Gilberto Gil vende 50% de seu catálogo musical a grupo liderado por Liminha em parceria com empresa que adquiriu direitos de Britney Spears

O cantor e compositor Gilberto Gil, um dos nomes mais influentes da música brasileira, vendeu 50% de seu catálogo musical ao Nas Nuvens Group, empresa brasileira liderada pelo produtor musical Liminha, em parceria com a companhia americana Primary Wave Music, especializada na aquisição e gestão de direitos autorais de grandes artistas internacionais. A negociação integra um movimento global crescente de monetização de catálogos musicais e envolve cerca de 840 composições, que se desdobram em mais de 2 mil fonogramas, incluindo gravações originais, versões ao vivo e participações.

A operação, considerada pelos envolvidos como uma das mais relevantes do mercado musical na América do Sul, transfere parte dos direitos de exploração econômica das obras, incluindo receitas provenientes de streaming, rádio, vendas, licenciamento para filmes, séries e publicidade, além da gestão editorial das composições. O valor da transação não foi divulgado.

Segundo os executivos do Nas Nuvens Group, o modelo adotado busca estabelecer parcerias entre investidores e artistas, preservando a participação do criador na administração do próprio legado musical e ampliando o potencial de exploração internacional do repertório.

Crescimento do mercado global de compra de catálogos musicais

A venda parcial do catálogo de Gilberto Gil ocorre em um contexto de expansão do mercado internacional de aquisição de direitos autorais. Nos últimos anos, artistas e investidores passaram a tratar catálogos musicais como ativos financeiros estratégicos, capazes de gerar receitas constantes ao longo do tempo.

Entre os exemplos mais recentes está a cantora Britney Spears, que vendeu a totalidade de seu catálogo musical em dezembro por cerca de US$ 200 milhões (mais de R$ 1 bilhão). A operação também teve como compradora a Primary Wave Music, empresa que administra catálogos de artistas como Bob Marley, Prince, James Brown, The Doors, Whitney Houston e Ray Charles.

O interesse crescente nesse tipo de ativo ganhou força a partir de grandes negociações internacionais. Em 2020, o compositor Bob Dylan vendeu seu catálogo por aproximadamente US$ 300 milhões, operação que impulsionou uma onda global de transações semelhantes.

Nesse cenário, o Brasil passou a atrair a atenção de investidores estrangeiros interessados em catálogos de artistas com forte relevância cultural e potencial de exploração internacional.

Nas Nuvens Group e a parceria com investidores internacionais

O Nas Nuvens Group foi criado em 2021 a partir da associação entre executivos da indústria musical brasileira e investidores estrangeiros. A empresa surgiu após a Primary Wave buscar um parceiro no Brasil para identificar oportunidades no mercado local de direitos autorais.

A iniciativa contou com a participação do executivo Ricardo Queirós, responsável pela articulação da parceria, e com aporte do fundo de investimento Starboard, interessado no mercado de propriedade intelectual musical.

Atualmente, o grupo detém parte ou a totalidade de mais de 80 catálogos musicais, incluindo obras de artistas como:

  • Carlinhos Brown
  • Arlindo Cruz
  • Chorão (Charlie Brown Jr.)
  • Zeca Baleiro
  • Vanessa da Mata
  • Renato Teixeira
  • Raimundos
  • Nelson Ned

De acordo com os executivos do grupo, a estratégia consiste em adquirir parte dos catálogos e manter os artistas como sócios, permitindo uma gestão compartilhada das obras e incentivando novos projetos que revitalizem o repertório.

Jason Eliasen, diretor financeiro e operacional do Nas Nuvens, afirma que a empresa atua na organização e auditoria dos direitos autorais, atividade considerada complexa no atual ecossistema digital da música.

Nosso trabalho é organizar o catálogo, realizar auditorias e desenvolver projetos que ampliem o alcance das obras. O objetivo é gerar benefícios tanto para a empresa quanto para os artistas”, afirmou.

Catálogo de Gilberto Gil reúne centenas de composições

O catálogo negociado inclui aproximadamente 840 músicas compostas por Gilberto Gil, uma das discografias mais extensas da música brasileira contemporânea.

Com mais de 40 álbuns de estúdio lançados ao longo de sua carreira, Gil tornou-se autor de obras consideradas marcos da música popular brasileira, transitando por gêneros como MPB, tropicalismo, reggae, samba e música nordestina.

A presença digital do artista permanece significativa. Segundo dados citados pelos executivos do Nas Nuvens, Gil possui mais de 3,3 milhões de ouvintes mensais na plataforma Spotify, onde cada reprodução gera pagamento médio de cerca de R$ 0,006 por stream no Brasil.

Esse fluxo contínuo de reproduções digitais é um dos fatores que sustentam o interesse de investidores no mercado de direitos autorais.

Relação histórica entre Gilberto Gil e Liminha

A operação também possui um componente histórico. Liminha, produtor musical e baixista, mantém uma relação artística com Gilberto Gil que remonta aos anos 1960.

Os dois chegaram a formar a dupla “Gil e Jiló” e participaram juntos do Festival da Record de 1968, defendendo a canção “Dois mil e um”, composta por Tom Zé e Rita Lee.

Posteriormente, Liminha produziu 14 discos de Gil, incluindo trabalhos marcantes da discografia do artista. Entre as gravações produzidas pelo músico está “Palco”, considerada uma das músicas mais emblemáticas da carreira do compositor baiano.

Além disso, os dois colaboraram na composição de “Vamos fugir”, canção associada à fase reggae de Gil e gravada após experiências musicais realizadas na Jamaica com integrantes da banda The Wailers, que acompanhava Bob Marley.

Projetos para ampliar o alcance internacional da obra

Os executivos do Nas Nuvens afirmam que a aquisição parcial do catálogo tem como objetivo ampliar a circulação internacional da obra de Gilberto Gil, por meio de novos projetos musicais e audiovisuais.

Entre as possibilidades consideradas está a criação de colaborações com artistas estrangeiros e iniciativas de reinterpretação do repertório do compositor.

A estratégia segue modelo já adotado pela empresa em outros catálogos. No caso do sambista Arlindo Cruz, administrado pelo grupo, está em produção o álbum “Elas cantam Arlindo”, que reúne gravações de músicas do compositor interpretadas por artistas como Ivete Sangalo, Duda Beat e Agnes Nunes, além de um documentário sobre sua trajetória.

Para os executivos, iniciativas desse tipo ajudam a manter o repertório ativo no mercado cultural, gerando novas receitas e preservando o legado artístico.

O estúdio Nas Nuvens e a história da música brasileira

O nome do grupo que adquiriu parte do catálogo de Gilberto Gil faz referência ao Estúdio Nas Nuvens, localizado no bairro do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro.

Fundado por Liminha e Gilberto Gil nos anos 1980, o estúdio tornou-se um dos espaços mais emblemáticos da produção musical brasileira. Instalado em um casarão histórico que já abrigou o consulado da Holanda, o local recebeu gravações de diversos artistas e mantém uma extensa coleção de discos de ouro e platina.

A criação da empresa de gestão de catálogos representa, segundo os executivos, uma continuidade da trajetória do estúdio como centro de produção e preservação da música brasileira.

*Com informações do Jornal O Globo.


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.




Deixe um comentário

Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
O Jornal Grande Bahia completa 19 anos de atuação contínua no ambiente digital, consolidando-se como referência do jornalismo independente na Bahia. Fundado em 2007, o veículo construiu uma trajetória marcada por rigor editorial, pluralidade temática e compromisso com a informação pública, aliando tradição jornalística, inovação tecnológica e participação qualificada no debate democrático.
Banner da Jads Foto.
Banner de Lula Fotografia.
Banner da RFI.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading