China ignora “receita” liberal, aposta em planejamento estatal e se torna segunda maior economia, diz pesquisador Elias Jabbour

O geógrafo e pesquisador Elias Jabbour, ex-consultor do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) e atual presidente do Instituto Pereira Passos (IPP), afirma que a China alcançou sua posição como segunda maior economia do mundo ao rejeitar a cartilha liberal aplicada em países como o Brasil desde os anos 1990. Em entrevista, o pesquisador apresentou as teses centrais de seu novo livro, Socialismo no Poder: Governança, Classes, Ciência e Projetamento na China, escrito em parceria com o filósofo australiano Roland Boer e previsto para março de 2026.

A obra propõe uma interpretação do modelo chinês a partir da combinação entre planejamento estatal, mercado e inovação tecnológica, destacando o papel da governança política e da estratégia industrial no processo de crescimento. Segundo o autor, o país realizou uma transformação econômica sem precedentes, saindo da condição de economia pobre para se tornar uma potência industrial, científica e comercial.

Nova interpretação do socialismo chinês

Jabbour sustenta que a experiência contemporânea da China escapa às categorias tradicionais das ciências sociais ocidentais, exigindo atualização conceitual para compreender seu funcionamento. Segundo ele, o país construiu um arranjo institucional próprio, combinando instrumentos de planejamento estatal com mecanismos de mercado e políticas tecnológicas de longo prazo.

O pesquisador cita como exemplo o processo de urbanização acelerada ocorrido nas últimas décadas. De acordo com sua análise, cerca de 200 milhões de pessoas foram transferidas do campo para cidades em aproximadamente dez anos, com acesso a habitação, emprego e infraestrutura básica, sem a formação de grandes favelas.

Para o autor, o socialismo chinês não deve ser entendido como um conceito abstrato, mas como uma forma histórica associada ao exercício do poder político e à construção de um projeto nacional de desenvolvimento.

Planejamento tecnológico e a “máquina de previsão”

Um dos eixos do livro é a relação entre planejamento estatal e tecnologia. Jabbour argumenta que a China construiu um sistema capaz de antecipar gargalos econômicos por meio do uso intensivo de big data, inteligência artificial, redes 5G e computação avançada.

Ele define esse arranjo como uma “máquina de previsão”, um aparato técnico e institucional que permitiria respostas rápidas a desafios econômicos e sociais. Segundo o pesquisador, esse modelo possibilitou ganhos de eficiência e estabilidade nas últimas décadas.

No campo da infraestrutura, Jabbour cita a expansão do sistema ferroviário. Desde 2009, a China teria construído cerca de 45 mil quilômetros de trilhos, além de ampliar o número de cidades com metrô de quatro para 45. A projeção, segundo ele, é que o país alcance até 2035 níveis de bem-estar social comparáveis aos de países europeus de médio porte.

Divergência de caminhos entre Brasil e China

Ao comparar os dois países, Jabbour afirma que Brasil e China estavam em patamares econômicos semelhantes nos anos 1980. O distanciamento, segundo ele, ocorreu a partir das reformas econômicas brasileiras da década de 1990, associadas ao chamado Consenso de Washington.

De acordo com sua análise, o Brasil adotou políticas de privatização, abertura comercial e redução do papel do Estado, enquanto a China manteve um modelo de forte coordenação estatal. O resultado, segundo o pesquisador, foi a consolidação chinesa como potência industrial.

O que posso dizer é que a China não adotou a receita para o sucesso vendida ao Brasil e se deu muito bem”, afirmou.

Para ele, o principal obstáculo brasileiro é político. Sem uma maioria política comprometida com um projeto nacional de longo prazo, o país não conseguiria sustentar uma estratégia consistente de desenvolvimento.

Reindustrialização como eixo estratégico

Jabbour defende que a reindustrialização deve ser o eixo central de um projeto nacional brasileiro, associada à mobilidade social, redução das desigualdades e fortalecimento da soberania.

Nesse contexto, ele critica acordos de livre comércio, como o tratado entre Mercosul e União Europeia, que, em sua avaliação, aprofundariam a posição periférica do país. O pesquisador sustenta que o Brasil deveria buscar parcerias estratégicas com a China voltadas à reconstrução de cadeias produtivas, e não apenas à exportação de commodities.

Apesar de considerar o socialismo uma forma histórica superior, Jabbour afirma que o Brasil não possui condições políticas e sociais para implantar um sistema socialista, defendendo a necessidade de um projeto nacional desenvolvimentista como prioridade.

Transição geopolítica e tendência à multipolaridade

No cenário internacional, Jabbour rejeita a ideia de que o mundo já esteja consolidado como multipolar. Segundo ele, o sistema internacional vive uma fase de transição instável, marcada por conflitos e disputas entre grandes potências.

O pesquisador associa esse momento ao declínio relativo dos Estados Unidos, processo que, em sua avaliação, tende a ocorrer de forma conflituosa. Ele cita o conflito na Ucrânia como exemplo de disputa geopolítica com impactos econômicos mais amplos, incluindo a reorganização industrial europeia.

Apesar das tensões, Jabbour considera a China um dos principais polos estruturantes dessa transição. Ele destaca três dimensões do poder chinês:

  • Potência comercial: maior volume de comércio global
  • Potência industrial: cerca de 35% da produção industrial mundial
  • Potência financeira: maior credor líquido internacional

Ainda assim, o pesquisador ressalta que a multipolaridade está em formação gradual e incerta, marcada por disputas econômicas e estratégicas entre as principais potências.


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Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
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