A organização Human Rights Watch (HRW) divulgou relatório anual no qual afirma que o retorno de Donald Trump à Casa Branca intensificou uma “espiral descendente” nos direitos humanos e na democracia, contribuindo para o que classifica como colapso da ordem internacional baseada em regras. O documento também aponta retrocessos simultâneos em países como Rússia e China.
Segundo a entidade, medidas adotadas pelo governo norte-americano ampliaram poderes coercitivos do Executivo, reduziram controles institucionais e pressionaram opositores políticos, configurando, na avaliação do grupo, uma mudança estrutural no funcionamento democrático do país.
A HRW sustenta que os Estados Unidos teriam recuado a patamares de liberdade comparáveis aos da década de 1980, citando restrições civis, endurecimento migratório e ações policiais consideradas desproporcionais.
Operações migratórias e acusações de violações
O relatório menciona operações do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) com agentes mascarados, descritas como batidas violentas e de grande escala, incluindo ações registradas em Minneapolis, no estado de Minnesota. A organização afirma que as medidas resultaram em detenções consideradas desnecessárias.
Outro ponto destacado é o envio de 252 migrantes venezuelanos para uma prisão de segurança máxima em El Salvador, procedimento classificado pela HRW como desaparecimento forçado, prática proibida pelo direito internacional.
De acordo com o documento, essas iniciativas fariam parte de política deliberada de endurecimento migratório, com efeitos sobre garantias individuais e acesso à defesa legal.
Avaliação institucional e críticas ao Executivo
O diretor executivo da HRW, Philippe Bolopion, declarou que o primeiro ano do segundo mandato de Trump acelerou a deterioração do ambiente democrático, com impactos internos e externos. Ele afirmou que o cenário atual contrasta com relatórios oficiais divulgados pelo próprio governo dos Estados Unidos, que teriam suavizado críticas a aliados.
A entidade descreve um conjunto de medidas como perseguição a adversários políticos, enfraquecimento de mecanismos de fiscalização e ampliação de poderes executivos, elementos que, segundo a análise, reduzem a capacidade de controle institucional.
O relatório, com 529 páginas, reúne dados sobre políticas domésticas e posicionamentos diplomáticos, avaliando repercussões na credibilidade internacional dos Estados Unidos.
Situação em El Salvador, Israel e sistema global
A HRW reconhece redução de violência de gangues em El Salvador, mas afirma que o governo local realizou detenções em massa, desaparecimentos forçados e tortura, práticas que violariam tratados internacionais.
Em relação ao conflito no Oriente Médio, a organização reiterou acusações de crimes contra a humanidade, atos de genocídio e limpeza étnica contra palestinos em Gaza, sustentando que houve apoio político e militar de Washington.
Bolopion também argumenta que Rússia e China atuam para enfraquecer estruturas multilaterais de direitos humanos, enquanto a Organização das Nações Unidas enfrenta limitações operacionais, reduzindo a capacidade de resposta a crises.
Proposta de aliança internacional e inclusão do Brasil
Como alternativa ao que classifica como erosão democrática global, a HRW propõe a criação de uma aliança estratégica de “potências médias” comprometidas com direitos humanos e Estado de Direito. Entre os países citados estão Brasil, Canadá, União Europeia, Reino Unido, Japão, África do Sul, Coreia do Sul e Austrália.
A organização defende que o bloco poderia coordenar votos em organismos da ONU, ampliar acordos comerciais preferenciais e fortalecer cooperação em defesa, criando mecanismos coletivos de proteção institucional.
Diante de restrições ao trabalho de campo em alguns países, a HRW informou que passou a utilizar tecnologias como inteligência artificial, drones e imagens de satélite para monitorar violações de direitos humanos e documentar evidências.
*Com informações da RFI.










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