Ruchir Sharma, um dos mais renomados investidores de Wall Street, levanta uma questão provocadora em seu novo livro: “O que deu errado com o capitalismo?”. Sharma argumenta que o sistema econômico moderno, tal como praticado hoje, se desviou de suas bases originais, criando um cenário de desigualdade e baixa produtividade. Em suas palavras, o capitalismo atual não atingiu seu verdadeiro potencial, sendo corrompido por intervenções governamentais excessivas e práticas financeiras que, segundo ele, não refletem a essência do livre mercado.
A Perspectiva de um Veterano de Wall Street
Com uma carreira de décadas em Wall Street, Sharma ocupou posições em algumas das principais instituições financeiras do mundo e hoje preside a Rockefeller Capital Management. Sua trajetória pelo setor o dotou de uma visão privilegiada sobre o funcionamento da economia global e, por extensão, dos problemas que ele acredita estarem enraizados nas práticas capitalistas modernas. Com essa experiência, Sharma critica o que chama de “perversão do capitalismo”, alegando que os atuais beneficiários do sistema não representam necessariamente os mais produtivos, mas aqueles com maior acesso a capital e influência política.
Crescimento Pessoal e Ideológico
A visão crítica de Sharma é fruto não só de sua vivência profissional, mas também de uma trajetória pessoal marcada por contrastes. Nascido na Índia, ele cresceu sob uma economia orientada por políticas socialistas, onde a nacionalização de bancos e empresas públicas era comum. Nos anos 1980, sua mudança para Cingapura expôs-lhe um modelo econômico oposto, com base na liberdade de mercado e na rápida ascensão da classe média. Essa vivência diversa moldou sua perspectiva e, mais tarde, o motivou a questionar por que o capitalismo, especialmente no Ocidente, parece não ter alcançado os resultados esperados.
O Capitalismo e o Aumento da Desigualdade
Sharma identifica na desigualdade um dos principais sintomas dos problemas do capitalismo moderno. Segundo ele, o modelo atual concentra riquezas nas mãos de poucos, favorecendo indivíduos com acesso facilitado a financiamento, enquanto a maioria da população luta para progredir economicamente. Nos Estados Unidos, por exemplo, mais de 800 supermilionários possuem hoje uma riqueza coletiva superior a US$ 6 trilhões. Para Sharma, essa concentração extrema é resultado de um sistema distorcido, onde os ricos conseguem maximizar suas riquezas de forma mais fácil, sem contribuir diretamente para o aumento da produtividade econômica.
Produtividade em Queda e Empresas ‘Zumbis’
Outro ponto de crítica de Sharma é a queda na produtividade, fator que ele acredita ser diretamente ligado ao apoio governamental a “empresas zumbis”. Essas corporações, argumenta, conseguem sobreviver unicamente devido ao auxílio financeiro facilitado pelos bancos centrais, que mantêm taxas de juros baixas. Para Sharma, essas empresas não apenas impedem o crescimento econômico sustentável, mas também limitam o aumento de salários, prejudicando o bem-estar da sociedade. Em sua visão, a manutenção de empresas deficitárias distorce a competitividade, ao invés de permitir que o mercado selecione as organizações mais eficientes.
A Crise de 1920-1921: Lições Esquecidas
Na obra, Sharma resgata a recessão de 1920-1921 nos Estados Unidos como exemplo de uma abordagem capitalista de não-intervenção. Após a Primeira Guerra Mundial, a economia americana enfrentou uma crise severa, mas breve, causada pela combinação de alta inflação e aumento rápido da força de trabalho. Naquele período, o governo optou por não intervir com políticas monetárias expansivas, permitindo que as forças de mercado lidassem com os efeitos da recessão. Sharma defende que essa resposta, ao permitir a falência de empresas ineficazes, acelerou a recuperação econômica e abriu espaço para um crescimento vigoroso.
Contrapontos: A Intervenção Governamental em Tempos de Crise
Apesar das críticas de Sharma, muitos economistas argumentam que a intervenção governamental é essencial para evitar colapsos financeiros de grandes proporções. Ben Bernanke, ex-presidente do Federal Reserve, defende que o resgate do banco Bear Stearns, em 2008, foi necessário para impedir que a falência da instituição causasse danos irreparáveis ao sistema financeiro global. Da mesma forma, Alistair Darling, ex-ministro da Fazenda do Reino Unido, descreve a intervenção governamental durante a crise de 2008 como uma ação indispensável para preservar a estabilidade econômica.
A Era da ‘Cultura de Resgate’
Para Sharma, o problema central do capitalismo atual é a adoção de uma “cultura de resgate”. Até a década de 1970, os governos relutavam em intervir em crises do setor privado, permitindo que o mercado corrigisse suas próprias falhas. Contudo, nos últimos anos, a prática de resgates financeiros tornou-se comum, criando, segundo ele, uma dependência do setor privado em relação ao Estado e comprometendo o dinamismo econômico. Na crise da Covid-19, por exemplo, os governos e bancos centrais injetaram bilhões para evitar um colapso econômico, uma ação que Sharma considera excessiva e que, em sua análise, agravou a inflação global e aumentou a desigualdade.
O Futuro: Limites para a Intervenção
Ao final de seu livro, Sharma propõe que os governos estabeleçam limites claros para futuras intervenções, criando um roteiro de ação para o caso de crises financeiras. Ele sugere que, ao invés de recorrer automaticamente a resgates, as autoridades optem por estratégias que preservem os princípios do capitalismo de mercado, incentivando a produtividade e permitindo que empresas ineficazes sejam substituídas por organizações mais competitivas. Para ele, tal abordagem é essencial para restaurar a confiança no sistema capitalista e garantir que ele possa beneficiar a sociedade como um todo.
Principais dados abordados por Ruchir Sharma
Dados sobre Desigualdade
- Mais de 800 supermilionários nos EUA, com riqueza coletiva de cerca de US$ 6 trilhões.
- Concentração de riqueza resultante do acesso facilitado a financiamento, que Sharma considera desigual.
Produtividade e Empresas ‘Zumbis’
- Empresas deficitárias sustentadas por juros baixos, uma prática que Sharma afirma prejudicar a produtividade.
- A crítica ao apoio governamental a empresas de baixo desempenho, que, segundo ele, limita o aumento de salários.
Histórico e Alternativas de Intervenção
- Exemplo da recessão de 1920-1921, em que a não-intervenção permitiu uma recuperação rápida.
- Adoção, nos últimos anos, da “cultura de resgate”, que Sharma considera prejudicial ao capitalismo.
Contrapontos Econômicos
- Defesas de intervenções feitas por Ben Bernanke (Federal Reserve) e Alistair Darling (ex-ministro do Reino Unido).
- Argumento de que os resgates financeiros evitam colapsos econômicos de grande escala.
Propostas para o Futuro
- Sharma sugere que governos estabeleçam um roteiro de limites para intervenções futuras.
- Priorização de estratégias que incentivem a produtividade e reduzam a dependência de resgates financeiros.
*Com informações de Vivienne Nunis.








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