Rui Costa no Senado: eleição de 2026 reforça legado da comunicação de André Curvello

A eleição de Rui Costa (PT) para o Senado, no domingo (04/10/2026), com 4.335.196 votos, equivalentes a 30,07% dos votos válidos, oferece uma oportunidade para analisar a permanência de sua imagem política depois de deixar o Governo da Bahia. Candidato mais votado para o cargo no estado, o ex-governador conquistou uma das duas vagas em disputa e terá seu primeiro mandato como senador.

O resultado também permite examinar o legado do jornalista André Curvello, responsável pela comunicação estadual durante os dois mandatos de Rui e parte da administração de Jerônimo Rodrigues. A interpretação desenvolvida nesta análise é que a continuidade desse trabalho contribuiu para sedimentar uma imagem de gestor reconhecível pelo eleitorado.

Curvello assumiu a Secretaria de Comunicação Social da Bahia em 2015, permaneceu na equipe que iniciou o governo Jerônimo em 2023 e deixou a pasta em 12 de dezembro de 2024. Sua atuação compreendeu, portanto, quase uma década, período suficientemente extenso para examinar a comunicação como um trabalho de construção de reputação, com efeitos possíveis para além de uma campanha eleitoral.

O que a liderança de Rui Costa nas urnas permite analisar

Rui terminou a disputa à frente de Jaques Wagner (PT), eleito para a segunda vaga com 3.986.690 votos, ou 27,65% dos votos válidos. A vitória conjunta confirmou a força eleitoral dos dois ex-governadores, apresentados na campanha como integrantes do mesmo campo político do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de Jerônimo Rodrigues.

Em 2026, cada eleitor podia votar em dois candidatos diferentes ao Senado. Assim, os 30,07% de Rui correspondem à participação no conjunto dos votos válidos para o cargo, e não ao percentual de eleitores que escolheram seu nome. A distinção preserva a dimensão correta do resultado.

A primeira colocação permite discutir a capacidade de Rui de conservar projeção própria dentro de uma aliança. Para compreender essa projeção, é pertinente considerar a trajetória administrativa, os vínculos partidários e a maneira como seu trabalho foi apresentado publicamente. É nesse último aspecto que a atuação de Curvello adquire relevância.

A construção de uma imagem de gestor

A relação profissional entre Rui e Curvello antecede o exercício do governo estadual. O jornalista coordenou a comunicação da campanha de Rui ao Governo da Bahia em 2014, antes de assumir a Secom no ano seguinte. Essa sequência situa sua participação tanto na apresentação eleitoral do então candidato quanto na comunicação de sua administração.

Em entrevista ao jornal A TARDE, em 06/09/2021, Curvello relacionou a imagem de gestor de Rui à divulgação de seu trabalho administrativo. Sua resposta apresentava a comunicação como responsável por tornar conhecidas as ações governamentais.

Sob essa perspectiva, a sedimentação ocorre quando informações sobre decisões e ações deixam de circular apenas como notícias isoladas e passam a compor uma referência sobre determinado governante. A hipótese aplicada à eleição de Rui é que a comunicação continuada ajudou a organizar essa memória, oferecendo ao eleitor elementos para reconhecer sua trajetória em uma disputa posterior.

Interiorização ampliou o contato com a imprensa regional

Um dos componentes documentados desse trabalho foi a interiorização da comunicação. Em encontro realizado em Serrinha, em junho de 2015, Curvello apresentou o planejamento estratégico da Secom a profissionais e empresários do setor, com destaque para a atuação regional e a contratação de produções locais para campanhas governamentais.

Na ocasião, defendeu uma comunicação orientada pela ética, pelo planejamento e pela veracidade. O encontro também ofereceu atendimento nas áreas de produção de conteúdo e publicidade, aproximando a estrutura estadual dos profissionais que atuavam fora da capital.

A relevância política dessa orientação está na possibilidade de tornar informações sobre o governo mais acessíveis em diferentes regiões. Veículos locais podem relacionar decisões estaduais às necessidades de suas comunidades, submetê-las ao debate público e acompanhar seus desdobramentos. Para a análise da imagem de Rui, esse contato oferece um mecanismo plausível de circulação duradoura de informações sobre sua gestão.

Campanhas e canais digitais deram forma ao trabalho

A atuação da Secom também deixou registros de reconhecimento profissional. Em 2021, o filme “Naquela Mesa”, voltado à conscientização sobre os efeitos da pandemia de Covid-19, venceu a categoria nacional Valor Social do 43º Prêmio Profissionais do Ano, da Rede Globo. A campanha, produzida pela agência Morya, teve aprovação de Curvello como secretário.

Na esfera digital, o Papo Correria integrou a relação de Rui com o público. Na entrevista de 2021 ao A TARDE, Curvello identificou a iniciativa como um projeto do próprio governador, realizado em suas redes pessoais, e descreveu esses canais como espaços de escuta e interação com os cidadãos. Essa atribuição delimita corretamente a autoria da iniciativa.

Campanhas de utilidade pública e canais de interação cumprem funções diferentes, mas ambos podem participar da formação de uma imagem pública. A primeira organiza uma mensagem para alcançar determinados públicos; o segundo abre espaço para uma relação continuada. A combinação oferece uma chave para compreender a comunicação como parte da experiência pública de um governo.

A continuidade na primeira etapa do governo Jerônimo

A permanência de Curvello no início do governo Jerônimo Rodrigues prolongou sua atuação para além dos mandatos de Rui. Seu nome consta fez parte do secretariado divulgada oficialmente em janeiro de 2023, documentando a continuidade de sua presença no comando da comunicação estadual durante a transição entre as administrações.

Um exemplo dessa etapa foi o lançamento da Revista Nova Bahia, em 20/02/2024, em Salvador. Com 366 páginas e 36 temas, a publicação reuniu informações sobre o primeiro ano do governo Jerônimo e foi produzida sob a liderança da Secom, com participação de jornalistas, fotógrafos, profissionais de design e técnicos do governo.

A publicação permite observar a continuidade de uma prática de reunir e apresentar informações sobre a administração. Ao mesmo tempo, evidencia a dimensão coletiva da comunicação pública. Na carta de despedida divulgada em dezembro de 2024, Curvello reconheceu expressamente o protagonismo dos colaboradores e servidores da secretaria.

Um legado que precisa ser situado entre os fatores da vitória

A eleição de Rui ocorreu quase dois anos depois da saída de Curvello da Secom. Esse intervalo torna pertinente discutir os efeitos acumulados da comunicação: reputações podem permanecer como referências depois do encerramento de uma gestão e ser mobilizadas pelo eleitor em novas escolhas. No caso de Rui, a votação de 2026 oferece um ponto de observação dessa possível permanência.

O resultado, contudo, precisa ser compreendido em conjunto com a força do PT na Bahia, a trajetória dos candidatos e a estratégia eleitoral daquele ano. A campanha apresentou Rui e Wagner como os senadores de Lula, associando suas candidaturas a uma liderança nacional e ao governo estadual. Esses fatores impedem que a vitória seja explicada por uma única atuação profissional.

A contribuição de André Curvello está situada na organização de um trabalho continuado de comunicação, no relacionamento regional com a imprensa e na apresentação pública das administrações que integrou. A eleição de Rui Costa ao Senado reforça a pertinência de examinar esse legado.


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