Quinta-feira (19/02/2026) — O Banco Digimais S.A., hoje posicionado como uma instituição de crédito com ênfase em financiamento de veículos e crédito consignado, carrega uma história que mistura origem regional, mudanças de controle, rebranding e um ciclo recente marcado por volatilidade financeira, pressão regulatória indireta e disputas em estruturas de crédito. A seguir, a reportagem reconstitui quando o banco foi fundado, quem o controla, como se organiza seu controle societário e quais dificuldades principais vêm sendo apontadas por relatórios, demonstrações financeiras e análises de rating.
Origem e fundação: do braço financeiro ao banco múltiplo
O Digimais iniciou suas atividades em 1981, em Porto Alegre, quando ainda operava como Banco Renner, ligado à família Renner e ao ecossistema empresarial que deu origem ao antigo Grupo A. J. Renner. Essa cronologia — início como financeira/banco na década de 1980 e posterior consolidação em linhas de crédito específicas — aparece tanto em materiais institucionais quanto em documentos de mercado e relatórios de crédito.
Nas demonstrações financeiras e documentos públicos, o Digimais é descrito como banco múltiplo autorizado pelo Banco Central, operando carteiras como comercial e crédito, financiamento e investimento, com foco histórico mais forte no CDC (crédito direto ao consumidor) com garantia, especialmente em veículos usados, e presença relevante em operações colateralizadas.
Quem controla o Banco Digimais hoje: cadeia societária e “controlador final”
Um ponto que costuma gerar confusão no debate público é a diferença entre “proprietário” (no sentido informal) e cadeia de controle societário (no sentido regulatório/contábil). Nos documentos contábeis, o Digimais afirma que:
- é controlado pela Digimais Participações S.A.;
- a Digimais Participações é controlada pela B.A. Empreendimentos e Participações S.A.;
- e essa holding é descrita como controlada pelo Grupo Record.
Relatórios de análise de risco também apontam o Grupo Record como controlador final.
Em termos históricos, a aquisição de participação relevante pelo grupo ligado à Record foi noticiada no fim dos anos 2000 e o controle integral (100%) se consolidou posteriormente, culminando na mudança de nome para Digimais em 2020, com registro da alteração em sistemas vinculados ao Banco Central.
Linha do tempo das mudanças: aquisição, rebranding e tentativa de venda
2009–2020: consolidação do controle e mudança de nome
A trajetória recente do banco é marcada por duas viradas: a entrada do grupo controlador e, depois, a mudança de marca. Em julho de 2020, a instituição então conhecida como Banco Renner passou a operar oficialmente como Banco Digimais.
2025: anúncio de negociação para troca de controle (dependente do BC)
Em janeiro de 2025, a compra do Digimais por Maurício Quadrado (ex-executivo/sócio do Banco Master, segundo a imprensa) foi anunciada como transação condicionada à aprovação regulatória e acompanhada da promessa de aporte de capital.
2025: relatos de desistência/arquivamento da operação
Ao longo de 2025, parte da cobertura econômica passou a relatar que a operação não avançou como esperado e que teria havido desistência (ou, no mínimo, perda de tração) antes de uma conclusão regulatória.
Observação de rigor: circularam alegações de “veto” formal do Banco Central em 2026, mas esse ponto aparece sobretudo em fontes secundárias e não encontrei, nas publicações abertas do regulador usadas nesta apuração, um ato público específico e nominativo confirmando esse desfecho nos termos divulgados em redes e compilações. Por prudência jornalística, o fato sólido é: a transação dependia do BC e não se consolidou como anunciada.
As dificuldades enfrentadas: perdas, capital, qualidade de ativos e disputas em estruturas de crédito
Aqui está o ponto central: o Digimais atravessou um período de forte estresse financeiro, com efeitos típicos de bancos focados em crédito colateralizado/consumo quando há piora de ciclo, problemas de originação, precificação ou recuperação.
Prejuízo relevante e impacto em capital (2022 como ano crítico)
Diversas análises apontam 2022 como um ano especialmente duro. Relatos de mercado mencionam prejuízo de grande magnitude e queda do capital regulatório, com risco de desenquadramento e necessidade de recomposição.
Em paralelo, documentos públicos do próprio banco (demonstrações) registram estruturas e notas que evidenciam decisões relevantes e temas sensíveis de auditoria — o tipo de detalhe que raramente aparece em propaganda institucional, mas pesa na leitura de risco.
Volatilidade de rentabilidade e risco de deterioração de carteira
Relatórios de rating e crédito descrevem o Digimais como instituição com rentabilidade volátil nos últimos anos, associada à deterioração de resultados e com alertas sobre operações renegociadas, provisões e potencial pressão sobre ativos/capital.
Esse tipo de diagnóstico é típico quando o banco depende de segmentos sensíveis a inadimplência (consumo, consignado, veículos) e precisa manter disciplina quase “antiga escola”: originação conservadora, garantias auditáveis, cobrança eficiente e capital confortável. Quando essa disciplina falha — ou quando o ciclo econômico aperta — a conta chega com juros.
Disputa envolvendo FIDC/cessões e risco reputacional (caso EXP 1)
Mais recentemente, surgiram notícias sobre uma disputa judicial envolvendo um FIDC e alegações de carteira sem lastro/documentação suficiente, com cobrança na casa de centenas de milhões de reais. Parte da imprensa descreve o conflito como conectado a créditos originados/relacionados a instituições que entraram em forte turbulência no período.
Mesmo quando ainda há controvérsia sobre responsabilidades contratuais (quem responde por vícios de documentação, recompra, gatilhos), o efeito prático costuma ser o mesmo: pressão sobre caixa, provisões, governança e percepção de risco.
Tentativa de reorganização e busca de novo controlador: sintoma, não causa
O anúncio de venda com promessa de aporte (2025) pode ser lido como tentativa de recapitalização e mudança de rota, algo comum quando uma instituição precisa recuperar capacidade de crescimento e credibilidade.
Quando essas negociações não prosperam, o mercado lê como sinal de que o caso exige mais do que marketing: exige capital novo, limpeza de ativos, governança, e — sobretudo — tempo.
O que os documentos do próprio banco indicam sobre o “modelo de negócio”
Materiais institucionais recentes apresentam o Digimais com base em ativos, carteira de crédito e índices prudenciais (Basileia), descrevendo mix com peso em CDC/veículos e outros produtos.
Já em relatórios formais (demonstrações/relatórios de administração), o banco é descrito como capital fechado, com foco em financiamento de veículos e outras linhas, dentro do arcabouço prudencial do Bacen.
Essa combinação revela o DNA do Digimais: não é um “superapp” bancário. É um banco de crédito — e banco de crédito vive e morre por originação, garantia, cobrança e capital.
Instituições de crédito ou fintech
O Digimais é um caso clássico do Brasil contemporâneo: instituições de crédito tentando vestir roupa de fintech, enquanto carregam o peso real do balanço. A tradição bancária — capital robusto, originação conservadora, garantias verificáveis e governança sem “atalhos criativos” — continua sendo o único antídoto para ciclos ruins. Quando aparecem prejuízos relevantes, alertas de rating e disputas de lastro, a pergunta deixa de ser “qual o próximo produto?” e passa a ser “qual a qualidade do ativo e quem põe dinheiro novo?”. O resto é embalagem.








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