Na quinta-feira (15/10/2026), o vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin (PSB), e o governador reeleito da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), reuniram-se com empresários e dirigentes de entidades produtivas no Hotel Wyndham Salvador Hangar, em Salvador, para discutir as perspectivas econômicas do país e da Bahia. Realizado um dia após o Senado aprovar a PEC 221/2019, que extingue a escala 6×1 e reduz progressivamente a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, o encontro expôs divergências entre governos e indústria sobre os efeitos da mudança trabalhista e ampliou o debate para reforma tributária, microempreendedor individual, comércio exterior, política industrial, logística, incentivos regionais e interiorização dos investimentos.
A reunião contou, entre outros representantes, com Carlos Henrique Passos, presidente da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), e Ricardo Alban, presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI). O encontro ocorreu ainda em plena campanha do segundo turno presidencial, marcado para 25/10/2026, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), tendo Alckmin como candidato a vice, enfrenta Flávio Bolsonaro (PL), cuja chapa tem Alfredo Gaspar como vice.
Fim da escala 6×1 domina parte do debate com empresários
A proximidade temporal entre a votação no Senado e a reunião empresarial transformou a mudança da jornada de trabalho em um dos pontos mais sensíveis da agenda. Na noite de 14/10/2026, o Senado aprovou, por 75 votos a 1, em dois turnos, a PEC 221/2019. O texto já havia passado pela Câmara e segue para promulgação pelo Congresso Nacional.
A proposta determina dois dias de repouso semanal remunerado, sem redução salarial, e estabelece transição em duas etapas: a jornada máxima cairá inicialmente para 42 horas semanais, dois meses depois da publicação da emenda constitucional, e chegará a 40 horas um ano e dois meses após a promulgação. Um dos dias de descanso deverá ocorrer preferencialmente aos domingos.
Jerônimo Rodrigues defendeu a alteração e argumentou que a melhoria das condições de trabalho pode repercutir positivamente sobre a produtividade. Ao conversar com empresários, afirmou que uma jornada considerada mais equilibrada não deve ser tratada automaticamente como incompatível com os interesses dos investidores.
“O trabalhador precisa ser bem tratado, precisa ter direitos”, afirmou Jerônimo Rodrigues ao defender a nova organização da jornada.
O governador contestou previsões automáticas de desemprego, inflação ou prejuízos empresariais decorrentes da mudança, ao mesmo tempo em que sustentou a necessidade de diálogo com o setor produtivo durante a adaptação às novas regras.
Fieb alerta para custos, competitividade e segurança jurídica
A Fieb, porém, apresentou posição mais cautelosa. Em manifestação divulgada depois do encontro, a entidade reconheceu a importância de melhorar as condições de trabalho, mas advertiu que a redução de 44 para 40 horas, sem diminuição salarial, poderá elevar custos e afetar a competitividade em determinadas atividades.
A federação apontou preocupação especial com pequenas indústrias, construção civil e segmentos de operação contínua, incluindo os setores químico e petroquímico. Também chamou atenção para a necessidade de compatibilizar a nova regra constitucional com regimes específicos, como jornadas de turnos contínuos e a escala 12×36.
Segundo a Fieb, equipes pequenas e empresas com margens reduzidas podem ter menor capacidade para reorganizar turnos ou contratar trabalhadores adicionais. A instituição defendeu estudos econômicos, mecanismos de compensação e uma transição que considere as particularidades dos diferentes segmentos produtivos.
A divergência não altera um aspecto objetivo: a PEC já concluiu a votação parlamentar e aguarda promulgação. As dimensões efetivas dos impactos sobre custos, emprego, produtividade, preços e organização empresarial, entretanto, dependerão da estrutura de cada atividade e constituem matéria econômica ainda sujeita a avaliações posteriores.
Alckmin recebe documentos e promete examinar reivindicações
Durante a reunião, entidades empresariais entregaram documentos com reivindicações ao vice-presidente. Alckmin afirmou que pretende examinar o material e manter interlocução com o setor produtivo.
“Quem ouve mais, erra menos. Essa é a beleza da democracia”, disse Geraldo Alckmin.
A afirmação sintetizou uma das mensagens políticas do encontro: a tentativa do governo federal de apresentar a política industrial e econômica como resultado de negociação entre Estado e iniciativa privada, mesmo quando existem divergências concretas, como no caso da jornada de trabalho.
Alckmin afirmou que a visita à Bahia buscava ouvir empresários de setores como indústria automobilística, química, petroquímica, petróleo e agropecuária. A agenda ocorreu em um estado que abriga complexos industriais relevantes e que, nos últimos anos, recebeu novos investimentos no segmento automotivo, especialmente em Camaçari.
Fieb cobra horizonte maior para incentivos da Sudene
Além da questão trabalhista, Carlos Henrique Passos entregou ao vice-presidente uma carta com demandas consideradas prioritárias pela indústria baiana no âmbito federal. Entre elas está a defesa de maior horizonte temporal para os incentivos tributários concedidos aos empreendimentos instalados na área de atuação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene).
A legislação federal prorrogou até dezembro de 2028 incentivos de Imposto de Renda para empreendimentos enquadrados nas áreas da Sudene e da Sudam. A Fieb sustenta, contudo, que ciclos curtos de renovação reduzem a previsibilidade necessária para projetos industriais com maturação de longo prazo.
Passos também argumentou que instrumentos previstos no novo sistema tributário, como mecanismos de desenvolvimento e compensação regional, não eliminam por si mesmos as desigualdades históricas de infraestrutura, mercado e capacidade produtiva entre Nordeste e regiões mais industrializadas do país. Trata-se de uma posição institucional da entidade empresarial, e não de uma decisão já adotada pelo governo federal.
Reforma tributária entra na pauta da competitividade
Alckmin voltou a defender a reforma tributária sobre o consumo, que substituirá gradualmente PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS pelo novo sistema baseado na Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e no Imposto sobre Bens e Serviços (IBS).
Em Salvador, classificou a estrutura tributária brasileira como excessivamente complexa e sustentou que a simplificação tende a reduzir custos administrativos, eliminar parte da cumulatividade tributária e melhorar a competitividade das exportações.
O vice-presidente citou projeções segundo as quais a reforma poderia aumentar investimentos e exportações ao longo dos próximos anos. Essas estimativas devem ser compreendidas como projeções econômicas, sujeitas a hipóteses e aos efeitos concretos da implementação do novo sistema, e não como resultados já verificados.
Estudos do Ipea sobre tributação e produtividade destacam que um sistema do tipo IVA, com aproveitamento de créditos, busca evitar incidência cumulativa sobre investimentos e exportações e reduzir distorções associadas à complexidade da tributação sobre bens e serviços.
Portal Único pode reduzir custos do comércio exterior
Outro ponto destacado por Alckmin foi a implantação do Portal Único de Comércio Exterior, iniciativa federal destinada a centralizar e simplificar procedimentos de importação e exportação.
O vice-presidente afirmou que a implantação integral do sistema poderá produzir economia próxima de R$ 40 bilhões por ano para operadores de comércio exterior. A estimativa não foi apresentada apenas no evento: documentos oficiais do MDIC também registram esse valor como economia potencial decorrente da redução do tempo e da burocracia envolvidos nas operações.
Dados divulgados pelo ministério em julho de 2026 indicavam que o tempo médio para exportação havia caído de 13 para 4,5 dias, enquanto o de importação recuara de 17 para 6,8 dias. Na primeira quinzena de junho, 81% das operações já haviam migrado para a Declaração Única de Importação, com previsão de conclusão da transição até dezembro de 2026.
O MDIC associa aproximadamente 0,8% do valor da carga a cada dia economizado no despacho. A estimativa de R$ 40 bilhões deve, portanto, ser tratada como cálculo de impacto potencial da simplificação administrativa, e não como economia já integralmente realizada.
MEI entra na estratégia para pequenos negócios
Alckmin também destacou a ampliação do teto de faturamento do Microempreendedor Individual (MEI), aprovada pela Câmara dos Deputados na véspera do encontro.
Por 461 votos a 4, os deputados aprovaram texto que aumenta o limite anual dos atuais R$ 81 mil para R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028. A proposta também estabelece medidas relacionadas a débitos de microempreendedores e segue para análise do Senado, não constituindo ainda legislação em vigor.
O projeto incorpora iniciativas encaminhadas pelo Poder Executivo e integra uma tentativa de ampliar a capacidade de crescimento dos pequenos negócios sem obrigá-los a migrar imediatamente para regimes tributários mais complexos.
Assim, diferentemente da PEC da jornada de trabalho — cuja tramitação parlamentar foi concluída —, as alterações relativas ao MEI permanecem dependentes de nova deliberação legislativa.
CNI cobra integração entre ferrovias e portos da Bahia
A infraestrutura logística apareceu como outro componente estratégico do encontro. O presidente da CNI, Ricardo Alban, defendeu melhoria da integração ferroviária com os portos baianos e apontou limitações logísticas como obstáculo à competitividade industrial.
A reivindicação toca um problema estrutural do desenvolvimento econômico estadual: não basta ampliar capacidade industrial ou exportadora sem corredores capazes de transportar matérias-primas e produtos acabados com custos compatíveis com mercados nacionais e internacionais.
Alban também defendeu maior atenção ao conteúdo nacional em projetos ligados ao armazenamento de energia por baterias, citando empresas já inseridas nessa cadeia produtiva. A proposta representa uma posição da CNI sobre política industrial e não significa que novas exigências de conteúdo local tenham sido formalmente adotadas pelo governo.
Hidrovia do São Francisco é apresentada como alternativa logística
A reunião também serviu para recolocar em debate a reativação da Hidrovia do São Francisco. A Autoridade Portuária Federal — Codeba — apresentou estudos atualizados pela Infra S.A. sobre a viabilidade econômica do corredor.
Segundo a Codeba, a proposta pretende ampliar as alternativas para transporte de cargas, integrar regiões produtoras e criar uma nova opção logística para atividades econômicas da Bahia e de outros estados conectados à bacia do São Francisco.
A apresentação dos estudos, entretanto, não equivale à autorização de obras ou à definição de cronograma de implantação. A transformação do projeto em infraestrutura operacional dependerá de decisões técnicas, ambientais, regulatórias, orçamentárias e de eventual estruturação de investimentos.
Interiorização industrial aparece entre as reivindicações
O encontro também abriu espaço para a discussão sobre interiorização do desenvolvimento. O presidente da Fieb destacou o programa Avança Chapada, iniciativa do Sistema Fieb executada pelo IEL Bahia em parceria com a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI).
O programa reúne agentes públicos e privados dos 24 municípios da Chapada Diamantina para elaborar uma agenda de desenvolvimento baseada em cadeias produtivas regionais, infraestrutura, inovação, qualificação profissional, bioeconomia e transição energética.
O presidente da União dos Municípios da Bahia (UPB) e prefeito de Andaraí, Wilson Cardoso, também defendeu qualificação profissional e fortalecimento das cadeias produtivas fora da Região Metropolitana de Salvador. A intervenção reforçou uma demanda recorrente dos municípios baianos: ampliar investimentos produtivos e infraestrutura econômica no interior.
Relação entre governos e setor industrial tem antecedentes recentes
A agenda entre Alckmin, Jerônimo e as entidades produtivas possui antecedentes. Em 09/10/2023, os dois participaram em Camaçari de agendas relacionadas à implantação da BYD e à expansão da Bridgestone, num momento de retomada de investimentos no polo industrial da Região Metropolitana de Salvador.
Em agosto de 2025, Jerônimo e o presidente da Fieb voltaram a articular com Alckmin medidas destinadas a reduzir os efeitos sobre empresas baianas da tarifa adicional imposta pelos Estados Unidos a produtos brasileiros. À época, a pauta envolvia crédito, restituição de créditos de ICMS e tentativa de ampliar exceções para produtos exportados pela Bahia.
A continuidade dessas reuniões mostra que o relacionamento entre governo estadual, MDIC e setor industrial passou a envolver simultaneamente política de investimentos, comércio exterior, infraestrutura e respostas a alterações regulatórias.
Reunião ocorre no centro da disputa presidencial de 2026
O componente econômico da agenda conviveu com uma dimensão eleitoral incontornável. Alckmin é candidato à reeleição como vice de Lula, enquanto Jerônimo Rodrigues acaba de conquistar novo mandato na Bahia.
O governador foi reeleito em primeiro turno em 04/10/2026, alcançando 4.626.265 votos, correspondentes a 55,80% dos votos válidos, segundo o Tribunal Superior Eleitoral.
Na eleição presidencial, Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno nacional à frente, com 56.104.268 votos — 47,03% dos válidos. Lula recebeu 53.876.617 votos, ou 45,16%, levando a disputa para o segundo turno de 25 de outubro.
Nesse contexto, a passagem do vice-presidente pela Bahia combina atribuições institucionais ligadas ao desenvolvimento econômico com sua condição de integrante de uma chapa em campanha. A distinção entre anúncios governamentais, posições programáticas, projeções econômicas e propostas ainda dependentes de decisão legislativa é, portanto, indispensável para a compreensão do encontro.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- 09/10/2023 — Camaçari: Geraldo Alckmin e Jerônimo Rodrigues participam de agendas ligadas à implantação da BYD e à expansão da Bridgestone, reforçando a pauta de reindustrialização e investimentos automotivos na Bahia.
- Agosto de 2025 — Salvador: Governo da Bahia, Fieb e Alckmin discutem medidas para reduzir os impactos das tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros exportados pela Bahia.
- 27/05/2026 — Brasília: Câmara dos Deputados aprova em dois turnos a proposta que reduz a jornada máxima para 40 horas e estabelece dois dias de descanso semanal, encaminhando o texto ao Senado.
- 03/07/2026 — Brasília: MDIC informa que a implantação do Portal Único de Comércio Exterior pode gerar economia estimada de R$ 40 bilhões anuais, com conclusão da migração prevista para dezembro.
- 02/10/2026 — Feira de Santana: Jerônimo Rodrigues encontra empresários na CDL e recebe agenda com 14 prioridades para o município, ampliando o diálogo com representantes do setor produtivo baiano.
- 04/10/2026 — Bahia: Jerônimo é reeleito governador em primeiro turno, com 55,80% dos votos válidos.
- 04/10/2026 — Brasil: Flávio Bolsonaro obtém 47,03% e Lula 45,16% dos votos válidos na eleição presidencial, levando a disputa ao segundo turno de 25 de outubro.
- 14/10/2026 — Brasília: Senado aprova a PEC 221/2019 em dois turnos, por 75 votos a 1, concluindo a tramitação parlamentar do fim da escala 6×1 e da redução progressiva da jornada.
- 14/10/2026 — Brasília: Câmara aprova, por 461 votos a 4, aumento gradual do teto de faturamento do MEI para R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028; matéria segue para o Senado.
- 15/10/2026 — Salvador: Alckmin e Jerônimo reúnem empresários e dirigentes da Fieb, CNI e outras organizações. Jornada de trabalho, competitividade, impostos, logística, política industrial e desenvolvimento regional integram a pauta.
- 15/10/2026 — Salvador: Fieb divulga manifestação alertando para possíveis impactos da redução da jornada sobre custos, competitividade, pequenas empresas e atividades de operação contínua.
- 15/10/2026 — Salvador: Codeba apresenta estudos atualizados sobre a reativação da Hidrovia do São Francisco, acrescentando infraestrutura logística às discussões do encontro.








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