O comércio entre Brasil e China está passando por uma mudança significativa à medida que as transações em moedas locais ganham espaço. Especialistas e economistas destacam que a desdolarização das transações bilaterais não apenas reduz os custos, mas também diminui os riscos envolvidos. O uso do dólar como intermediário em negociações entre empresas brasileiras e chinesas está cedendo espaço a uma prática mais eficiente e econômica, resultando em benefícios para ambas as nações.
A primeira transação comercial anunciada em setembro deste ano, envolvendo uma empresa brasileira e o Banco da China Brasil SA, aponta para uma tendência crescente no uso de moedas locais nas relações comerciais entre os dois países. O impacto mais imediato é a redução dos custos de transação, tanto para empresas privadas quanto para o governo brasileiro, que estabeleceu uma forte parceria com a China desde 2009, com um volume de exportações quase três vezes maior do que com os EUA.
Carlos Eduardo Carvalho, professor de economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), destaca a vantagem das transações livres dos riscos de oscilação do dólar, abrindo oportunidades para o Brasil desenvolver seu comércio internacional sem depender das reservas em dólar. No entanto, ele também aponta para desafios, como a falta de um mercado financeiro aberto na China para que os exportadores possam aplicar lucrativamente os yuans recebidos.
Diego Pautasso, doutor em ciência política e especialista em relações internacionais, enfatiza que a desdolarização está acontecendo de forma acelerada, especialmente graças à liderança da China. O yuan já superou o dólar em cerca de metade das transações transfronteiriças na China e está ganhando espaço em outros países, como a Rússia.
Essa tendência se reflete no aumento do uso de moedas locais em acordos bilaterais de cooperação monetária. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou importantes acordos durante sua viagem à China, incluindo a adesão ao sistema China Interbank Payment System (CIPS), que oferece custos menores para transações em moedas locais entre países. A criação de uma casa de compensação do yuan no Brasil, uma sucursal do Commercial Bank of China (ICBC), também foi acordada para manter reservas cambiais no país e reduzir intermediários em pagamentos internacionais.
Embora a desdolarização das transações comerciais ofereça vantagens significativas, alguns obstáculos ainda persistem. A ausência de um mercado financeiro aberto e suficientemente desenvolvido na China é apontada como um desafio, pois limita a capacidade dos exportadores de aplicar lucrativamente os yuans recebidos. Além disso, a ideia de uma moeda única para o grupo BRICS, que inclui Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul, é vista com cautela por alguns especialistas, que consideram o grupo heterogêneo.
No entanto, à medida que o poder dos EUA diminui e o uso do dólar como instrumento de coação e desestabilização se torna mais evidente, a busca por alternativas à moeda americana ganha força. A desdolarização das transações comerciais entre Brasil e China é uma tendência que parece estar ganhando terreno e oferece benefícios econômicos consideráveis para ambas as nações.
*Com informações da Sputnik News.









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