Domingo, 03/08/2025 – O sul da Bahia vivencia um processo de transformação da cadeia produtiva do cacau, impulsionado por uma nova geração de empreendedores que investe em cacau fino, com foco na rastreabilidade, produção artesanal bean-to-bar e integração com o turismo rural. Após décadas de retração provocadas pela praga da vassoura-de-bruxa, produtores apostam na valorização da qualidade, na diversificação de produtos e na sustentabilidade como estratégia de permanência e expansão no mercado nacional e internacional.
Histórico da produção e contexto de crise
A região, que já figurou entre as maiores exportadoras mundiais de cacau, foi severamente afetada pela disseminação da vassoura-de-bruxa no final da década de 1980, levando a uma profunda crise econômica e produtiva. O Brasil, que ocupa hoje a sexta posição na produção global, viu sua participação encolher enquanto Costa do Marfim e Gana assumiram a liderança mundial.
A partir dos anos 2000, produtores começaram a identificar o potencial de diferenciação por meio da qualidade das amêndoas, mas os preços internacionais da commodity, então relativamente baixos, não refletiam esse valor agregado. O cenário se modificou com a alta histórica nas cotações da bolsa de Nova York, que saltaram de US$ 2.300 por tonelada no final de 2022 para picos de até US$ 12.600 em 2024, estabelecendo nova margem para a comercialização do cacau fino.
Transição para o cacau fino e produção artesanal
A nova geração de produtores passou a investir em técnicas de fermentação controlada, certificações orgânicas, identidade genética das amêndoas e processos rastreáveis, com foco em chocolates artesanais com origem reconhecida. A produção deixou de ser destinada exclusivamente a multinacionais como Cargill, Nestlé e Barry Callebaut, ganhando protagonismo em marcas locais.
Marcela Tavares Monteiro, fundadora da marca Cacau do Céu, exemplifica esse movimento. Com fábricas em Ilhéus e Santa Rita do Sapucaí (MG), a empresa produz até 2 toneladas mensais de chocolate. A matéria-prima é oriunda da própria fazenda e da Fazenda Leolinda, de João Tavares, produtor que aposta em variedade genética, fermentação artesanal e práticas sustentáveis. Cerca de 70% da sua produção é considerada cacau fino.
Modelos de produção: do tree-to-bar ao turismo rural
A marca Modaka, da produtora Patrícia Viana Lima, localizada em Barro Preto (BA), adota o modelo tree-to-bar, em que todo o processo, da lavoura à barra, ocorre na mesma propriedade. A produção é 100% orgânica e certificada, com processamento médio de 1,5 tonelada por ano. A empresa opera com sistema de parceria agrícola (meieiros) e recebe apoio institucional de entidades como o Sebrae e a FIEB.
Já a Fazenda Riachuelo, base da marca Mendoá Chocolates, produz cacau em sistema agroflorestal cabruca e mantém uma fábrica própria com potencial de até 3 toneladas/mês, atualmente operando com 1 tonelada mensal. Com foco em sustentabilidade, a unidade também reaproveita subprodutos como a sibira e a casca para ração e adubo, além de manter uma escola para filhos de trabalhadores dentro da propriedade.
Em Itacaré, a Fazenda Vila Rosa, comandada pelo americano Alan Slesinger, destaca-se pela integração entre cultura, arquitetura e produção de cacau. O espaço atrai milhares de turistas anualmente, com tours que custam R$ 100 por pessoa e incluem todas as etapas do ciclo produtivo. A receita da fazenda provém majoritariamente do turismo rural, complementada pela venda de chocolates finos.
Desafios e perspectivas
Apesar dos avanços, os produtores enfrentam desafios estruturais: sucessão familiar, instabilidades climáticas, doenças como monilíase e podridão parda, escassez de mão de obra e limitações logísticas. Muitos filhos e netos de cacauicultores, marcados pela crise passada, optaram por se afastar da lavoura.
A nova geração, no entanto, começa a retornar, impulsionada pelo crescimento do mercado de chocolates artesanais e pela valorização do produto com identidade regional e sustentabilidade. O modelo de produção familiar, associado ao uso de tecnologias digitais, tende a consolidar a retomada da cacauicultura baiana com valor agregado, diversificação produtiva e visibilidade internacional.
*Com informações da Bloomberg Línea.








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