A Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (FAMEB-UFBA), primeira escola médica do Brasil, completa 218 anos de fundação nesta quarta-feira (1/02/2026), consolidando uma trajetória iniciada em 1808 com a criação da Escola de Cirurgia da Bahia por decreto de D. João VI. O aniversário ocorre em meio a reflexões institucionais sobre o futuro da formação médica no país e às declarações do atual diretor, professor Antonio Alberto da Silva Lopes, sobre os desafios estruturais do ensino superior em saúde.
Fundação histórica e papel pioneiro
Criada em 18 de fevereiro de 1808, a Escola de Cirurgia da Bahia foi instalada no antigo Colégio dos Jesuítas, transformado em Hospital Real Militar, no Terreiro de Jesus, em Salvador. A criação da instituição marcou o fim da proibição de cursos superiores nas colônias portuguesas, inaugurando o ensino superior no Brasil.
O projeto teve influência decisiva do médico José Correia Picanço, responsável pela organização inicial do ensino médico. As primeiras aulas concentraram-se em Anatomia e Obstetrícia, voltadas à formação de cirurgiões e médicos para atender às demandas sanitárias da época.
Em 1816, a escola foi transformada em Academia Médico-Cirúrgica, ampliando o currículo e a estrutura institucional. Já em 1832, passou à condição de Faculdade de Medicina, consolidando o ensino superior médico no país.
Localizada no Terreiro de Jesus, no coração do Pelourinho, a faculdade integra um dos conjuntos arquitetônicos mais emblemáticos do país. Seus prédios históricos simbolizam a presença da ciência e da formação médica na construção social e cultural de Salvador.
Atualmente, a FAMEB mantém atuação em ensino, pesquisa e extensão, formando profissionais para diversas áreas da saúde e participando de projetos voltados à atenção básica, especialidades clínicas e saúde pública.
Contribuição para a ciência, vida pública, com presença no centro de Salvador
Ao longo de mais de dois séculos, a Faculdade de Medicina da Bahia formou profissionais que participaram de episódios decisivos da história nacional, como a Independência do Brasil, a Sabinada e a Guerra do Paraguai.
Entre os ex-alunos notáveis, destacam-se:
- Raymundo Nina Rodrigues, médico legista e antropólogo;
- Juliano Moreira, pioneiro da psiquiatria brasileira;
- Pirajá da Silva, descobridor do ciclo da esquistossomose mansoni;
- Manuel Vitorino, médico e ex-presidente da Bahia;
- Afrânio Peixoto, médico e escritor, membro da Academia Brasileira de Letras;
- Maria Odília Teixeira, primeira médica negra formada no Brasil, em 1909.
A instituição consolidou-se como berço da ciência médica brasileira, com influência direta na saúde pública e na formação intelectual do país.
Desafios da formação médica no segundo decênio do século XXI
Segundo o diretor, o cenário contemporâneo da formação médica brasileira exige atenção especial. Ele apontou o crescimento acelerado do número de faculdades e de formandos como um dos fatores que impactam diretamente a qualidade da formação profissional.
De acordo com dados citados por docentes da área, o Brasil possui atualmente cerca de 496 faculdades de medicina, das quais aproximadamente 20% são públicas, responsáveis por cerca de 25% dos estudantes, enquanto 80% são privadas, concentrando 75% das matrículas. O país forma cerca de 45 mil médicos por ano, além dos profissionais oriundos de instituições estrangeiras, especialmente da América Latina.
As observações do diretor refletem um debate nacional sobre o modelo de expansão do ensino médico. O número de cursos cresceu de forma acelerada nas últimas décadas, especialmente na rede privada, alterando o perfil do sistema de formação.
Enquanto em 2000 o país possuía pouco mais de uma centena de escolas médicas, o total atual se aproxima de 500 instituições, com forte predominância de faculdades privadas. O aumento do número de vagas ampliou o acesso ao ensino superior, mas também gerou preocupações sobre:
- Qualidade da formação médica;
- Estrutura hospitalar para estágios e residência;
- Distribuição regional de profissionais;
- Regulamentação e avaliação dos cursos.
Especialistas apontam que o crescimento quantitativo não foi acompanhado, em todos os casos, por investimentos equivalentes em infraestrutura, corpo docente e integração com o sistema público de saúde.
Nesse contexto, instituições tradicionais como a Faculdade de Medicina da Bahia mantêm o papel de referência acadêmica e científica, preservando padrões históricos de formação.
Perfil do diretor Antonio Alberto Lopes
O atual diretor da Faculdade de Medicina da UFBA, Antonio Alberto da Silva Lopes, assumiu o cargo em 24 de julho de 2023, após eleição interna envolvendo professores, estudantes e servidores técnico-administrativos. Ele é o primeiro afrodescendente a assumir a direção.
Docente da instituição desde 1980, o professor é titular do Departamento de Medicina Interna e Apoio Diagnóstico e membro da Academia de Medicina da Bahia. Sua eleição teve caráter simbólico e histórico, pois ele se tornou o primeiro diretor negro da FAMEB em mais de dois séculos de existência.
A posse ocorreu em cerimônia presidida pelo reitor da UFBA, Paulo Miguez, com a presença de representantes da comunidade acadêmica e de entidades médicas. Na ocasião, o professor Eduardo Reis assumiu como vice-diretor.










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