O início de 2026 marcou uma intensificação sem precedentes do exercício do poder militar, econômico e diplomático dos Estados Unidos sob o comando do presidente Donald Trump, com impactos diretos sobre a ordem internacional construída no pós-Segunda Guerra Mundial. Em poucas semanas, a Casa Branca promoveu ações que incluem a deposição forçada do governo da Venezuela, ameaças abertas de uso da força contra o Irã, pressões sobre Cuba, endurecimento extremo da política migratória e declarações explícitas sobre a possibilidade de anexação da Groenlândia. A sucessão de movimentos deixou aliados e adversários em estado de alerta, reacendendo debates sobre soberania, direito internacional e equilíbrio de poder.
Escalada de ações e ruptura com a ordem pós-guerra
Desde o início do novo ano, Trump tem adotado uma estratégia baseada no uso explícito da força e na retórica de dissuasão, afastando-se de consensos multilaterais que orientaram a política externa americana por décadas. O ataque militar que resultou na retirada do presidente venezuelano Nicolás Maduro, em 3 de janeiro, foi interpretado por analistas como um marco simbólico dessa mudança de paradigma, sobretudo pela centralidade atribuída às vastas reservas de petróleo do país sul-americano.
Poucos dias depois, o presidente norte-americano voltou a elevar o tom ao afirmar que os Estados Unidos poderiam realizar novas ofensivas contra o Irã, inclusive para apoiar manifestações internas contra o regime teocrático. As declarações reforçaram a percepção de que Washington passou a tratar crises regionais como oportunidades para reafirmar sua supremacia estratégica, sem referência explícita às normas do direito internacional.
Esferas de influência e a “Doutrina Donroe”
Especialistas ouvidos pela Reuters apontam que a política externa atual resgata o conceito de esferas de influência, amplamente rejeitado após a Guerra Fria. A inspiração histórica remete à Doutrina Monroe, do século XIX, reformulada informalmente por Trump no que analistas passaram a chamar de “Doutrina Donroe”, marcada pela defesa aberta da hegemonia dos EUA no Hemisfério Ocidental.
Essa abordagem, embora cause apreensão entre aliados tradicionais, também pode favorecer interesses de potências rivais. Rússia e China observam com atenção a disposição americana de legitimar zonas de influência, conceito que Pequim utiliza para sustentar suas reivindicações sobre Taiwan e Moscou emprega para justificar sua atuação na Ucrânia.
Reações de aliados europeus e tensões na OTAN
Na Europa, o desconforto se intensificou diante das declarações de Trump sobre a Groenlândia, território autônomo da Dinamarca e integrante do espaço estratégico da OTAN. O presidente alemão Frank-Walter Steinmeier acusou os Estados Unidos de promoverem um “colapso de valores” e alertou para o risco de a ordem internacional se transformar em um “covil de ladrões”.
A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, afirmou que qualquer tentativa americana de tomar a Groenlândia significaria o fim da aliança transatlântica. Em resposta, líderes europeus passaram a discutir o reforço da presença militar no Ártico, sinalizando uma reconfiguração defensiva diante da imprevisibilidade de Washington.
Insegurança na Ásia e debate nuclear no Japão
Na Ásia, a ofensiva contra a Venezuela também provocou reações. Parlamentares japoneses classificaram a operação como uma mudança forçada do status quo, reacendendo debates sensíveis sobre segurança nacional. Em círculos políticos de Tóquio, voltou a ser discutida, ainda que de forma preliminar, a possibilidade de o Japão desenvolver capacidade nuclear própria, cenário impensável até poucos anos atrás.
Na Coreia do Sul, representantes do campo progressista alertaram que a postura americana abre precedentes perigosos, permitindo que potências usem a força contra países mais fracos sem mediação institucional.
Endurecimento migratório e repressão política
Paralelamente à política externa assertiva, o governo Trump intensificou a repressão migratória. O Departamento de Estado informou ter revogado mais de 100 mil vistos desde o retorno do presidente à Casa Branca, um aumento de 150% em relação a 2024. As medidas incluem fiscalização rigorosa de redes sociais, ampliação da triagem ideológica e deportações de portadores de vistos válidos.
Autoridades americanas confirmaram que estudantes estrangeiros e residentes permanentes podem ser deportados caso manifestem apoio aos palestinos ou críticas à atuação de Israel em Gaza, sob o argumento de ameaça à política externa dos EUA. A decisão gerou críticas de organizações de direitos civis e ampliou o debate sobre liberdade de expressão em solo americano.
Pressões sobre Cuba e repercussões regionais
No Caribe, Trump anunciou o fim do fornecimento de petróleo venezuelano a Cuba e ameaçou o governo de Havana com novas sanções. O presidente cubano Miguel Díaz-Canel reagiu afirmando que o país é soberano e acusou os Estados Unidos de manterem, há mais de seis décadas, uma política de asfixia econômica contra a ilha.
As declarações ampliaram a tensão regional e reforçaram a percepção de que Washington está disposto a utilizar instrumentos econômicos e militares de forma combinada para redesenhar alianças e dependências no Hemisfério Ocidental.
Poder, ruptura e incerteza global
A estratégia adotada por Donald Trump representa uma inflexão profunda na política externa dos Estados Unidos, ao priorizar o uso direto da força e relativizar normas multilaterais que sustentaram a estabilidade internacional por décadas. O discurso de que “o mundo real é governado pelo poder” explicita uma visão pragmática, porém arriscada, das relações internacionais.
Os desdobramentos iniciais indicam ganhos táticos imediatos, como a demonstração de poder dissuasório, mas também revelam custos estratégicos relevantes: erosão da confiança entre aliados, incentivo a corridas armamentistas regionais e fortalecimento de narrativas semelhantes em Moscou e Pequim. A ausência de mecanismos claros de contenção institucional amplia o risco de escaladas imprevisíveis.
No médio prazo, países estratégicos, incluindo o Brasil, podem buscar maior aproximação com a China como forma de contrabalançar a pressão americana, acelerando uma fragmentação da ordem global que os próprios Estados Unidos ajudaram a construir após 1945.
*Com informações da Agência Reuters, BBC Brasil, RFI e Sputnik.








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