Domingo (21/02/2026) — O mercado farmacêutico brasileiro vive um momento de inflexão estrutural, marcado por pressão intensa sobre preços, avanço acelerado da digitalização e da Inteligência Artificial (IA), mudanças tributárias e risco de consolidação em todos os elos da cadeia. É o que revela o estudo “Visão 360º do mercado farmacêutico no Brasil”, elaborado pelo Instituto Febrafar de Pesquisa e Educação Corporativa (IFEPEC) .
A pesquisa ouviu médicos, representantes, executivos da indústria, distribuidores e varejistas independentes, além de consumidores digitais, com o objetivo de mapear percepções e expectativas sobre o presente e o futuro do setor. Segundo o editorial do estudo, trata-se de um levantamento isento, baseado em entrevistas qualitativas e quantitativas, grupos de foco e análise temática estruturada .
O retrato que emerge é o de um setor resiliente — impulsionado pelo envelhecimento populacional e pela demanda estrutural por medicamentos —, mas tensionado por margens comprimidas, transformação tecnológica e disputas competitivas cada vez mais agressivas.
Médicos reduzem relevância das visitas presenciais e ampliam uso de IA
Entre os médicos, a pesquisa aponta uma mudança clara na relação com representantes da indústria. Embora parte dos profissionais ainda considere importante receber visitas, especialmente de “algumas indústrias” ou das “melhores indústrias”, a tendência predominante é de redução do tempo e da frequência desses encontros .
Os dados mostram:
- Crescente uso de revistas científicas, congressos e plataformas digitais como fontes prioritárias de atualização ;
- Adoção rotineira de plataformas de Inteligência Artificial para consulta sobre medicamentos e tratamentos ;
- Percepção de que a visita tradicional tende a ser reduzida ou substituída por canais digitais .
Nos grupos de foco, médicos afirmaram que a indústria continua sendo fonte relevante de informação, mas reconheceram o risco de viés comercial e a necessidade de senso crítico .
A autonomia profissional foi reiterada como valor central, ainda que alguns participantes admitam a existência de influências indiretas decorrentes da exposição repetida a determinadas marcas .
Propagandistas enfrentam obsolescência do modelo tradicional
Do lado dos representantes, o diagnóstico é ainda mais contundente. O estudo descreve uma “revolução silenciosa” na propaganda médica, com perda da função tradicional do representante como principal fonte de informação .
Segundo os entrevistados:
- A digitalização reduziu drasticamente a receptividade médica;
- O tempo disponível para visitas tornou-se mínimo;
- A motivação para receber o propagandista está mais ligada a amostras grátis e acesso a congressos do que à busca de conhecimento .
A conclusão do capítulo é clara: o propagandista, em sua forma tradicional, está em processo de transformação. O futuro aponta para um perfil mais consultivo, especializado e focado em produtos de alto valor agregado .
Indústrias enfrentam guerra de preços e migram para segmentos de maior valor
Executivos da indústria relataram um cenário de “cultura do menor preço”, com compressão de margens em toda a cadeia .
Os principais pontos identificados incluem:
- Crescimento dos genéricos em volume, mas com redução contínua de margens;
- Distanciamento de multinacionais da “guerra dos genéricos”;
- Migração estratégica para segmentos hospitalares, oncológicos e biológicos, de maior valor agregado;
- Expansão digital, especialmente na categoria Dermo.
A diversificação de portfólio foi apontada como imperativo estratégico. Segundo os executivos, empresas com portfólio restrito a genéricos e produtos de baixo custo terão dificuldades crescentes para sustentar rentabilidade .
Distribuidores sob pressão da reforma tributária e da consolidação
No elo da distribuição, o ambiente é descrito como de forte pressão competitiva, agravada por juros elevados, endividamento e incertezas tributárias .
A iminente reforma tributária gera apreensão quanto:
- Ao fim de benefícios fiscais estaduais;
- Ao favorecimento potencial de grandes redes;
- À necessidade de atualização tecnológica complexa e custosa .
Distribuidores estimam que cerca de 60% das vendas ainda passam por esse canal, mas reconhecem que o modelo enfrenta desafios estruturais e risco de consolidação, especialmente para players regionais com menor escala .
Varejo farmacêutico cresce em lojas, mas não em rentabilidade
O varejo é descrito como um dos elos mais tensionados. Apesar da expansão física das grandes redes, a rentabilidade não acompanha o crescimento .
Entre os pontos críticos destacados:
- Fragilidade financeira de pequenas e médias farmácias;
- Concentração de receita nas grandes redes;
- Crescente digitalização do consumo;
- Entrada de plataformas e marketplaces no canal Farma .
A ascensão do delivery, do WhatsApp como canal de relacionamento e da IA como potencial interface direta entre consumidor e produto indicam uma ruptura no modelo relacional tradicional do setor .
Principais dados da pesquisa
1. MÉDICOS
Relação com representantes
- Redução da relevância das visitas presenciais
- Tempo médio dedicado às visitas entre 5 e 15 minutos
- Médicos recém-formados demonstram maior resistência ao atendimento presencial
Fontes de informação
- Revistas científicas
- Congressos e seminários
- Plataformas digitais especializadas
- Uso crescente de Inteligência Artificial (IA)
Prescrição
- Predominância da prescrição por princípio ativo
- Decisões baseadas em evidência científica
- Reconhecimento de influência indireta por exposição recorrente a marcas
Tendência futura
- Redução adicional das visitas presenciais
- Expansão do uso de canais digitais e IA
2. REPRESENTANTES / PROPAGANDISTAS
Mudança estrutural
- Perda do papel tradicional como principal fonte de informação
- Redução da receptividade médica
Motivações para manutenção das visitas
- Distribuição de amostras grátis
- Convites para congressos
- Informações práticas de mercado (especialmente preços)
Perspectiva futura
- Transformação do perfil profissional
- Migração do modelo de divulgação para consultoria especializada
- Foco em produtos de alto valor e lançamentos
3. INDÚSTRIAS
Pressão competitiva
- Cultura do menor preço
- Compressão generalizada de margens
- Crescimento de genéricos com rentabilidade decrescente
Estratégias de adaptação
- Migração para segmentos de maior valor agregado
- Hospitalar
- Oncológico
- Biológicos
- Expansão digital, especialmente na categoria Dermo
Estrutura de mercado
- Alta concentração no segmento de genéricos
- Necessidade de diversificação de portfólio
4. DISTRIBUIDORES
Participação no mercado
- Aproximadamente 60% das vendas passam pelo canal de distribuição
Principais desafios
- Juros elevados
- Endividamento
- Reforma tributária
- Fim de benefícios fiscais estaduais
- Risco de favorecimento de grandes redes
Tendência estrutural
- Consolidação do setor
- Vulnerabilidade de distribuidores regionais
- Necessidade de modernização tecnológica
5. VAREJO FARMACÊUTICO
Estrutura
- Crescimento no número de lojas
- Fragilidade financeira crescente em pequenas e médias farmácias
Concentração
- Grandes redes concentram parcela significativa da receita
Digitalização
- Crescimento do delivery
- Uso do WhatsApp como canal de relacionamento
- Avanço de marketplaces
- Potencial da IA como novo canal de acesso
Risco estrutural
- Consolidação progressiva
- Resistência cultural à inovação em parte dos independentes
6. DIGITALIZAÇÃO E INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
Impactos principais
- Substituição gradual de interações presenciais
- Otimização de processos
- Personalização da comunicação com consumidores
- Possível interface direta entre IA e consumidor
Desafio central
- Velocidade da transformação tecnológica superior à capacidade de adaptação de parte do setor
7. CENÁRIO ECONÔMICO E ESTRUTURAL
Pressões externas
- Reforma tributária
- Instabilidade política
- Câmbio
- Entrada de supermercados e marketplaces
Dinâmica estrutural
- Margens comprimidas
- Guerra de preços
- Consolidação competitiva
8. PERSPECTIVA DE LONGO PRAZO
- Setor considerado resiliente
- Envelhecimento populacional como vetor estrutural de crescimento
- Demanda por medicamentos tende a se expandir
Os três vetores dominantes do mercado farmacêutico brasileiro são a pressão de margens, a digitalização acelerada e a consolidação competitiva. O ambiente não é de retração estrutural, mas de seleção estratégica entre os players.








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