Presidente da Alerj é preso pela PF por suspeita de vazamento de operação sigilosa

A Polícia Federal prendeu preventivamente, na manhã desta quarta-feira (03/12/2025), o presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Rodrigo Bacellar (União Brasil), no âmbito da Operação Unha e Carne, que investiga o vazamento de informações sigilosas relacionadas à Operação Zargun, deflagrada meses antes e voltada ao combate do tráfico de armas envolvendo o deputado TH Joias.

A ação policial teve início logo cedo, com agentes da PF cumprindo mandados de busca e apreensão na sala da presidência da Alerj, enquanto Bacellar prestava depoimento na sede da corporação, no Rio de Janeiro. Pouco após encerrar o depoimento, o parlamentar foi detido preventivamente.

As apurações apontam que o deputado é suspeito de repassar informações sigilosas que teriam antecipado detalhes operacionais da Zargun, investigando o deputado estadual Tiego Raimundo dos Santos Silva, conhecido como TH Joias. Segundo a PF, o vazamento comprometeu o andamento das diligências e pode ter favorecido interlocutores ligados ao parlamentar investigado.

A operação desta quarta-feira cumpre um mandado de prisão preventiva, oito mandados de busca e apreensão e um mandado de intimação, todos expedidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF), responsável pelo inquérito devido ao foro do investigado.

Contexto jurídico e relação com a ADPF das Favelas

A Operação Unha e Carne decorre de determinação do STF no âmbito da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 635, conhecida como ADPF das Favelas, que delegou à Polícia Federal a responsabilidade de investigar a atuação de grupos criminosos violentos no Rio de Janeiro e suas conexões com agentes públicos.

Em nota oficial, a PF afirmou que a operação visa “combater a atuação de agentes públicos envolvidos no vazamento de informações sigilosas, o que culminou na obstrução da investigação realizada no âmbito da Operação Zargun”.

A Alerj, por sua vez, informou que ainda não foi oficialmente comunicada sobre a operação e que adotará as providências institucionais assim que receber as informações completas.

Operação Zargun e o caso TH Joias

A investigação que originou o novo inquérito teve início em 3 de setembro de 2025, quando o deputado TH Joias foi preso sob suspeita de intermediar a compra e venda de armas para o Comando Vermelho. As autoridades afirmam que o parlamentar atuava como intermediário entre fornecedores e a facção criminosa, utilizando sua posição política para facilitar negociações.

A suspeita é de que detalhes da operação tenham sido vazados antecipadamente, permitindo que o alvo adotasse medidas de defesa ou ocultação de provas. A PF busca identificar todas as conexões entre agentes públicos e o esquema de vazamento, ampliando o alcance do inquérito.

A defesa de Bacellar ainda não foi localizada pela reportagem para comentar as acusações.

Impactos institucionais e riscos ao sistema de freios e contrapesos

A prisão do presidente da Alerj expõe fragilidades estruturais na relação entre Poder Legislativo e órgãos de investigação, sobretudo quando parlamentares são suspeitos de interferir diretamente em operações policiais. A natureza do caso — envolvendo vazamento de dados sensíveis, obstrução de investigação e possível vínculo com facções armadas — agrava a percepção de vulnerabilidade institucional no estado.

Outro ponto relevante é o papel do STF na condução da operação. No contexto da ADPF 635, a Corte assumiu protagonismo no enfrentamento ao crime organizado no Rio, reforçando o dever do Estado de garantir segurança pública dentro dos parâmetros constitucionais. Ainda assim, a necessidade de intervir repetidamente sugere que persistem lacunas na autonomia e na integridade das instituições locais.

Há, também, o desafio de preservar a credibilidade da Alerj. Quando seu presidente é alvo de mandado de prisão preventiva, a imagem do Legislativo estadual sofre desgaste considerável, exigindo respostas rápidas e transparentes para conter danos e restabelecer confiança pública. O episódio reabre o debate sobre critérios de escolha de lideranças parlamentares, mecanismos de responsabilização e limites do foro privilegiado.


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