A crise da Ordem Internacional Liberal, antes celebrada como o alicerce da paz e da cooperação entre nações desde o pós-guerra, tornou-se agora objeto de crescente ceticismo. Em artigo publicado no dia segunda-feira, 28/07/2025 na revista Foreign Affairs, intitulado “Liberalism Condemned the Liberal Order”, os renomados cientistas políticos Stacie E. Goddard, Ronald R. Krebs, Christian Kreuder-Sonnen e Berthold Rittberger argumentam que o esgotamento dessa ordem não se deve exclusivamente a atores revisionistas ou a lideranças populistas, mas sim à sua fundamentação liberal excessivamente legalista e universalista, que sufocou a política e impôs modelos uniformes a realidades diversas.
Stacie E. Goddard, Ronald R. Krebs, Christian Kreuder-Sonnen e Berthold Rittberger são quatro dos principais pensadores contemporâneos sobre relações internacionais e ordem global. Com formações acadêmicas robustas e obras premiadas, propõem a substituição da ordem internacional liberal por uma nova estrutura baseada no pluralismo político, pragmatismo institucional e reconexão democrática entre cidadãos e instituições globais. Confira, a seguir, os principais aspectos da formulação teórica.
Raízes estruturais do declínio: o liberalismo como armadilha
Para os autores, a ordem internacional liberal fracassou por ser vítima de seus próprios pressupostos. Criada no período pós-Segunda Guerra Mundial, sob liderança americana, ela se baseava na crença de que instituições multilaterais, normas universais e o Estado de Direito promoveriam a prosperidade e conteriam os abusos de poder. O sistema, no entanto, tornou-se rígido e inflexível, impedindo reformas e alimentando o ressentimento de países periféricos e populações marginalizadas.
“A consequência inesperada foi uma ordem rígida e insensível, que apenas encorajou as forças que clamavam por sua ruína”, escrevem os autores.
O paradoxo da legitimidade universal transformou-se, com o tempo, em instrumento de exclusão do dissenso, em vez de espaço para sua canalização construtiva.
O peso da hipocrisia e o excesso de normas
Segundo a análise, a ordem internacional errou ao confundir legitimidade com legalismo. Na tentativa de corrigir injustiças, os formuladores das instituições multilaterais optaram por aumentar a densidade normativa e a autoridade de tribunais internacionais, em vez de abrir espaço para debates políticos. O resultado foi a perda de flexibilidade institucional e o aumento do fosso entre os centros decisórios internacionais e as realidades nacionais.
Essa rigidez levou à criação de uma tecnocracia supranacional, cujas decisões passaram a ser vistas como arbitrárias ou desconectadas dos cidadãos. Os autores destacam que isso minou a confiança em fóruns como a Organização Mundial do Comércio (OMC), o Tribunal Penal Internacional (TPI) e o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), que deixaram de ser percebidos como imparciais e se tornaram alvo de acusações de viés estrutural.
Repressão ao dissenso: o caso do Sul global
A reação das potências centrais às demandas do Sul global também é duramente criticada no artigo. Propostas como a Nova Ordem Econômica Internacional, defendida na década de 1970 por países em desenvolvimento, foram rechaçadas ou desqualificadas com base em argumentos tecnocráticos e moralistas. Críticos das regras comerciais da OMC, por exemplo, foram chamados de “bárbaros intelectuais” ou acusados de não compreenderem os “princípios básicos da economia”.
“Se todos os indivíduos racionais e morais quisessem o que a ordem oferecia, então os críticos eram irracionais ou imorais”, observam os autores.
Esse padrão de deslegitimação resultou em um sistema incapaz de se reformar por dentro, e que empurrou as divergências para fora do campo institucional, incentivando rupturas e boicotes.
A despolitização da ordem internacional e seus riscos
Ao buscar eliminar as ambiguidades e politizar cada vez menos os processos decisórios, a ordem liberal tornou-se antipolítica por excelência. Essa obsessão pela neutralidade e pela tecnocracia corroeu sua legitimidade democrática. A política, enfatizam os autores, é uma fonte indispensável de legitimidade, pois conecta decisões às demandas reais da sociedade.
Sem essa ancoragem, instituições internacionais passaram a ser vistas como opacas, elitistas e distantes, fomentando o avanço do nacionalismo e da desconfiança em relação à cooperação multilateral.
Casos emblemáticos: comércio, energia nuclear e direitos humanos
O artigo ressalta que a multiplicação de regras detalhadas em setores como o comércio internacional e a energia nuclear não produziu maior equidade, mas sim tornou mais visível a hipocrisia das potências dominantes. O não desarmamento nuclear pelas potências do TNP, por exemplo, levou países como a Índia a denunciarem o “apartheid nuclear”, ao passo que práticas protecionistas dos EUA e da União Europeia minaram a legitimidade do sistema comercial multilateral.
“Dúvidas sobre a legitimidade da ordem comercial deram origem a desafios existenciais cada vez maiores”, destacam os autores.
Movimentos como o protesto em Seattle contra a OMC, em 1999, e a criação do Tratado de Proibição de Armas Nucleares em 2017, são apontados como respostas políticas à inflexibilidade institucional e à ausência de canais legítimos de contestação.
Caminhos para uma nova ordem global: pragmatismo, pluralismo e política
Os autores propõem uma mudança radical de paradigma. Para que a cooperação global sobreviva em um mundo multipolar e em constante transformação, é necessário abandonar o ideal liberal universalista e adotar uma abordagem pragmática, pluralista e política.
As diretrizes dessa nova ordem incluem:
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Foco em ameaças comuns: como segurança nuclear, mudanças climáticas e pandemias;
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Reforço das instituições regionais: com maior protagonismo na construção de acordos e aplicação de normas;
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Descentralização decisória: respeitando o papel dos parlamentos e das políticas nacionais;
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Valorização da ambiguidade construtiva: permitindo que diferentes modelos convivam dentro de uma moldura comum de cooperação.
Pluralismo como base de legitimidade e equilíbrio
O pluralismo não significa abrir mão dos valores liberais, mas reconhece que há diferentes formas legítimas de organizar a vida política e social. Ao contrário da imposição de modelos únicos, a nova ordem deveria respeitar as escolhas locais e favorecer fóruns regionais de negociação, como a União Africana, a ASEAN ou o Mercosul, que podem servir como laboratórios para a construção de compromissos mais sustentáveis.
Além disso, o pluralismo contribuiria para o equilíbrio de poder, permitindo que pequenos Estados articulem interesses coletivos e limitem a influência desproporcional das grandes potências.
Política, não tecnocracia: o retorno da deliberação pública
O artigo conclui com uma defesa firme da repolitização da ordem internacional. Instituições multilaterais devem ser permeáveis ao debate democrático e reconectadas à política doméstica. Governos nacionais devem se responsabilizar pelas metas internacionais assumidas, persuadindo suas populações, e não transferindo o ônus para órgãos técnicos ou judiciais.
“Os acordos internacionais são duráveis na medida em que são respaldados — não protegidos — pelas políticas nacionais”, enfatizam.
Para os autores, a nova ordem só poderá florescer se os Estados renunciarem à intervenção coercitiva em nome de ideais liberais e apostarem em ferramentas como persuasão, negociação diplomática e manifestação pública.
Um novo paradigma para o sistema internacional
O artigo assinado por Goddard, Krebs, Kreuder-Sonnen e Rittberger rompe com o idealismo liberal tradicional, ao propor que a legitimidade internacional deve emergir da negociação política entre diferentes valores, não da imposição de normas universais.
As propostas dos autores se ancoram em suas trajetórias intelectuais: Goddard com foco na linguagem e legitimidade, Krebs nas narrativas e segurança, Kreuder-Sonnen na autoridade de emergência e Rittberger na integração institucional. Juntos, eles defendem que o futuro da ordem mundial exige um modelo mais flexível, plural e enraizado na política real, e não apenas em princípios abstratos.
Intelectuais da ordem internacional: quem são os autores da proposta de reconstrução do sistema global liberal
A proposta de substituição da ordem internacional liberal por um modelo mais pluralista e pragmático, apresentada no artigo “Liberalism Condemned the Liberal Order”, publicado na revista Foreign Affairs, ganha destaque internacional ao propor uma inflexão teórica e institucional de largo alcance. Os autores da tese — Stacie E. Goddard, Ronald R. Krebs, Christian Kreuder-Sonnen e Berthold Rittberger — são acadêmicos de prestígio global, com trajetórias consolidadas em universidades de ponta e produções científicas que influenciam o debate geopolítico contemporâneo.
A seguir, conheça o perfil detalhado de cada um dos pesquisadores, suas principais obras, áreas de atuação e as teses que os tornaram expoentes do pensamento político internacional.
Stacie E. Goddard: legitimidade, ascensão de potências e a linguagem do poder
Professora titular e Decana Associada de Relações Internacionais no Wellesley College (EUA), Stacie E. Goddard é uma das mais respeitadas especialistas em teoria das relações internacionais. Ocupa a cátedra Betty Freyhof Johnson ’44 e dirige o programa Wellesley in the World, voltado à conexão entre pensamento acadêmico e formulação de políticas externas.
Seus estudos concentram-se em temas como construção de legitimidade, disputas territoriais, retórica estratégica e o papel da linguagem na ascensão de grandes potências.
Entre suas principais obras estão:
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“When Right Makes Might: Rising Powers and World Order” (Cornell University Press, 2018) — onde analisa como potências emergentes tentam legitimar suas ações no sistema internacional;
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“Indivisible Territory and the Politics of Legitimacy” (Cambridge University Press, 2010) — sobre como os Estados constroem argumentos para reivindicar territórios considerados indivisíveis.
Goddard argumenta que os conflitos não são apenas estruturais, mas resultam de disputas simbólicas e narrativas, especialmente em contextos de mudança na distribuição de poder. Sua obra contribui diretamente para a crítica ao liberalismo universalista, ao destacar a importância da controvérsia política legítima como elemento de estabilidade.
Ronald R. Krebs: narrativa e segurança nacional na política externa dos EUA
Professor na Universidade de Minnesota, onde ocupa a prestigiosa cadeira McKnight Distinguished University Professor, Ronald R. Krebs é reconhecido por seu trabalho sobre segurança internacional, identidade nacional e narrativas estratégicas.
Seu livro mais influente, “Narrative and the Making of U.S. National Security” (Cambridge University Press, 2015), recebeu o Robert L. Jervis & Paul W. Schroeder Award da American Political Science Association. Na obra, Krebs demonstra como as narrativas políticas moldam as escolhas de segurança dos Estados Unidos, muitas vezes mais do que ameaças objetivas.
Outros trabalhos notáveis incluem:
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“Fighting for Rights: Military Service and the Politics of Citizenship” (Cornell, 2006), onde examina a relação entre serviço militar e pertencimento político nas democracias liberais;
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Coedição de “Contestation in a World of Liberal Orders” (Cambridge, 2021), obra que serviu como base conceitual para o artigo na Foreign Affairs.
Krebs defende que o discurso político é parte constitutiva da ordem mundial, e que instituições globais falham quando perdem contato com as narrativas nacionais que lhes conferem legitimidade.
Christian Kreuder-Sonnen: emergência, tecnocracia e autoridade excepcional
Pesquisador alemão formado pela Universidade de Bremen, Christian Kreuder-Sonnen é professor de Ciência Política na Friedrich-Schiller-Universität Jena. Destaca-se por suas contribuições ao estudo das autoridades excepcionais em organizações internacionais e das tensões entre legalidade e poder de emergência.
Sua principal obra, “Emergency Powers of International Organizations: Between Normalization and Containment” (Oxford University Press, 2019), recebeu o Chadwick F. Alger Prize da International Studies Association por sua originalidade e profundidade.
Kreuder-Sonnen analisa como organizações internacionais assumem poderes excepcionais durante crises, mas frequentemente normalizam essas prerrogativas mesmo após o fim das emergências. Ele sustenta que o procedimentalismo liberal cria paradoxos, pois ao buscar proteger o sistema da arbitrariedade, acaba institucionalizando práticas que escapam à accountability democrática.
Essa perspectiva fundamenta sua crítica ao modelo legalista da ordem liberal, reforçando a necessidade de uma governança mais política e menos normativamente blindada.
Berthold Rittberger: integração europeia e accountability em regimes multilaterais
Professor titular de Relações Internacionais no Geschwister-Scholl-Institut da Universidade de Munique (LMU), Berthold Rittberger é um dos principais nomes da ciência política europeia. Formado pela Universidade de Oxford, onde concluiu o doutorado (DPhil), tornou-se referência nos estudos sobre instituições supranacionais, legitimidade democrática e integração política da União Europeia.
Entre seus trabalhos mais significativos estão:
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“Building Europe’s Parliament: Democratic Representation beyond the Nation-State” (Oxford University Press, 2005), onde defende que a construção de legitimidade no nível europeu requer formas específicas de representação democrática;
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Artigos influentes sobre accountability, representatividade e eficácia institucional em estruturas multilaterais, com foco nas agências reguladoras da União Europeia.
Rittberger sustenta que a legitimidade das instituições internacionais não pode depender apenas de resultados técnicos ou eficiência regulatória. É preciso restabelecer vínculos entre representantes e representados, inclusive no plano transnacional, onde o risco de alienação política é maior.
Sua atuação teórica contribui para o modelo de ordem plural proposto na Foreign Affairs, ao defender a importância das instituições intermediárias regionais e da participação democrática multiescalar.
Linha do Tempo da Ordem Internacional Liberal (1945–2025)
1945 – Fim da Segunda Guerra Mundial
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Criação da Organização das Nações Unidas (ONU), com o objetivo de preservar a paz e promover a cooperação entre os Estados.
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Início da concepção da ordem internacional liberal, sob hegemonia dos EUA e valores ocidentais.
1947 – Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT)
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Estabelece um regime internacional baseado na redução de tarifas e promoção do comércio livre, com margem para ambiguidade e soberania nacional.
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Antecede a criação da OMC e marca o início da liberalização econômica multilateral.
1949 – Fundação da OTAN
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Estabelecimento da Organização do Tratado do Atlântico Norte, para defesa mútua frente à ameaça soviética.
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Incorpora a lógica de segurança coletiva com base em alianças liberais.
1948 – Declaração Universal dos Direitos Humanos
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Aprovada pela ONU com linguagem deliberadamente ambígua, para permitir consensos amplos.
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Defende direitos universais, mas sem obrigatoriedade de aplicação vinculativa imediata.
1968 – Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP)
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Estabelece regime de contenção da proliferação de armas nucleares, distinguindo entre “possuidores” e “não-possuidores”.
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Assinado com cláusulas ambíguas para garantir adesão ampla.
1970–1975 – Propostas do Terceiro Mundo por uma Nova Ordem Econômica Internacional
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Países em desenvolvimento demandam maior acesso a mercados, transferência de tecnologia e reformas nas regras comerciais globais.
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Iniciativas rechaçadas ou esvaziadas pelas potências centrais.
1991 – Fim da Guerra Fria
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EUA emergem como hiperpotência e intensificam a promoção da ordem liberal global.
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Avanço de reformas estruturais liberais no Leste Europeu e no Sul global.
1994 – Criação da Organização Mundial do Comércio (OMC)
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Substitui o GATT e consolida regime comercial mais técnico, vinculativo e legalista, com tribunais próprios.
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Reduz margem para exceções nacionais e aumenta a rigidez normativa.
1995 – Prorrogação por tempo indeterminado do TNP
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Potências nucleares mantêm seus arsenais, contrariando expectativa de desarmamento.
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Reforça acusações de “apartheid nuclear” por países como a Índia.
1998 – Índia denuncia regime nuclear como injusto
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O ministro indiano Jaswant Singh declara que o sistema global de não proliferação representa um “apartheid nuclear”.
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Tensão crescente entre legalidade internacional e percepções de injustiça.
1999 – Protestos em Seattle contra a OMC
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Manifestantes acusam o sistema de elitismo, hipocrisia comercial e concentração de poder corporativo.
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Marca o início da mobilização global contra o neoliberalismo institucionalizado.
2001–2010 – Crescimento das disputas no seio da OMC
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Países do Sul global contestam as regras de propriedade intelectual, subsídios agrícolas e outras normas.
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O regime entra em crise de eficácia e legitimidade.
2017 – Adoção do Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares
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Aprovado por ampla maioria dos membros da ONU, sem adesão das potências nucleares.
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Representa um rompimento simbólico com o regime tradicional do TNP.
2020 (realizada em 2022) – Conferência de Revisão do TNP fracassa
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Tentativas de atualização do tratado fracassam por divergências sobre Ucrânia, Israel e o Tratado de Proibição.
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Reforça o esgotamento do modelo liberal universalista.
2025 – Artigo da Foreign Affairs propõe nova ordem pluralista
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Stacie E. Goddard, Ronald R. Krebs, Christian Kreuder-Sonnen e Berthold Rittberger defendem substituição da ordem liberal por uma nova estrutura baseada no pluralismo, pragmatismo e deliberação política, que valorize a flexibilidade e a regionalização.









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