A Sutil Arte do Jogo GO | Por Zilan Costa e Silva

A história do poder nunca se escreveu apenas com exércitos ou tratados. Ela é feita também de elementos que não aparecem nos discursos, mas sustentam o mundo em silêncio — como os metais que não reluzem, mas magnetizam. As chamadas “terras raras” são esse tipo de matéria: discretas, obscuras, quase esquecidas, e, no entanto, essenciais a tudo que chamamos de moderno. Como nervos escondidos sob a pele tecnológica do século XXI, elas conduzem energia, controlam magnetismo, emitem luz e silenciam ruído. E, enquanto o Ocidente debate tarifas e alianças, a China joga um outro jogo — antigo, silencioso, e muito mais profundo.

Desde a virada do milênio, o Partido Comunista Chinês compreendeu algo que escapava às potências liberais: no mundo por vir, não basta ter poder militar ou financeiro. É preciso possuir os átomos do futuro. Entre eles, os 17 elementos químicos conhecidos como terras raras — neodímio, disprósio, térbio, lantânio, ítrio, praseodímio e seus irmãos — são a gramática invisível da tecnologia moderna. Sem eles, não há carros elétricos, turbinas eólicas, iPhones, lasers de precisão, satélites de comunicação, sensores quânticos ou caças F-35. São eles que dão corpo à utopia verde e nervo à dominação militar. E a China, com método e paciência, se fez senhora dessa linguagem material.

Essa estratégia, no entanto, não segue a lógica dos mercados ocidentais. Ela é mais bem compreendida à luz de um jogo ancestral chamado GO — o wéiqí chinês — nascido há mais de 2.500 anos. Diferente do xadrez, que busca a eliminação do inimigo e a decapitação do rei, o GO valoriza o controle do espaço, a paciência na formação de territórios e o encadeamento de jogadas cujos efeitos só se revelam muitas rodadas depois. É um jogo de influência sutil, onde perder uma peça pode significar ganhar o jogo. A China joga GO com as terras raras. E o Ocidente, ainda cego pelas regras do xadrez, segue movendo torres e bispos em um tabuleiro que já não existe.

A cadeia global das terras raras ilustra esse tabuleiro invisível. Enquanto outros países exploram, a China refina. Enquanto outros produzem minérios, ela transforma em valor. Ela não apenas extrai os metais; ela os processa, separa, purifica, transforma em ligas, e os insere nos dispositivos que definem o amanhã. A verticalização chinesa nesse setor é total. Das minas de Bayan Obo, nas estepes da Mongólia Interior, ao centro tecnológico de Shenzhen, cada passo é planejado, consolidado, protegido. O Ocidente, que outrora externalizou sua mineração por razões ambientais e econômicas, agora se vê dependente da mesma nação que, com mãos firmes, plantou suas pedras no canto do tabuleiro décadas atrás.

Refinar terras raras não é simples. Envolve processos químicos intensos, uso de solventes perigosos, produção de rejeitos tóxicos e radioativos. A China aceitou esse custo. Criou zonas de sacrifício ambiental e as tratou como parte do esforço nacional. Subsidiou empresas, consolidou mineradoras em seis conglomerados estatais, garantiu o domínio sobre as tecnologias de separação elementar — arte sutil que exige cem ciclos de purificação para separar átomos quase idênticos. Ao invés de comprar do mundo, construiu para dentro. Não terceirizou os riscos; assumiu-os como investimento de poder. Em linguagem de GO, ela cercou o território com movimentos lentos, envolventes e inevitáveis.

E agora, quando os Estados Unidos tentam reindustrializar sua cadeia de suprimentos, descobrem que possuem minas, mas não têm refino; têm demanda, mas não têm domínio. A mina de Mountain Pass, na Califórnia, uma das poucas fora da China, envia parte de seus concentrados para… a China. É como se o rei do xadrez tivesse de pedir licença ao adversário para mover seu próprio cavalo. A dependência se revela grotesca. E a resposta americana, como a europeia, tenta agora criar um GO em pleno meio-jogo — com pressa, fragmentação, contradições regulatórias e disputas privadas.

Enquanto isso, Pequim não apenas domina os materiais, mas define os fluxos. Desde 2023, passou a restringir exportações de elementos estratégicos, como o gálio e o germânio — essenciais para semicondutores e radares — exigindo licença especial para seus destinos. Em 2025, ampliou o controle sobre o disprósio e o térbio, componentes cruciais dos imãs usados em armamentos e veículos elétricos. As exportações não foram proibidas — apenas cercadas por um campo de forças regulatórias. Como no GO, não se mata a peça, isola-se o espaço ao redor até que ela asfixie.

A lógica chinesa não é puramente econômica, tampouco ideológica. Ela é civilizacional. O GO ensina que o domínio duradouro não se conquista pela força direta, mas pela ocupação invisível do essencial. É assim que a China trata suas reservas de terras raras: como reservas de soberania, vetores de autonomia, instrumentos de dissuasão e preponderância. Em um mundo que se digitaliza, eletrifica e militariza, o controle dos átomos estratégicos equivale ao domínio do ar em guerras anteriores. E quem controla a química do futuro, controla o próprio futuro.

O Brasil, por exemplo, possui jazidas promissoras — em Araxá, Morro do Ferro, Seis Lagos — mas carece de estrutura de refino, parque tecnológico associado, integração entre academia e indústria, e, sobretudo, visão estratégica. Sem essa verticalização, continuamos a vender o minério bruto e a importar o imã com valor multiplicado. Exportamos potencial, importamos dependência. E assistimos, do lado de fora do tabuleiro, à partida que já começou.

Não se trata de alarmismo, mas de lucidez. A guerra das tarifas é apenas a superfície de uma guerra mais profunda — a guerra dos materiais, das patentes, dos fluxos invisíveis que fazem funcionar os motores do mundo. A China entendeu isso primeiro. E jogou como manda o GO: cercou antes de atacar, construiu antes de reivindicar, garantiu o essencial antes de ostentar o poder.

O Ocidente pode tentar responder com pressa, mas o tempo, no GO, é parte da estratégia. Não basta reagir; é preciso enxergar o desenho do jogo inteiro. O que a China conquistou com suas terras raras não é apenas uma vantagem comercial, mas uma lição civilizacional: o domínio do invisível é mais duradouro que qualquer exibição de força.

Porque, no fim, não são as peças mais brilhantes que vencem o jogo. É quem entende o espaço, quem desenha com o vazio, quem antecipa os movimentos do adversário e ocupa, pedra após pedra, o centro silencioso do tabuleiro. E as terras raras — opacas, discretas, vitais — são as pedras perfeitas desse jogo que molda, em silêncio, os contornos do século XXI.

*Zilan Costa e Silva, advogado e professor.


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