Em 2011, o escritor e jornalista moçambicano Mia Couto, laureado com o Prêmio Camões e o Prêmio Neustadt, fez um dos discursos mais emblemáticos de sua carreira: “Murar o Medo”, na Conferência do Estoril. Sua reflexão, marcada por lirismo e crítica política, denunciou o uso sistemático do medo como ferramenta de dominação global, conectando questões de desigualdade, vigilância e guerra. Mais de uma década depois, o texto continua atual, sobretudo quando lido à luz de uma análise crítica de inspiração marxista.
O medo como engrenagem do poder
Couto alertou que o medo é fabricado como produto social e político, servindo para justificar políticas de segurança, produção de armamentos e restrições de liberdades. A narrativa da ameaça constante — seja do “inimigo político”, do “terrorista” ou da “crise climática” — estrutura uma lógica de aceitação coletiva da vigilância e do autoritarismo.
Essa construção corresponde, em termos marxistas, à função ideológica do Estado e de suas instituições: naturalizar relações de exploração e desigualdade. O medo atua, portanto, como cimento ideológico, garantindo a reprodução das condições materiais que favorecem as classes dominantes.
A fome como arma invisível
Ao definir a fome como a maior arma de destruição em massa, Mia Couto expôs a contradição fundamental do capitalismo global: a abundância de recursos convive com a privação sistemática das maiorias populares. Enquanto bilhões são destinados à produção bélica, o custo para erradicar a fome é relativamente pequeno.
Sob uma leitura marxista, essa denúncia vai além da metáfora. A fome é expressão concreta da acumulação desigual do capital, em que o excedente produzido é apropriado por uma minoria e negado à maioria trabalhadora. Trata-se da violência estrutural de um sistema que privilegia a lógica do lucro sobre as necessidades humanas.
A referência a Eduardo Galeano
Para aprofundar sua reflexão, Mia Couto recorre a Eduardo Galeano, citando um trecho de “De Pernas pro Ar: A Escola do Mundo ao Avesso”. O escritor uruguaio descreve a disseminação do medo em diferentes esferas da vida cotidiana, revelando como ele se infiltra de maneira sistêmica:
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Trabalhadores temem perder o emprego.
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Desempregados têm medo de nunca conseguir trabalho.
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Famintos oscilam entre o medo da fome e o medo da comida.
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Civis vivem sob o receio dos militares.
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Militares temem a falta de armas.
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As armas, em paradoxo cruel, temem a ausência de guerras.
A síntese de Galeano, retomada e ampliada por Couto, demonstra que o medo funciona como motor social, regulando comportamentos e sustentando estruturas de poder. Ele não apenas condiciona relações de trabalho, segurança e política, mas também se institucionaliza como elemento estruturante da modernidade, naturalizando desigualdades e restringindo liberdades.
Sob uma leitura crítica, é possível identificar nesse processo uma dinâmica de alienação, que impede a construção de solidariedade coletiva e fragiliza formas de resistência organizada. Na chave marxista, o medo cumpre um papel estratégico: divide a classe trabalhadora, fragmenta a consciência social e consolida a hegemonia cultural e política das elites, que se perpetuam ao manipular inseguranças reais e imaginárias.
Medo, ideologia e o capitalismo global
O discurso de Couto também dialoga com os conceitos de indústria cultural e fetichismo da mercadoria. A fabricação de ameaças — sejam elas terroristas, migratórias ou sanitárias — gera um mercado de segurança, de informação e de consumo baseado no medo. A cultura e os meios de comunicação desempenham papel central nesse processo, reproduzindo a ideia de que mais vigilância e mais repressão equivalem a mais proteção.
A lógica é a mesma que move o capitalismo: a produção incessante de necessidades artificiais e a transformação do medo em mercadoria. O resultado é a manutenção de um ciclo de insegurança que legitima tanto a militarização da vida social quanto a expansão da indústria armamentista.
O discurso e sua atualidade
Mais de uma década depois, “Murar o Medo” permanece pertinente. Questões como a vigilância digital, a crise climática, a pandemia de Covid-19 e o recrudescimento de conflitos geopolíticos evidenciam como a lógica do medo segue instrumentalizada para ampliar o controle estatal e fortalecer corporações transnacionais.
Sob o ponto de vista marxista, trata-se da expressão de um capitalismo em crise estrutural, que encontra no medo — seja da inflação, da guerra ou do colapso ambiental — um instrumento de legitimação. O medo funciona como superestrutura ideológica que encobre as contradições da base econômica.
Poética e política como denúncia
A originalidade de Mia Couto está em combinar a linguagem poética com a crítica política e social. Sua narrativa vai além da análise racional, evocando imagens que desvelam as contradições de uma sociedade que transforma a fome e o medo em armas de controle.
Contudo, se lido a partir de uma crítica marxista, percebe-se também um limite: Couto aponta os sintomas, mas não oferece um horizonte de superação coletiva. A análise estrutural exige pensar no papel da luta de classes, da organização política e da transformação radical do sistema que se sustenta pela produção do medo.
Capital transforma vidas em mercadoria e medo em poder
A força do discurso de Mia Couto reside na rara capacidade de articular linguagem poética e crítica política, revelando como o medo é instrumentalizado como ferramenta de dominação. Sua denúncia de que a fome constitui uma arma global continua atual em um mundo onde milhões permanecem submetidos à insegurança alimentar. O autor aponta a perversidade de um sistema que naturaliza a privação em meio à abundância, convertendo a miséria em consequência “inevitável” da ordem vigente.
O texto, entretanto, ultrapassa a denúncia da fome: é também um alerta contra a banalização do medo, transformado em moeda política para legitimar vigilância, repressão e restrições de liberdade. Essa lógica de controle, alicerçada na fabricação de ameaças, revela um mecanismo estrutural de poder: sem o medo coletivo, a engrenagem do capital perderia parte de sua legitimidade simbólica.
Ainda assim, “Murar o Medo” apresenta um limite. Ao não propor caminhos de superação, Couto deixa em aberto uma questão essencial: como enfrentar um sistema que se alimenta da perpetuação do temor coletivo? A ausência de alternativas práticas faz com que a reflexão, embora vigorosa, corra o risco de permanecer restrita ao campo literário e moral.
Sob uma perspectiva marxista, esse limite pode ser superado. A análise materialista mostra que o medo não é apenas um sentimento, mas uma estratégia de dominação de classe, utilizada para dividir trabalhadores, justificar o aparato repressivo do Estado e sustentar a indústria da guerra e da segurança. O desafio não está apenas em compreender essa lógica, mas em organizar ação coletiva capaz de romper com a estrutura que transforma a vida em mercadoria e o medo em poder.
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