O artista plástico, ceramista e escultor José Andrade Santos, conhecido nacionalmente como Zé Andrade, morreu na sexta-feira (27/02/2026), no Rio de Janeiro, cidade onde viveu por mais de cinco décadas e desenvolveu a maior parte de sua carreira artística. Natural de Ubaíra, no interior da Bahia, e profundamente ligado à vida cultural de Feira de Santana, o artista ficou conhecido por criar as chamadas “caricaturas em três dimensões”, esculturas em cerâmica que retratavam figuras da cultura, da ciência, da política e da história com traços caricaturais e forte expressividade. Sua morte encerra uma trajetória de mais de cinquenta anos dedicada à arte popular brasileira.
Origem baiana e formação artística
Nascido em 22 de janeiro de 1952, em Ubaíra, no Vale do Jiquiriçá, José Andrade Santos cresceu em um ambiente cultural típico do interior baiano, marcado pela tradição artesanal e pela presença da cerâmica como forma de expressão popular.
Ainda jovem, demonstrou interesse pelas artes visuais e pelo desenho, atividade que mais tarde se transformaria em elemento central de sua linguagem artística. Aos 20 anos de idade, decidiu se mudar para o Rio de Janeiro, em busca de oportunidades para desenvolver sua carreira no campo das artes plásticas.
Na capital fluminense, instalou-se no bairro de Santa Teresa, região historicamente associada à vida boêmia e artística da cidade. Ali estabeleceu seu ateliê, que se tornaria espaço de criação e experimentação ao longo de décadas.
A invenção das “caricaturas em três dimensões”
O traço mais original da produção artística de Zé Andrade foi a criação de um estilo próprio que combinava caricatura e escultura em barro.
Enquanto a caricatura tradicional existe no desenho ou na pintura, o artista levou essa lógica para a tridimensionalidade da cerâmica. Suas esculturas — normalmente com cerca de 12 centímetros de altura — representavam personalidades reconhecidas, com traços exagerados e expressivos.
Ele próprio definia sua técnica de forma direta: tratava-se de “caricaturas em três dimensões”.
Essa abordagem permitia transformar figuras conhecidas da vida cultural e intelectual em pequenas esculturas cheias de humor e identidade visual.
Entre os personagens frequentemente retratados estavam:
- poetas e escritores brasileiros
- músicos e artistas plásticos
- figuras históricas e científicas
- personagens da política e da cultura nacional
O artista produziu retratos de personalidades como Augusto dos Anjos e Lima Barreto, entre muitos outros, integrando sua obra a um projeto de preservação simbólica da memória cultural brasileira.
Diálogo entre arte popular e arte contemporânea
A obra de Zé Andrade representa um ponto de encontro entre arte popular nordestina e linguagem contemporânea.
Seu trabalho dialoga diretamente com a tradição de grandes mestres da cerâmica brasileira, como Mestre Noza, cuja produção em barro inspirou gerações de artesãos e artistas.
Entretanto, Andrade ampliou essa herança ao incorporar elementos da caricatura moderna, aproximando sua produção de linguagens visuais presentes na imprensa, no humor gráfico e na cultura urbana.
O resultado foi uma obra híbrida: ao mesmo tempo popular e sofisticada, artesanal e conceitual.
Críticos de arte costumam destacar três elementos centrais em sua produção:
- Síntese visual, inspirada no desenho caricatural
- Economia de escala, com esculturas pequenas e altamente expressivas
- Dimensão memorialística, ao transformar figuras da cultura em objetos escultóricos duradouros
Exposições e reconhecimento artístico
Ao longo de sua trajetória, Zé Andrade participou de exposições coletivas e individuais em galerias e centros culturais.
Um dos momentos de destaque ocorreu quando suas esculturas integraram a exposição “Na palma da minha mão”, realizada no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no Rio de Janeiro, onde apresentou retratos escultóricos de figuras da literatura e da cultura brasileira.
A escala reduzida das peças — frequentemente comparadas a pequenos bibelôs artísticos — contrastava com a densidade simbólica das representações.
Cada obra funcionava como um retrato crítico e afetivo de personagens que marcaram a história cultural do país.
Vínculos culturais com Feira de Santana
Embora tenha vivido grande parte da vida no Rio de Janeiro, Zé Andrade manteve forte ligação afetiva e cultural com Feira de Santana, cidade que acompanhou sua trajetória artística e reconheceu sua contribuição para a cultura regional.
Feira é historicamente um dos principais centros culturais do interior da Bahia, reunindo escritores, artistas visuais, músicos e pesquisadores da cultura popular.
Nesse ambiente, Zé Andrade estabeleceu relações com intelectuais e artistas locais, entre eles o cordelista e jornalista Franklin Maxado, com quem manteve amizade e diálogo cultural ao longo dos anos.
Pouco antes de morrer, o artista recebeu a visita de Maxado no Rio de Janeiro — gesto interpretado por amigos como um último abraço simbólico da cultura feirense ao artista.
Vida no Rio e produção artística contínua
Radicado no Rio de Janeiro por mais de cinquenta anos, Zé Andrade manteve uma produção constante em seu ateliê de Santa Teresa.
Sua rotina artística incluía:
- modelagem manual das esculturas
- queima em forno cerâmico
- pintura detalhada das peças
Esse processo artesanal reforçava o caráter manual e autoral de cada obra.
Mesmo produzindo esculturas pequenas, o artista tratava cada peça como um retrato único, resultado de observação minuciosa da fisionomia e da personalidade de cada personagem representado.
Um intérprete singular da memória cultural brasileira
A trajetória de Zé Andrade revela uma característica recorrente da história da arte brasileira: a força criativa das linguagens populares como instrumento de interpretação cultural.
Ao transformar caricaturas em esculturas, o artista criou uma solução estética incomum, capaz de unir duas tradições distintas — a caricatura gráfica e a cerâmica artesanal.
Esse gesto ampliou o alcance simbólico da arte popular, aproximando-a do universo das galerias e instituições culturais sem abandonar suas raízes nordestinas.
Ao mesmo tempo, sua produção evidencia um problema recorrente no campo cultural brasileiro: a fragilidade da preservação institucional da memória de artistas populares, muitos dos quais permanecem subdocumentados mesmo após décadas de atuação.
A morte de Zé Andrade reabre o debate sobre a necessidade de preservação de acervos, documentação artística e valorização da arte popular brasileira.








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