88 anos da Rebelião dos escravos Malês | Por Joaci Góes

Para os queridos amigos Maria de Lourdes, filha, e Jorge Medauar, pai!

“Na noite do dia 24 para 25 de janeiro de 1835, um grupo de africanos escravos e libertos ocupou as ruas de Salvador, Bahia, e durante mais de três horas enfrentou soldados e civis armados. Os organizadores do levante eram malês, termo pelo qual eram conhecidos, na Bahia da época, os africanos muçulmanos.

Embora durasse pouco tempo, apenas algumas horas, foi o levante de escravos urbanos mais sério ocorrido nas Américas e teve efeitos duradouros para o conjunto escravista. Centenas de insurgentes participaram, cerca de setenta morreram e mais de quinhentos, numa estimativa conservadora, foram depois punidos com penas de morte, prisão, açoites e deportação. Se uma rebelião das mesmas proporções acontecesse na virada para o século XXI em Salvador, com seus quase 3 milhões de habitantes, resultaria na punição de cerca de 24 mil pessoas. Isso dá uma ideia da dramática experiência vivida pelos africanos e outros habitantes da Bahia em 1835.”

Assim, o historiador baiano João José Reis inicia seu Magnum opus Rebelião Escrava no Brasil, reputado um clássico, no gênero.

Recorde-se que figurou como musa do movimento a escrava forra, de origem africana nobre, Luíza Mahin, nascida em 1810, mãe de Luiz Gonzaga Pinto da Gama, ou, simplesmente, Luiz Gama (1830-1882), ambos objetos do romance histórico Um defeito de cor, uma das melhores obras da literatura universal, da mineira Ana Maria Gonçalves (1970- ). Luiza Mahin viria a desaparecer, dois anos mais tarde, na sequência do movimento de 1837, denominado A Sabinada. Luiza Mahin e seu filho Luiz Gama figuram, ao lado de Zumbi dos Palmares, como as personalidades negras mais marcantes na luta pela abolição da escravatura, no Brasil.

Essa longa evocação histórica vem a propósito da persistente presença dos negros na escala social mais baixa da população brasileira, sem qualquer perspectiva de mudança, enquanto a negritude persistir na suicida postura, na sociedade do conhecimento em que estamos imersos, de ignorar a educação como a única alternativa capaz de mudar essa injustificável, inaceitável e infame segregação.

Além da discriminação racial, entre mascarada e ostensiva que sofrem os negros brasileiros, sua menor escolaridade responde por sua baixa remuneração, e, o que é, ainda, mais grave, por uma longevidade média, sensivelmente menor do que as populações consideradas brancas, em razão da precariedade ou ausência dos serviços de saneamento básico, conforme a pesquisa batizada como A distância que nos une,  realizada pela Oxfam (Oxford Famine), Ong inglesa, dedicada à análise da desigualdade entre povos e populações de todo o mundo. Enquanto as populações que têm acesso a saneamento básico de qualidade, no Brasil, vivem, em média, 79 anos, as que não têm acesso a esse benefício fundamental usufruem de uma longevidade média de, apenas, 54 anos. Isso significa que a incúria da administração pública brasileira forja uma matança, estatisticamente comprovada, algumas vezes maior do que a Covid 19, em sua fase de mais alta letalidade. E ninguém diz nada!

Enquanto cerca da metade da população brasileira não tem acesso a saneamento básico, esse percentual, na Bahia, ascende a 60%, tornando o nosso estado o detentor de um dos mais baixos IDH da América Latina, resultando no ou conduzindo ao maior número de homicídios, de desempregados, de analfabetos, de tuberculosos, morféticos, chagásicos e detentores de sub remunerações.

Não há tarefa tão prioritária no Brasil quanto assegurar condições de vida minimamente decentes para os pobres, em geral, e os negros, em particular.

*Joaci Góes, advogado, jornalista, empresário, ex-deputado federal constituinte e presidente do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia (IGHB).


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