STJ exonera secretário de tecnologia investigado por suspeita de vazamento de decisões a advogado amigo de Flávio Bolsonaro

Neste domingo (18/10/2026), o Superior Tribunal de Justiça (STJ) mantém em apuração interna um caso de possível vazamento de informações judiciais depois de exonerar, na sexta-feira (16/10), Humberto Fontoura Pradera, então secretário de Tecnologia da Informação e Comunicação da Corte. A medida ocorreu após o tribunal tomar conhecimento de elementos reunidos pela Polícia Federal (PF) segundo os quais informações internas, documentos e dados relacionados a processos teriam sido transmitidos ao advogado Willer Tomaz, amigo do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O material foi encaminhado à Procuradoria-Geral da República (PGR) e inclui ainda suspeitas envolvendo o procurador aposentado Antônio Carlos Simões Martins Soares. Os envolvidos negam irregularidades, e as medidas criminais permanecem sob sigilo.

STJ abre investigação interna e exonera secretário de tecnologia

O presidente do STJ, ministro Luis Felipe Salomão, tomou conhecimento dos elementos relacionados ao caso e determinou a abertura de procedimento interno na semana anterior à exoneração. Segundo o próprio tribunal, Pradera ocupava cargo de confiança e não integrava o quadro efetivo por concurso, circunstância que permitiu sua exoneração administrativa em 16/10/2026. A Corte acrescentou que as providências de natureza criminal estão em andamento e permanecem sigilosas.

Pradera exercia uma posição estratégica na estrutura tecnológica do STJ. Documentos oficiais mostram que ele atuava na área de tecnologia da Corte havia anos. Em 2018, foi nomeado secretário de Tecnologia da Informação e Comunicação, e posteriormente também ocupou a chefia da Assessoria de Inteligência Artificial. Em 7 de outubro de 2026, apenas nove dias antes da exoneração, uma publicação oficial do STJ ainda o identificava como secretário da área e finalista de uma premiação na categoria Executivo de Tecnologia.

A posição institucional de Pradera torna a apuração especialmente sensível porque a Secretaria de Tecnologia da Informação e Comunicação administra estruturas digitais relevantes para o funcionamento do tribunal. Isso, entretanto, não significa, por si só, que o então secretário possuísse acesso irrestrito a processos ou minutas. Procurado pelo UOL, ele afirmou que não tinha acesso a processos em andamento, que suas permissões eram restritas e que ainda não havia sido comunicado formalmente sobre a exoneração quando falou com o veículo.

Relatório da PF reúne mensagens entre Pradera e Willer Tomaz

As suspeitas tiveram origem em material reunido pela Polícia Federal e encaminhado à PGR. De acordo com reportagens baseadas nesse relatório, mensagens atribuídas a Pradera mostram o então secretário transmitindo a Willer Tomaz informações sobre demandas internas do STJ.

Em uma das conversas, Pradera teria informado que duas pessoas haviam sido designadas para tratar de determinado assunto e dito que manteria o advogado informado. Em outro episódio, segundo o material divulgado, ele encaminhou uma fotografia de um documento exibido na tela de um computador.

Outra conversa mencionada pela PF trata diretamente do Recurso Especial 2.122.969/SP. Questionado sobre o número de determinado processo, Pradera teria indicado o REsp e comentado os possíveis efeitos do julgamento sobre uma tutela anteriormente concedida. Para os investigadores, o diálogo deve ser examinado para determinar se houve fornecimento indevido de informação processual ou funcional.

A existência do processo é verificável na base oficial do STJ. O REsp 2.122.969/SP, relatado pela ministra Nancy Andrighi, discutia o cabimento de reclamação simultaneamente à interposição de recurso e teve decisão publicada em outubro de 2024. O documento público registra ainda parecer do MPF elaborado por Antônio Carlos Simões Martins Soares. A simples existência pública do processo e de seu parecer não comprova irregularidade; a questão sob investigação diz respeito à natureza e ao momento das informações supostamente compartilhadas.

PF aponta possível acesso antecipado a resultado de julgamentos

A investigação vai além das conversas atribuídas ao antigo secretário de tecnologia. Segundo o material revelado pelo UOL, a PF identificou situações em que o escritório de Willer Tomaz teria recebido informações sobre resultados de julgamentos antes da divulgação oficial e, a partir delas, poderia ter ajustado sua estratégia processual. Tomaz nega essa interpretação.

Um dos episódios envolve uma disputa judicial relacionada ao terreno onde funcionava a antiga Academia de Tênis de Brasília. Em 16/09/2026, segundo a investigação, o escritório teria recebido a minuta de um acórdão do STJ cuja assinatura ocorreu em 18/09/2026. A controvérsia envolve herdeiros e as construtoras Attos Empreendimentos Imobiliários e HC Incorporadora, representadas pelo escritório de Tomaz, em uma disputa informada em aproximadamente R$ 176,4 milhões.

As construtoras desistiram de recurso que estava pautado para julgamento. Para a Polícia Federal, o contexto deve ser analisado para verificar se o conhecimento antecipado da minuta interferiu na estratégia adotada. A existência da desistência, isoladamente, não comprova que ela tenha sido causada por eventual informação privilegiada; essa relação integra precisamente o objeto da apuração.

Caso de Weverton Rocha também aparece no relatório

Outro processo citado envolve o senador Weverton Rocha (PDT-MA), cliente de Willer Tomaz em ação por danos morais contra a Editora Abril, responsável pela revista Veja. O recurso estava previsto para análise pela Quarta Turma do STJ em setembro de 2025.

Na noite anterior à sessão, Weverton e a editora apresentaram pedidos de desistência dos respectivos recursos. Segundo a PF, o escritório de Tomaz já teria conhecimento do resultado esperado do julgamento quando a desistência foi apresentada. Essa é uma conclusão investigativa ainda submetida a verificação e eventual contraditório.

O relatório menciona ainda outros processos envolvendo a disputa empresarial entre J&F e Paper Excellence pela Eldorado Celulose, o espólio de Cid Ferreira, fundador do antigo Banco Santos, e a Difusora Comunicação, empresa relacionada ao próprio advogado.

Ex-subprocurador também é citado nas suspeitas

Outra frente do caso envolve Antônio Carlos Simões Martins Soares, ex-subprocurador-geral da República que se aposentou voluntariamente em março de 2026.

Segundo a investigação, Soares mantinha conversas com Willer Tomaz sobre processos e manifestações do Ministério Público Federal. A PF produziu uma planilha comparando recomendações enviadas pelo advogado com o conteúdo posterior de pareceres assinados pelo então subprocurador. De acordo com o relatório reproduzido pela imprensa, alguns trechos apresentariam redação semelhante e outros coincidências textuais.

A Polícia Federal relaciona sete casos em que suspeita que Soares tenha antecipado ou moldado manifestações do MPF de acordo com interesses defendidos por Tomaz. O material foi encaminhado ao Ministério Público para definição da competência adequada para eventual investigação do procurador aposentado. Enquanto exercia o cargo de subprocurador, eventual investigação poderia tramitar no STJ; com a aposentadoria, há discussão sobre possível deslocamento para a primeira instância.

Soares já havia ganhado projeção política em 2019, quando seu nome foi mencionado como possível candidato à Procuradoria-Geral da República durante o governo Jair Bolsonaro. Na época, integrantes do Ministério Público o associavam politicamente ao entorno de Flávio Bolsonaro, relação que ele negava.

Willer Tomaz nega acesso irregular e interferência em pareceres

Willer Tomaz rejeitou as conclusões atribuídas à investigação. O advogado afirmou que não obteve acesso irregular ou não autorizado a decisões judiciais ou pareceres sigilosos e negou ter interferido na elaboração de manifestações do Ministério Público Federal.

Segundo Tomaz, sua atuação profissional ocorreu pelos meios institucionais e processuais previstos para a advocacia. Ele classificou como infundadas as interpretações de que teria recebido ou utilizado informações de forma ilegal.

Em manifestação reproduzida por veículos que tiveram acesso à resposta da defesa, Tomaz também argumentou que determinadas informações sobre julgamentos podem ser disponibilizadas pelo próprio sistema judicial e que a apresentação de memoriais a integrantes do Ministério Público faz parte da atividade advocatícia. Segundo a defesa, a incorporação de argumentos apresentados pelos advogados a um parecer, quando o procurador concorda com eles, não constitui automaticamente irregularidade.

A delimitação entre atividade legítima de advocacia e eventual obtenção de informação reservada será, portanto, uma das questões centrais da investigação. Para a caracterização de qualquer ilícito será necessário demonstrar não apenas a circulação de informações, mas sua natureza, grau de sigilo, momento do acesso, origem, finalidade e eventual vantagem obtida.

Relação com Flávio Bolsonaro exige distinção entre amizade e participação nos fatos

O nome de Flávio Bolsonaro aparece no contexto porque ele e Willer Tomaz mantêm relação pessoal de amizade reconhecida publicamente. Não há, nas informações divulgadas sobre o suposto vazamento no STJ, elemento que atribua ao senador participação no repasse de minutas ou na elaboração de pareceres do MPF.

A relação entre ambos, entretanto, já aparece em outras frentes investigativas. Documentos obtidos pela PF indicaram que, em determinado momento, o nome de Flávio esteve associado a um ambiente bancário relacionado a empresa de Tomaz. O senador e o advogado negaram a existência de vínculo financeiro ou societário.

Também há registros de viagens realizadas conjuntamente. Documentos analisados pela Polícia Federal apontam que uma empresa relacionada a Tomaz contratou trechos de jato executivo utilizados por ele, Flávio Bolsonaro e familiares entre Portugal e França em abril e maio de 2025. Tomaz afirmou que as viagens eram passeios particulares entre amigos e foram custeadas sem qualquer contrapartida; Flávio igualmente afirmou que a relação entre ambos é exclusivamente de amizade.

Esses antecedentes ajudam a explicar a referência ao senador nas reportagens sobre o vazamento, mas não autorizam concluir que Flávio Bolsonaro tenha participado ou tido conhecimento de eventual repasse irregular de informações do STJ.

Investigação sobre Willer Tomaz antecede descoberta das mensagens

O material envolvendo o STJ surgiu em contexto mais amplo de investigação da Polícia Federal. Em 04/08/2026, Tomaz foi alvo de busca e apreensão durante nova fase da Operação Sem Desconto, destinada a aprofundar suspeitas de lavagem de dinheiro relacionadas às investigações sobre descontos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS.

Foram cumpridos 18 mandados de busca e apreensão no Distrito Federal e no Maranhão. A PF descreveu Tomaz como personagem relevante de uma estrutura financeira e patrimonial relacionada ao senador Weverton Rocha. A defesa do advogado rejeitou a imputação e afirmou que a diligência contra ele estava relacionada ao empréstimo de uma aeronave ao parlamentar.

Foi a partir da análise de materiais apreendidos e de outras diligências que investigadores passaram a identificar relações, mensagens e documentos que abriram novas linhas de investigação, entre elas a referente ao STJ e ao Ministério Público Federal. A origem investigativa do material não transforma automaticamente as hipóteses levantadas pela PF em fatos provados; eventual responsabilização dependerá da consolidação das provas, manifestação do Ministério Público e controle judicial.

Caso expõe risco institucional para igualdade entre as partes

O acesso indevido a uma minuta judicial antes de sua assinatura ou publicação, caso comprovado, produz efeitos que ultrapassam os interesses das partes de um processo específico. O princípio da igualdade processual pressupõe que litigantes tenham acesso às decisões e atos judiciais pelos canais e momentos definidos pelas regras processuais.

Conhecer antecipadamente um resultado ainda não oficialmente disponibilizado poderia, em determinadas circunstâncias, permitir alterações de estratégia, desistência de recursos, composição entre partes ou adoção de outras medidas antes que os demais envolvidos tivessem a mesma informação.

Esse é o motivo pelo qual a investigação precisa distinguir cuidadosamente informações efetivamente reservadas de dados já disponíveis às partes por meio dos sistemas eletrônicos. O próprio contraditório apresentado por Tomaz sustenta que parte do que está sendo tratado como acesso antecipado poderia decorrer de ferramentas regulares do sistema judicial.

A investigação administrativa instaurada pelo STJ terá, portanto, relevância não apenas disciplinar. Ela deverá ajudar a esclarecer quais sistemas foram acessados, por quem, quando, com quais credenciais e se houve consulta ou transmissão de documentos antes de sua disponibilização regular.

Apurações seguem sob sigilo

Até este domingo, o STJ não informou publicamente a conclusão de responsabilidade administrativa ou criminal de Humberto Pradera. A exoneração de um ocupante de cargo de confiança constitui uma decisão administrativa e não equivale a condenação.

Também não há notícia de denúncia criminal recebida contra Pradera, Tomaz ou Soares especificamente pelos fatos relacionados aos supostos vazamentos. O tribunal informou apenas que as medidas criminais estão em andamento e sob sigilo.

No caso do ex-subprocurador, permanece igualmente relevante a definição sobre qual instância terá competência para examinar os elementos reunidos pela PF após sua aposentadoria.

Para o STJ, o ponto central será identificar se houve falha individual, quebra de dever funcional ou vulnerabilidade sistêmica que tenha permitido acesso indevido a informações. Para a PF e o Ministério Público, será necessário individualizar eventuais condutas e demonstrar juridicamente se os fatos ultrapassaram irregularidades administrativas e configuraram crimes.

Linha do tempo dos principais acontecimentos

  • 2018 — Humberto Fontoura Pradera assume função de direção na área tecnológica do STJ: ato oficial registra sua nomeação como secretário de Tecnologia da Informação e Comunicação da Corte.
  • 2019 — Antônio Carlos Simões Martins Soares é citado como possível nome para a PGR: o então subprocurador aparece nas discussões sobre a sucessão na Procuradoria-Geral da República; ele rejeitava atribuições de proximidade política que lhe eram feitas.
  • Outubro de 2024 — STJ publica decisão no REsp 2.122.969/SP: decisão oficial registra parecer de Antônio Carlos Simões Martins Soares no processo posteriormente mencionado em diálogo analisado pela PF.
  • Setembro de 2025 — Recurso de Weverton Rocha contra a Editora Abril entra na pauta da Quarta Turma: na véspera da sessão, as partes desistem dos recursos; a PF suspeita que o escritório de Willer Tomaz já conhecia o provável resultado.
  • Março de 2026 — Antônio Carlos Simões Martins Soares se aposenta: a saída do MPF gera posteriormente discussão sobre a instância competente para eventual investigação dos fatos apontados pela PF.
  • 04/08/2026 — Operação Sem Desconto alcança Willer Tomaz: a PF cumpre 18 buscas no Distrito Federal e Maranhão em investigação sobre possível lavagem de dinheiro; Tomaz rejeita as suspeitas.
  • 16/09/2026 — PF aponta recebimento antecipado de minuta: segundo a investigação, escritório de Tomaz teria recebido minuta relacionada à disputa sobre terreno da antiga Academia de Tênis de Brasília.
  • 18/09/2026 — Acórdão é assinado: de acordo com a apuração divulgada, a assinatura ocorreu dois dias após o suposto recebimento antecipado da minuta.
  • 07/10/2026 — STJ ainda apresenta Pradera como secretário de tecnologia: publicação oficial da Corte identifica o dirigente entre os finalistas de premiação do setor de inovação e tecnologia.
  • Semana anterior a 16/10/2026 — STJ instaura procedimento interno: o presidente Luis Felipe Salomão determina investigação depois de tomar conhecimento dos fatos.
  • 16/10/2026 — Humberto Pradera é exonerado: o STJ afasta o ocupante do cargo de confiança e informa que existem medidas criminais sigilosas em andamento.
  • 17/10/2026 — Caso torna-se público: reportagens revelam o conteúdo da investigação da PF, e o STJ confirma a exoneração e a abertura da apuração interna.
  • 18/10/2026 — Investigações permanecem abertas: não há divulgação de conclusão administrativa, denúncia ou julgamento definitivo relacionado ao suposto vazamento.

O episódio coloca sob escrutínio uma área especialmente sensível do sistema de Justiça: a integridade dos fluxos internos de informação de um tribunal superior. Se comprovado que minutas ou resultados ainda não disponíveis regularmente às partes foram entregues antecipadamente a um advogado, o problema não se restringirá à conduta individual de um servidor. Estará em discussão a capacidade institucional de proteger documentos, registrar acessos e assegurar igualdade processual.

Ao mesmo tempo, a gravidade potencial das suspeitas exige rigor na distinção entre evidência e conclusão. Estão confirmadas a abertura da investigação interna pelo STJ, a exoneração de Humberto Pradera, a existência do relatório da PF e as mensagens descritas pelas reportagens. Permanece sob investigação se esses contatos constituíram efetivamente vazamento ilegal, qual era o grau de sigilo das informações, se houve vantagem processual indevida e quais pessoas teriam responsabilidade individual.

Também devem ser separados os diferentes níveis de vínculo entre os personagens. Willer Tomaz possui relação pessoal reconhecida com Flávio Bolsonaro e aparece em outras investigações policiais. Isso explica o interesse político e eleitoral do episódio, mas não existe, no material divulgado até agora, demonstração de participação de Flávio no suposto vazamento do STJ. Da mesma forma, referências a Weverton Rocha e a outros clientes do escritório precisam ser analisadas processo a processo, sem conversão automática de representação jurídica ou relacionamento pessoal em responsabilidade criminal.

Os próximos passos dependerão sobretudo do STJ, da Polícia Federal, do Ministério Público Federal e eventualmente do Poder Judiciário competente, que precisarão reconstruir trilhas de acesso, verificar metadados, confrontar mensagens com horários de tramitação e definir a situação jurídica dos envolvidos. A relevância pública do caso reside justamente na necessidade de esclarecer se informações reservadas de uma das mais altas Cortes do país foram usadas fora dos canais institucionais e, caso isso seja comprovado, quais mecanismos deverão ser adotados para responsabilização e prevenção de novos episódios.


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