Domingo, 22/06/2025 — Um estudo publicado na revista Reviews in Fish Biology and Fisheries revelou indícios de declínio nas populações de peixes-papagaio no litoral brasileiro, com destaque para o papel dos pescadores artesanais na geração de dados e na preservação das espécies. A pesquisa, desenvolvida por cientistas vinculados ao Projeto Budiões, utilizou o conhecimento ecológico local (CEL) para traçar um panorama histórico da pesca dessas espécies, com base em 200 entrevistas realizadas em 14 comunidades costeiras do Nordeste.
Mudanças na pesca e declínio das espécies
A pesquisa identificou, a partir dos relatos dos pescadores, reduções significativas na quantidade e no tamanho dos peixes capturados, especialmente nas espécies endêmicas Sparisoma axillare, Sparisoma frondosum e Scarus trispinosus. Apesar de adaptações nas estratégias de pesca — como o deslocamento para áreas mais profundas e o aumento do esforço de captura — os dados indicam tendência de escassez.
“Esses peixes desempenham um papel crucial na manutenção dos recifes, ao controlar o crescimento de algas e favorecer a colonização por outros organismos,” explicou a pesquisadora Dra. Luísa Queiroz Véras, da Universidade Federal de Pernambuco. “O que observamos é uma tendência de declínio que demanda atenção e ação coordenada.”
Espécies ameaçadas e desafios na conservação
O Scarus trispinosus, conhecido como budião-azul, está listado desde 2012 na Lista Vermelha da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza). Outras espécies, como Sparisoma axillare, Sp. zelindae e Sp. frondosum, são consideradas vulneráveis pelo Ministério do Meio Ambiente.
A fiscalização insuficiente e a fragilidade das regulamentações ainda dificultam a recuperação populacional dessas espécies. A expansão da pesca com armadilhas, relatada nas entrevistas, representa outro fator crítico, ao permitir o acesso a áreas mais profundas e mascarar a percepção do declínio.
Contribuições do Projeto Budiões e recomendações
O estudo integra o Projeto Budiões, iniciativa voltada à conservação dos peixes-papagaio e dos recifes de coral brasileiros, com apoio do Programa Petrobras Socioambiental. A abordagem baseia-se na integração entre comunidades pesqueiras, cientistas e gestores públicos, buscando alternativas sustentáveis e estratégias adaptadas às realidades locais.
“Este é o primeiro levantamento nacional baseado no conhecimento histórico dos pescadores sobre a pesca dos peixes-papagaio”, afirmou o coautor Dr. João Feitosa. “Esse tipo de dado é fundamental para subsidiar políticas públicas de manejo participativo e eficiente.”
Entre as recomendações da pesquisa, destacam-se:
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Fortalecimento do monitoramento das capturas;
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Melhoria na rotulagem e rastreabilidade do pescado destinado à exportação;
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Elaboração de planos locais de conservação, com a participação direta das comunidades;
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Apoio à implementação do novo plano de ação federal para a conservação dos peixes-papagaio, atualmente em fase de formulação.
Papel estratégico do conhecimento tradicional
A valorização do conhecimento tradicional dos pescadores reforça o potencial do conhecimento ecológico local como ferramenta de diagnóstico ambiental, especialmente em contextos de escassez de dados científicos sistemáticos. A pesquisa evidencia a importância de envolver as comunidades costeiras nas decisões sobre conservação e uso sustentável dos recursos marinhos.









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