Feira de Santana, segunda cidade mais populosa da Bahia e detentora da terceira maior economia do estado, é historicamente reconhecida como um entreposto comercial e logístico de relevância regional. No entanto, a recente declaração do vereador Silvio Dias (PT), ao afirmar que o município “não é atrativo para empresas”, reacende um debate necessário sobre a efetividade das políticas de desenvolvimento industrial, tanto em âmbito estadual quanto municipal, e sobre a real competitividade de Feira de Santana na consolidação e expansão de sua posição como centro produtivo estratégico da Bahia.
A discussão ocorreu nesta quarta-feira (14/05/2025) com o vereador José Carneiro Rocha (União Brasil), líder do Governo Municipal na Câmara de Feira de Santana, o vereador Silvio Dias rebateu as críticas ao Governo do Estado, dirigidas ao secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Ângelo Almeida, e atribuiu à gestão municipal a responsabilidade pela suposta perda de competitividade industrial do município.
Segundo Silvio Dias, a escolha para empresário implantarem industrias em cidades vizinhas, como Conceição do Jacuípe, Santo Estêvão e Camaçari, seria consequência direta de deficiências estruturais locais, especialmente nas áreas de saúde pública, educação e transporte coletivo. De acordo com o parlamentar, essas falhas comprometem a capacidade do município de atrair novos investimentos produtivos, tornando-o menos competitivo em comparação com outros centros regionais.
Embora seja legítima a cobrança por melhorias na infraestrutura urbana e nos serviços públicos, a afirmação de que Feira de Santana “não é atrativa para empresas” ignora uma série de características estruturais e vantagens comparativas da cidade, que a colocam entre os principais polos logísticos, comerciais e industriais da Bahia e do Nordeste.
Potencial industrial e logístico de Feira de Santana
A análise do potencial de Feira de Santana como destino industrial exige uma visão sistêmica de suas condições geográficas, econômicas, logísticas e educacionais. Abaixo, são apresentados os fatores objetivos que reforçam sua atratividade para o setor produtivo:
1. Porte demográfico e mercado consumidor
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Feira de Santana possui população estimada em cerca de 620 mil habitantes (IBGE 2024), o que a coloca entre os 35 maiores municípios do Brasil.
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Essa densidade populacional representa um mercado consumidor interno robusto, além de força de trabalho em diversos níveis de qualificação.
2. Infraestrutura logística estratégica
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Localizada a cerca de 100 km da capital Salvador, é considerada o principal entroncamento rodoviário do Norte-Nordeste, com interligação por BR-101, BR-116, BR-324, e BA-052.
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Conta com aeroporto regional, com potencial de expansão, além da proximidade com o Aeroporto Internacional de Salvador, no raio de 1h30 por rodovia duplicada.
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Integra o traçado da ferrovia Centro-Atlântica (FCA), com ligação ferroviária para exportação via o Porto de Aratu e o futuro Porto Sul, em Ilhéus.
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Possui centros atacadistas de alimentos, como CEAF e CEASA, e grande estrutura de galpões logísticos, sendo um dos maiores entrepostos de distribuição de alimentos industrializados do Brasil.
3. Base industrial consolidada
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Feira abriga diversos distritos industriais, com empresas nos setores de alimentos, metalurgia, têxtil, calçados, embalagens e construção civil.
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Há presença de indústrias de porte nacional e multinacional, como Nestlé, Belgo, Brasfrut e outras.
4. Sistema educacional técnico e superior
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A cidade é sede da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e de um campus da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), além de faculdades privadas como UneX, Unifacs, Estácio, FAN e UNEF, dentre outras.
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Oferece cursos nas áreas de engenharia, tecnologia, saúde, administração e logística, o que contribui para formação técnica e científica da mão de obra local.
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Feira de Santana também possui unidades do Sistema S completas, como SENAI, SENAC, SEST/SENAT e SESI, que oferecem formação técnica, capacitação profissional e programas de aperfeiçoamento em áreas industriais, comerciais e de serviços.
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Além disso, abriga instituições especializadas em formação técnica de nível médio e profissionalizante, garantindo oferta contínua de mão de obra qualificada, com alinhamento às demandas do setor produtivo regional.
5. Vocação econômica e tradição comercial
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Feira de Santana é historicamente um polo de comércio atacadista e varejista, com feiras, mercados, centros comerciais e redes de distribuição consolidadas, sendo referência para mais de 100 municípios do entorno.
Comparação com cidades citadas
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Camaçari, apesar de se destacar como polo petroquímico, depende de incentivos estaduais específicos e da presença da Ford (até 2021) e do Polo Industrial de Camaçari.
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Conceição do Jacuípe e Santo Estêvão têm recebido empresas de menor porte, sobretudo em virtude de incentivos fiscais municipais, menores custos de terrenos e mão de obra mais barata. No entanto, carecem da infraestrutura urbana, da base universitária, da força de trabalho qualificada e da malha logística integrada de Feira de Santana.
Secretário comenta
Para analistas e representantes do setor público, a crítica à gestão municipal tem sido interpretada como uma tentativa de justificar a ausência de ações efetivas do Governo do Estado na promoção de novos empreendimentos industriais no município. A migração de investimentos para cidades vizinhas — como Conceição do Jacuípe, Santo Estêvão e Camaçari — revela, sobretudo, uma fragilidade de articulação estadual, e não necessariamente uma falência estrutural da cidade.
Nesse contexto, o secretário municipal de Planejamento, Carlos Alberto Brito, rebateu com veemência as declarações do parlamentar:
“Ao desconsiderar os dados que comprovam a força de Feira de Santana, o vereador não apenas ignora os avanços e potencialidades do município, como também contribui para enfraquecer sua imagem perante a opinião pública e o empresariado. É legítimo apontar problemas — que existem — mas é inaceitável desmerecer o que foi conquistado com esforço coletivo. Feira de Santana merece respeito e liderança à altura da sua importância.”
Vereador desconsidera a complexidade
A declaração do vereador Silvio Dias desconsidera a complexidade e a robustez da estrutura econômica de Feira de Santana, que segue como um dos principais vetores de desenvolvimento industrial da Bahia, mesmo diante de carências pontuais nos serviços públicos municipais. A crítica à gestão local tem sido interpretada como uma justificativa frágil para o fato de o Governo do Estado não direcionar esforços concretos para ampliar o número de indústrias instaladas no município.
Reconhece-se a necessidade de modernização do sistema de transporte coletivo, bem como maiores investimentos em saúde pública e gestão urbana, entretanto, tais desafios não anulam as vantagens estruturais, formativas e geoeconômicas que conferem a Feira de Santana uma posição estratégica no cenário produtivo baiano.
A atratividade industrial não depende exclusivamente da administração municipal, mas de um conjunto de fatores macroeconômicos, logísticos, formativos e institucionais que, no caso de Feira, ainda a posicionam como um centro estratégico para investimentos produtivos.











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