A Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Lontra completa 30 anos em 2026 como área destinada à conservação da Mata Atlântica no Litoral Norte da Bahia. Pertencente à Bracell, a unidade possui 1.377 hectares entre os municípios de Entre Rios e Itanagra e reúne espécies endêmicas, raras e ameaçadas, além de receber atividades de pesquisa, monitoramento ambiental e reintrodução de animais silvestres.
De acordo com dados apresentados pela empresa, até o primeiro semestre de 2026 as equipes de monitoramento haviam identificado 334 espécies de animais, distribuídas entre aves, anfíbios, mamíferos e répteis. A flora reúne mais de 200 espécies de plantas catalogadas.
A Lontra é reconhecida como Posto Avançado da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, estrutura vinculada ao Programa Homem e a Biosfera, reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). As Reservas Particulares do Patrimônio Natural são unidades de conservação de domínio privado destinadas à proteção permanente da diversidade biológica, conforme definição do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
Monitoramento registra espécies raras e ameaçadas
Entre os animais registrados na reserva estão a onça-parda, o papa-taoca-da-bahia, a preguiça-de-coleira, a surucucu-pico-de-jaca e a rãzinha-da-mata, espécie de anfíbio cujo tamanho varia entre 1,5 e 3 centímetros, segundo as informações fornecidas pela Bracell.
Na flora, os levantamentos identificaram espécies consideradas vulneráveis, entre elas a palmeira-juçara, a sucupira-preta e o ipê-amarelo-da-mata. O acompanhamento da vegetação integra as ações destinadas a registrar alterações na biodiversidade e subsidiar as práticas de conservação e manejo da área.
Segundo Meryellen Oliveira, gerente de Meio Ambiente e Certificações da Bracell na Bahia, a reserva mantém uma estrutura destinada à conservação do fragmento florestal e também recebe pesquisadores, estudantes e integrantes da comunidade para atividades relacionadas ao conhecimento da Mata Atlântica.
RPPN integra corredor ecológico no Litoral Norte
A área protegida está conectada a outros fragmentos de vegetação existentes em propriedades da região. De acordo com Meryellen Oliveira, essa configuração permite que a RPPN exerça função de corredor ecológico, favorecendo o deslocamento de animais entre diferentes áreas de Mata Atlântica.
A conectividade entre fragmentos pode facilitar processos associados à alimentação, reprodução e abrigo da fauna, além de reduzir a exposição dos animais a fatores como caça e circulação por áreas de maior interferência humana.
A conservação de corredores ecológicos é especialmente relevante em ambientes fragmentados, nos quais populações de animais podem depender da circulação entre diferentes trechos de vegetação para manutenção de seus ciclos biológicos. Registros anteriores divulgados pelo JGB já apontaram a presença de onças-pardas em áreas protegidas mantidas pela Bracell no Litoral Norte da Bahia.
Mais de 850 animais reabilitados foram recebidos pela reserva
Além das espécies que vivem naturalmente no fragmento florestal, a RPPN Lontra é utilizada para reintegração de animais silvestres submetidos a processos de reabilitação. Segundo a empresa, mais de 850 animais encaminhados por meio do Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) de Salvador já foram recebidos na área.
Entre as espécies mencionadas nesse processo estão o gato-do-mato-pequeno, o ouriço-preto e a preguiça-de-coleira. A escolha da reserva para essas ações está relacionada à extensão de vegetação preservada e às medidas adotadas contra a caça e outras formas de interferência humana.
O biólogo e especialista em Meio Ambiente da Bracell na Bahia Igor Macedo afirma que a manutenção das reservas particulares integra a política ambiental da empresa. A companhia também desenvolve o chamado Compromisso Um-Para-Um, pelo qual estabelece como referência apoiar a conservação de um hectare para cada hectare de eucalipto plantado. A estratégia e outras iniciativas de conservação da biodiversidade já foram abordadas pelo Jornal Grande Bahia.
Câmeras e sensores acústicos acompanham fauna
O monitoramento da biodiversidade da RPPN Lontra ocorre anualmente e utiliza equipamentos distribuídos em áreas florestais, margens de rios e outros ambientes acompanhados pelas equipes responsáveis pelo manejo.
Entre as tecnologias empregadas estão armadilhas fotográficas, que utilizam sensores de movimento e infravermelho para registrar imagens e vídeos de animais, inclusive durante a noite. Os registros permitem identificar espécies, acompanhar sua presença e obter informações sobre padrões de comportamento.
Também são utilizadas armadilhas acústicas, que registram vocalizações de aves, anfíbios e mamíferos. De acordo com Igor Macedo, os equipamentos conseguem captar tanto sons audíveis quanto ultrassons, utilizados, por exemplo, na identificação e no acompanhamento de morcegos.
Reserva recebe pesquisas de universidades
Ao longo de três décadas, a RPPN Lontra também passou a receber atividades acadêmicas. Segundo a Bracell, mais de 12 estudos desenvolvidos por universidades e instituições de ensino da Bahia e de outros estados foram concluídos ou estavam em andamento nos últimos anos.
Entre os trabalhos estão pesquisas da Universidade Federal da Bahia (Ufba) sobre diversidade genética, evolução e biogeografia de aves do Litoral Norte e estudos da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) sobre aspectos ecológicos e biogeográficos dos anfíbios anuros encontrados na região.
Além dos projetos científicos, a unidade recebe aulas de campo, treinamentos, eventos e visitas de instituições públicas e privadas, mediante procedimentos de segurança e proteção ambiental. Segundo Meryellen Oliveira, instituições de ensino interessadas em visitar a reserva podem solicitar agendamento prévio à Bracell.
RPPNs combinam propriedade privada e conservação permanente
As Reservas Particulares do Patrimônio Natural integram o Sistema Nacional de Unidades de Conservação e são constituídas voluntariamente em propriedades privadas. Uma vez reconhecidas, têm como objetivo manter a conservação da diversidade biológica em caráter permanente, sem transferência da titularidade do imóvel.
Na RPPN Lontra, as três décadas de conservação são associadas pela empresa a um conjunto de ações que inclui proteção territorial, monitoramento de fauna e flora, reintegração de animais silvestres, formação de corredores ecológicos e apoio à pesquisa científica.
Os próximos levantamentos de biodiversidade poderão ampliar os registros de fauna e flora da área e indicar alterações na distribuição das espécies. A continuidade dos estudos acadêmicos e do monitoramento tecnológico também permitirá acompanhar as condições do fragmento de Mata Atlântica do Litoral Norte da Bahia.








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