Presidente Donald Trump intensifica campanha para manter controle do Congresso dos EUA e anuncia exploração de recursos na Groenlândia

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, intensificou a participação na campanha republicana para as eleições legislativas de 3 de novembro de 2026, diante do risco de perda de maioria no Congresso, e anunciou preparativos para uma suposta exploração em larga escala de petróleo, gás e minerais na Groenlândia. As duas iniciativas refletem prioridades centrais de seu governo: preservar a capacidade de aprovar medidas no Legislativo e ampliar a influência estratégica norte-americana no Ártico.

As informações foram divulgadas nesta quarta-feira (14/10/2026). No campo eleitoral, Trump e o vice-presidente JD Vance ampliaram a participação em campanhas de candidatos republicanos em estados considerados competitivos. Na política externa, Trump voltou a destacar os recursos naturais e a posição geográfica da Groenlândia, território autônomo sob soberania dinamarquesa.

Os dois temas envolvem desafios distintos para o governo. Enquanto a disputa eleitoral pode alterar a relação de forças no Congresso durante os dois últimos anos do mandato presidencial, a exploração de recursos na Groenlândia enfrenta limitações legais, ambientais e operacionais. O acordo de segurança firmado recentemente entre Estados Unidos, Dinamarca e Groenlândia não concedeu direitos de mineração ou perfuração de petróleo.

Eleições de meio de mandato colocam maioria republicana em risco

As eleições legislativas norte-americanas, conhecidas como midterms, serão realizadas em 3 de novembro de 2026. O pleito definirá as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e parte das vagas do Senado. O resultado determinará a capacidade de Trump de manter apoio parlamentar para sua agenda econômica, migratória e de segurança.

Na Câmara, a vantagem republicana é estreita, tornando o partido vulnerável a mudanças em distritos competitivos. No Senado, os republicanos detêm 53 cadeiras, enquanto o bloco democrata reúne 47 senadores, incluindo dois independentes. Para conquistar a maioria, os democratas precisam obter um ganho líquido de quatro cadeiras.

Uma eventual mudança no controle de uma das Casas pode alterar a condução do governo. Caso os democratas conquistem a maioria na Câmara, poderão dificultar a tramitação de propostas presidenciais, convocar integrantes da administração para prestar esclarecimentos e abrir investigações parlamentares. No Senado, a composição também influencia votações legislativas e decisões institucionais.

Economia e custo de vida entram no centro da disputa

A inflação, o custo de vida, os preços dos combustíveis e os efeitos econômicos da guerra com o Irã estão entre os temas que mobilizam eleitores. Os democratas procuram vincular parte dessas dificuldades às decisões da administração Trump, enquanto os republicanos enfatizam propostas econômicas, controle migratório e segurança.

Uma pesquisa realizada em setembro em 37 distritos competitivos acompanhados pelo Cook Political Report apontou 49% das intenções de voto para os democratas e 47% para os republicanos. O levantamento indica uma disputa acirrada nesses locais, embora não represente, isoladamente, uma previsão do resultado nacional.

O cenário eleitoral também pressiona candidatos republicanos em estados nos quais Trump venceu com margem expressiva em 2024. Texas, Ohio, Iowa e Alasca passaram a concentrar atenção, recursos de campanha e visitas de lideranças nacionais. A presença do presidente e de JD Vance busca reforçar a mobilização de eleitores e apoiar candidatos do partido.

Texas, Ohio, Iowa e Alasca concentram disputas

O Texas é um dos principais focos da estratégia republicana. Trump venceu o estado por quase 14 pontos percentuais em 2024, mas a disputa por uma cadeira no Senado ganhou competitividade. O procurador-geral estadual Ken Paxton, apoiado por Trump nas primárias republicanas, enfrenta o democrata James Talarico.

A candidatura de Paxton também provocou divisões internas, sobretudo em razão de controvérsias relacionadas à sua trajetória política. Trump ainda pressionou os republicanos do Texas a redesenhar distritos eleitorais para tentar ampliar a representação do partido na Câmara. Mesmo com as mudanças, algumas disputas permanecem competitivas.

Em Ohio, a eleição para o Senado entre o republicano Jon Husted e o democrata Sherrod Brown tornou-se uma das disputas mais caras do país. Dados da empresa AddImpact indicaram gastos publicitários de aproximadamente US$ 111 milhões em Ohio, US$ 96 milhões no Texas, US$ 48 milhões em Michigan, US$ 44 milhões na Carolina do Norte e US$ 43 milhões em Iowa.

Candidatos tentam equilibrar apoio a Trump e independência política

A relação com o presidente é outro ponto de tensão na campanha republicana. Uma análise citada pela reportagem da RFI identificou que, em 41 das 62 disputas competitivas examinadas para a Câmara e o Senado, candidatos republicanos se distanciaram de Trump em determinados temas ou reduziram sua associação pública com ele.

Em alguns casos, referências ao presidente foram retiradas de materiais eleitorais. Em outros, candidatos criticaram decisões do governo, principalmente relacionadas à guerra com o Irã. A estratégia busca atrair eleitores independentes e moderados sem romper com a base conservadora que sustenta o partido.

Uma pesquisa Reuters/Ipsos mencionada no levantamento registrou 32% de aprovação para Trump. O índice é um dos elementos do contexto político enfrentado pelos republicanos, embora a avaliação presidencial não determine, por si só, o resultado das eleições legislativas.

O partido também conta com recursos financeiros, organizações conservadoras e uma base mobilizada. Ainda assim, a necessidade de investir em estados tradicionalmente republicanos evidencia a ampliação da disputa. Para Trump, o resultado será um teste de sua capacidade de transferir apoio pessoal aos candidatos que concorrem sem sua presença na cédula.

Trump anuncia exploração de petróleo, gás e minerais na Groenlândia

Na noite de terça-feira (13/10/2026), Trump publicou na rede social Truth Social que uma “exploração massiva” de petróleo, gás e minerais estaria prestes a começar na Groenlândia. O presidente descreveu o território como “nossa nova e magnífica Groenlândia” e afirmou que especialistas considerariam as reservas de petróleo de fácil acesso superiores às de quase qualquer outra região.

Trump, contudo, não apresentou detalhes de projetos, empresas responsáveis, cronogramas ou acordos específicos que confirmassem o início de uma operação em larga escala. A declaração foi feita semanas depois de um acordo de segurança entre Estados Unidos, Dinamarca e Groenlândia, firmado em setembro.

O pacto prevê ampliar a presença militar norte-americana no território, incluindo a instalação de duas novas bases. O acordo também reafirma a soberania dinamarquesa e o direito dos groenlandeses à autodeterminação. Não há, no tratado, concessão de direitos de mineração ou de perfuração de petróleo aos Estados Unidos.

Groenlândia tem restrições ambientais e desafios operacionais

A Groenlândia proibiu novas atividades de exploração de petróleo em 2021, em meio a preocupações ambientais e à avaliação dos custos associados à atividade. O território também possui restrições à mineração de urânio. Essas medidas limitam a possibilidade de iniciar projetos de extração em larga escala sem mudanças regulatórias e autorizações pertinentes.

O governo groenlandês informou que avalia se uma empresa do Texas, a Greenland Energy, pode utilizar licenças anteriores à proibição. Em agosto de 2026, a companhia havia informado planos de perfurar em busca de petróleo em 2027, em uma bacia ainda não explorada na costa leste da ilha. A empresa, porém, não possuía licença própria para essa operação.

O contexto geográfico também impõe obstáculos. O clima rigoroso, a presença de gelo e a infraestrutura limitada em áreas remotas elevam a complexidade e os custos de exploração. O vice-ministro de Mineração da Groenlândia, Jørgen Hammeken-Holm, contestou a dimensão anunciada por Trump e afirmou que as atividades existentes ainda estão distantes de uma operação em larga escala e podem levar anos para chegar à fase operacional.

Interesse estratégico envolve defesa, minerais e rotas marítimas

A posição da Groenlândia no Ártico é considerada relevante para a defesa norte-americana e europeia. A ilha está situada em uma rota estratégica entre a América do Norte e a Rússia e abriga a base militar de Pituffik, que integra a estrutura de defesa antimíssil dos Estados Unidos.

O acordo firmado em setembro abriu caminho para duas novas instalações militares norte-americanas, previstas para o sul e o leste da ilha, além da base já existente. A ampliação da presença militar está associada aos planos de defesa dos Estados Unidos, incluindo o projeto conhecido como “Domo de Ouro”, destinado à proteção contra ameaças aéreas e de mísseis.

Além da localização estratégica, a Groenlândia possui depósitos de terras raras e outros minerais considerados importantes para setores tecnológicos e industriais. O degelo polar também pode facilitar, no futuro, a abertura de novas rotas marítimas, aumentando o interesse econômico e geopolítico pelo território.

A declaração de Trump sobre a exploração de recursos, entretanto, não equivale à confirmação de um empreendimento autorizado. A viabilidade de projetos dependerá de licenças, condições ambientais, infraestrutura, investimentos e decisões das autoridades competentes da Groenlândia.

Disputa eleitoral e estratégia no Ártico expõem prioridades do governo

A campanha para as eleições de novembro e a declaração sobre a Groenlândia evidenciam duas frentes da atuação de Trump. Internamente, o presidente procura preservar a maioria republicana no Congresso para manter capacidade de implementar sua agenda. Externamente, busca consolidar a importância da presença norte-americana no Ártico, região de interesse militar, energético e mineral.

Os desfechos, porém, permanecem em aberto. A disputa legislativa depende da votação em estados e distritos competitivos, enquanto a exploração de recursos na Groenlândia está sujeita a restrições e não tem, até o momento, um plano de larga escala confirmado publicamente.

As eleições de 3 de novembro serão decisivas para medir a força política de Trump no Congresso. Na Groenlândia, a diferença entre o anúncio presidencial e as autorizações efetivamente existentes será determinante para avaliar se a iniciativa poderá avançar além da declaração política.

*Com informações da RFI.


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