Roubo de medicamentos cresce 50% em 12 meses e amplia riscos para a cadeia farmacêutica no Brasil

O roubo de medicamentos e produtos farmacêuticos durante o transporte aumentou 50% em um período de 12 meses, segundo estudo encomendado pela Associação Brasileira dos Distribuidores de Medicamentos Especializados, Excepcionais e Hospitalares (ABRADIMEX) à consultoria Overhaul. No mesmo intervalo, a participação desse segmento no total de cargas roubadas nas rodovias brasileiras passou de 2,2% para 3,3%. Os dados reforçam a necessidade de medidas de segurança que integrem prevenção, monitoramento, pronta resposta e controle sanitário.

O problema ultrapassa os prejuízos financeiros de transportadoras, distribuidores e fabricantes. O desvio de cargas farmacêuticas pode comprometer a rastreabilidade dos produtos, dificultar a garantia das condições adequadas de armazenamento e transporte e favorecer a comercialização irregular de medicamentos.

Em artigo sobre o tema, Jeder Ribas, diretor da Velox Soluções Técnicas, defende que a segurança logística seja incorporada ao planejamento das operações farmacêuticas, considerando as características das cargas, as rotas utilizadas e os procedimentos necessários para responder a ocorrências.

Rodovias concentram parte das ocorrências de roubo de medicamentos

O levantamento da ABRADIMEX e da Overhaul identificou que 40% das ocorrências se concentraram em cinco rodovias brasileiras: Fernão Dias, Bandeirantes, Anhanguera, BR-277 e BR-116. A distribuição dos casos evidencia a importância de avaliar os riscos específicos de cada trajeto e estabelecer procedimentos compatíveis com as características das operações.

A análise de risco deve considerar fatores como origem e destino da carga, valor dos produtos, pontos de parada, histórico de ocorrências e condições de transporte. Essas informações podem contribuir para a definição de rotas, protocolos de segurança e mecanismos de acompanhamento da viagem.

Segundo a avaliação apresentada por Ribas, a adoção de medidas padronizadas, sem considerar as particularidades de cada transporte, pode deixar vulnerabilidades operacionais. A preparação antecipada permite estabelecer responsabilidades, organizar os fluxos de comunicação e definir as providências a serem tomadas diante de desvios ou situações suspeitas.

Medicamentos de alto valor exigem controle específico

Os produtos farmacêuticos podem ser alvos de organizações criminosas devido ao alto valor agregado, à demanda por medicamentos específicos e à possibilidade de comercialização no mercado ilegal. Entre os itens que exigem atenção estão medicamentos oncológicos, psicoestimulantes e canetas utilizadas em tratamentos para perda de peso.

Além do prejuízo decorrente da subtração, o roubo cria incertezas sobre a integridade dos produtos. Depois de uma ocorrência, pode não ser possível comprovar que os medicamentos permaneceram nas condições de temperatura, armazenamento e transporte exigidas para sua conservação.

A perda de rastreabilidade também dificulta a identificação do percurso da carga e de seus possíveis destinos. Por isso, a recuperação física dos produtos não significa, por si só, que eles possam retornar à distribuição regular.

Anvisa orienta comunicação de roubos, furtos e extravios

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) orienta que produtos sujeitos à vigilância sanitária envolvidos em roubos, furtos ou extravios sejam comunicados imediatamente pelo detentor do registro ou distribuidor à Agência e à Vigilância Sanitária local. A medida está relacionada à impossibilidade de assegurar as condições de transporte e armazenamento após essas ocorrências.

A comunicação às autoridades sanitárias integra os procedimentos necessários para reduzir o risco de que produtos com procedência ou integridade comprometidas voltem a circular no mercado. A situação exige atenção especial quando os medicamentos dependem de condições específicas de conservação.

O enfrentamento desse tipo de crime, portanto, envolve tanto a atuação das autoridades policiais quanto o cumprimento das exigências sanitárias. A investigação deve buscar esclarecer as circunstâncias do roubo e identificar possíveis rotas de distribuição irregular, enquanto as empresas precisam observar os protocolos aplicáveis à carga afetada.

Prevenção começa no planejamento do transporte

A segurança de uma operação farmacêutica deve ser estruturada antes da saída do veículo. A avaliação prévia precisa considerar o perfil da carga, o trajeto, os pontos de parada, o valor dos produtos e as exigências de conservação.

O histórico de ocorrências nas regiões percorridas pode auxiliar na identificação de áreas de maior exposição ao risco. A partir dessa avaliação, as empresas podem estabelecer procedimentos de acompanhamento, definir responsáveis pela tomada de decisões e preparar respostas para situações de emergência.

A tecnologia também integra esse processo. Sistemas de monitoramento permitem acompanhar o deslocamento dos veículos e identificar desvios em relação ao planejamento, mas sua efetividade depende da capacidade de avaliar os alertas e iniciar as providências adequadas.

O acompanhamento eletrônico, isoladamente, não elimina o risco de roubo. Para produzir resultados operacionais, precisa estar associado a equipes preparadas, protocolos claros e canais de comunicação que permitam verificar ocorrências e acionar os responsáveis em tempo oportuno.

Pronta resposta e integração entre equipes

Quando há suspeita de roubo, desvio ou desaparecimento de uma carga, a rapidez na comunicação pode contribuir para reduzir o tempo entre a identificação do problema e o início das medidas previstas. A integração entre transportadora, embarcador, gerenciadora de riscos e demais responsáveis ajuda a consolidar as informações disponíveis e orientar as decisões.

Nesse contexto, centrais de emergência com atendimento 24 horas e serviços de pronta resposta podem apoiar o acionamento das equipes e a coordenação dos procedimentos iniciais. O monitoramento móvel também pode contribuir para reunir informações sobre o deslocamento e identificar situações que necessitem de verificação.

A gestão posterior à ocorrência inclui a sindicância, a regulação de sinistros e, quando aplicável, a recuperação veicular. Essas atividades ajudam a organizar registros, esclarecer circunstâncias e subsidiar decisões administrativas e operacionais.

Esses recursos não garantem a recuperação da carga nem impedem novas ocorrências. Sua contribuição depende da integração entre tecnologia, pessoas e processos, além da definição antecipada das responsabilidades de cada participante da operação.

Segurança logística envolve toda a cadeia farmacêutica

O aumento dos roubos de medicamentos exige uma abordagem que combine planejamento, monitoramento, resposta e apuração. A proteção da carga precisa estar associada à preservação da rastreabilidade e à observância das regras sanitárias aplicáveis aos produtos transportados.

Transportadores, embarcadores, distribuidores e operadores logísticos desempenham funções complementares na prevenção de ocorrências. A troca de informações e a adoção de protocolos compatíveis podem facilitar a identificação de riscos e a coordenação das medidas necessárias.

Para Jeder Ribas, a segurança logística deve ser tratada como parte da operação farmacêutica, e não apenas como uma resposta a situações emergenciais. A preparação anterior ao transporte e a capacidade de agir diante de uma ocorrência são elementos relevantes para administrar os riscos.

A proteção de cargas farmacêuticas tem impacto econômico, operacional e sanitário. Além de reduzir prejuízos, a adoção de procedimentos adequados contribui para preservar a procedência dos medicamentos e evitar que produtos cuja integridade não possa ser comprovada retornem indevidamente à cadeia de distribuição.


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