral, o Tribunal Superior Eleitoral tem discutido medidas para combater o uso inadequado de inteligência artificial, preservar dados e fiscalizar a circulação de conteúdos digitais durante a campanha de 2026. A comunicação feita pela OpenAI integra esse cenário de cooperação entre empresas de tecnologia e autoridades responsáveis pela segurança pública e pela fiscalização eleitoral.

A atuação das plataformas, entretanto, está sujeita a critérios legais e institucionais. O encaminhamento de informações às autoridades permite que eventuais ameaças sejam examinadas pelos órgãos competentes, sem substituir a apuração independente nem antecipar conclusões sobre a responsabilidade criminal dos envolvidos.

TSE cobra informações sobre inteligência artificial e publicidade eleitoral

Em reunião realizada na quinta-feira (15/10/2026), o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, recebeu representantes da Meta, responsável por Instagram, Facebook e WhatsApp. O vice-presidente da Corte, ministro André Mendonça, também participou do encontro.

Segundo comunicado do tribunal, a discussão incluiu o uso de inteligência artificial nas plataformas, a preservação de mensagens em canais do WhatsApp e as ferramentas empregadas para lidar com conteúdos relacionados à disputa presidencial. A Meta informou ter trabalhado, desde a noite de terça-feira (13/10/2026), no aperfeiçoamento de filtros da Meta AI após a identificação de conteúdos considerados inadequados pelas campanhas de Lula e do senador Flávio Bolsonaro (PL).

O tribunal também determinou que a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom/PR) e o órgão central responsável pela administração orçamentária e financeira do Poder Executivo apresentem informações detalhadas sobre despesas com publicidade no primeiro semestre de 2026 e nos anos de 2023, 2024 e 2025. A documentação deverá incluir valores, contratos, campanhas e registros administrativos, em formato digital aberto, pesquisável e auditável.

A medida atende a uma ação apresentada pelo PL contra Lula e o ministro da Secom, Sidônio Palmeira, por suposta violação à legislação eleitoral sobre gastos com publicidade institucional no primeiro semestre do ano eleitoral. Segundo o TSE, a documentação permitirá comparar despesas, verificar limites legais e assegurar a rastreabilidade dos recursos públicos. A decisão foi acompanhada por unanimidade pelo colegiado, conforme as informações divulgadas.

Investigação dependerá da análise das autoridades

A comunicação da OpenAI à Polícia Federal e ao TSE coloca em evidência a relação entre monitoramento de riscos em sistemas de inteligência artificial, segurança pública e fiscalização eleitoral. No caso envolvendo Lula, os documentos relatam manifestações violentas e referências a possíveis meios de execução de um ataque, mas a apuração sobre a natureza e a gravidade dos fatos cabe às instituições competentes.

A eventual abertura dos inquéritos deverá esclarecer as circunstâncias das mensagens, a existência de elementos que caracterizem infrações penais e a responsabilidade dos envolvidos. Até que essas verificações sejam concluídas, as manifestações identificadas devem ser tratadas como elementos sujeitos à investigação, e não como prova definitiva da execução ou da preparação material de um atentado.

O episódio também reforça a importância de procedimentos transparentes para a comunicação de ameaças e para a preservação de dados digitais, respeitando os limites legais e as garantias aplicáveis. A atuação coordenada entre empresas de tecnologia, Polícia Federal, Ministério da Justiça e TSE poderá contribuir para a análise dos riscos identificados, sem substituir o devido processo legal.

*Com informações da Sputnik News.


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