Morte de Ali Khamenei acelera sucessão no Irã e coloca Hassan Khomeini e Mojtaba Khamenei no centro da disputa

A morte do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, de 86 anos, após um ataque conjunto dos Estados Unidos e de Israel ocorrido no sábado (28/02/2026), precipitou a etapa mais delicada do sistema político-religioso iraniano: a escolha do próximo Líder Supremo pela Assembleia de Peritos. Em meio à escalada militar e a pressões econômicas internas, o cenário abre espaço para disputas entre alas do regime e recoloca sob os holofotes dois nomes com perfis opostos: Hassan Khomeini, neto do fundador da República Islâmica associado a reformistas e com forte peso simbólico, e Mojtaba Khamenei, filho do líder morto, apontado como figura influente nos bastidores e próximo ao aparato de segurança.

O que muda com a morte de Khamenei

A sucessão de Khamenei já era tratada como uma questão latente diante da idade avançada do líder e de sinais recorrentes de fragilidade do sistema diante de ondas de protestos. O ataque que culminou em sua morte, no entanto, transformou um debate interno em urgência institucional, sem espaço para transição gradual.

O Líder Supremo no Irã não é uma figura simbólica: é o vértice real do poder. A função concentra prerrogativas sobre Forças Armadas, inteligência, política externa, programa nuclear, além de influência decisiva sobre o Judiciário e sobre órgãos que filtram a competição política.

A morte do líder, em contexto de guerra, impõe duas necessidades simultâneas: continuidade operacional do Estado e preservação da legitimidade do regime, especialmente entre segmentos da população já tensionados por sanções, inflação e restrições sociais.

Quem escolhe o próximo líder supremo e como funciona o processo

Assembleia de Peritos: o colegiado-chave

A definição do sucessor cabe à Assembleia de Peritos, órgão composto por clérigos. Em tese, o colegiado avalia critérios religiosos e políticos para nomear o novo líder. Na prática, o processo ocorre em um sistema descrito por analistas como pouco transparente, com decisões fortemente influenciadas por equilíbrios internos.

O papel do Conselho dos Guardiães

Um dos pontos estruturais do regime é o Conselho dos Guardiães, responsável por avaliar candidaturas a cargos eletivos e por manter o enquadramento ideológico da República Islâmica. O histórico recente mostra que o conselho atua como mecanismo de contenção de alternativas reformistas.

A atuação desse órgão ganhou relevância no debate sucessório porque interfere na formação do campo político, reduzindo a competição e, por extensão, influenciando a correlação de forças em órgãos religiosos e institucionais.

Hassan Khomeini: símbolo do legado de 1979 e ponte com reformistas

Hassan Khomeini, de 53 anos, é descrito como o neto mais visível de Ruhollah Khomeini, líder da Revolução Islâmica de 1979. Ele ocupa uma posição de grande valor simbólico por atuar como zelador do mausoléu do avô, no sul de Teerã, o que o mantém no centro de cerimônias e ritos públicos associados à memória fundadora do regime.

Ao mesmo tempo, seu perfil é frequentemente ligado à ala moderada do clero e a redes reformistas. Ele mantém relações com figuras como os ex-presidentes Mohammed Khatami e Hassan Rouhani, ambos associados a políticas de diálogo com o Ocidente em diferentes momentos.

Entre lealdade ao sistema e críticas pontuais

Embora reafirme lealdade à República Islâmica, Hassan Khomeini acumulou episódios de crítica a instituições centrais do regime, o que o torna uma peça ambígua: potencial conciliador para alguns e risco político para outros.

  • Em 2021, criticou o Conselho dos Guardiães após a exclusão de candidatos reformistas, questionando o cerceamento da escolha do eleitor.
  • Cobrou responsabilização pela morte de Mahsa Amini, jovem que morreu após detenção pela polícia da moralidade em 2022, caso que desencadeou protestos nacionais.

O limite institucional: o “teto” religioso e o filtro político

Um dos obstáculos citados no histórico de Hassan Khomeini é o fato de ele ser Hojatoleslam, um nível abaixo de Aiatolá. Houve tentativa de candidatura à Assembleia de Peritos na década passada: apesar de uma aprovação inicial atribuída a Khamenei, ele acabou desqualificado pelo Conselho dos Guardiães, sob justificativas ligadas a credenciais religiosas — interpretação vista por setores reformistas como bloqueio político.

Relação com a Guarda Revolucionária: crítica e convivência

Em 2008, ele foi associado a uma crítica indireta ao papel político do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) ao defender que militares deveriam manter distância da política — ecoando diretriz histórica do próprio Khomeini. Ainda assim, o clérigo mantém relações próximas com a Guarda, o que indica adaptação pragmática às estruturas reais de poder.

Mojtaba Khamenei: influência nos bastidores e o tabu da hereditariedade

Mojtaba Khamenei aparece há anos como um nome citado nas especulações sucessórias. Seu perfil é descrito como o de um operador interno: alguém com trânsito no núcleo de decisão, ligado ao gabinete do pai e com conexões com setores de segurança e inteligência.

Credenciais e redes de poder

O componente religioso pesa: o Líder Supremo deve ser um teólogo de alto escalão segundo a doutrina política do regime. Relatos apontam Mojtaba como possuidor de credenciais clericais superiores às de outros nomes que já circularam no debate.

Além disso, o elemento decisivo no Irã contemporâneo costuma ser a capacidade de articulação com o aparato coercitivo do Estado. Nesse aspecto, Mojtaba é frequentemente descrito como alguém com relações relevantes dentro da Guarda Revolucionária e estruturas associadas.

O principal risco político: parecer dinastia

A eventual ascensão de Mojtaba enfrenta um problema de legitimidade simbólica: a Revolução de 1979 foi impulsionada, entre outros fatores, pela rejeição à hereditariedade do antigo regime do xá. A sucessão “de pai para filho” pode ser interpretada como contradição do mito fundador, fornecendo munição retórica a opositores internos e críticos externos.

Projeção pública e aceitação social

Outro ponto recorrente é a baixa projeção pública. Mesmo em um sistema com eleições filtradas e forte repressão a opositores, a legitimidade do regime depende de algum grau de aceitação social. A falta de exposição política aberta pode dificultar a construção de uma narrativa de liderança nacional.

O fator protestos: por que a sucessão virou questão de sobrevivência

O texto fornecido aponta que a ideia de um sucessor moderado ganhou impulso entre alguns políticos após uma onda de protestos em janeiro, em meio a um ambiente de dissidência crescente. Em regimes teocráticos com estruturas rígidas, a tensão social costuma ser administrada por:

  1. Repressão e controle (via forças de segurança e vigilância);
  2. Narrativa de ameaça externa (Israel, EUA, “inimigos”);
  3. Ajustes controlados (reformas limitadas para aliviar pressão).

A sucessão ocorre exatamente quando o terceiro mecanismo — ajustes controlados — é mais difícil, pois a guerra tende a empurrar o sistema para fechamento e unidade forçada, reduzindo espaço para experiências políticas.

Guerra e sucessão: como a operação militar altera o tabuleiro iraniano

O assassinato de Khamenei em ataque conjunto EUA-Israel muda o cálculo interno por três razões:

  • Prioridade absoluta da segurança: em ambiente de guerra, setores ligados à defesa e inteligência tendem a ganhar ainda mais peso.
  • Necessidade de coesão: decisões rápidas favorecem arranjos já existentes, não experimentos.
  • Risco de fragmentação: se o regime aparentar vácuo de comando, cresce a chance de disputas internas entre facções.

Nesse contexto, o nome de um candidato percebido como “continuidade de comando” pode ganhar vantagem, ainda que a legitimação pública fique mais difícil.

EUA: Trump enfrenta custo político e disputa institucional no Congresso

Paralelamente à sucessão iraniana, o conteúdo fornecido descreve o impacto interno nos Estados Unidos. Fontes relatam que assessores de Trump discutiram riscos eleitorais para republicanos nas eleições de meio de mandato, destacando um ambiente social mais preocupado com custo de vida do que com conflitos externos.

A Reuters aponta ainda que:

  • Pesquisas sugerem baixa aprovação pública dos ataques;
  • Há preocupação com um “efeito gradual” negativo, conforme duração do conflito, retaliações, baixas e alta de combustíveis;
  • A mensagem pública do governo variou quanto aos objetivos: impedir arma nuclear, conter mísseis, sugerir mudança de regime ou destruir capacidades militares específicas.

Poderes de guerra: republicanos defendem autoridade; democratas pressionam votação

O texto relata que líderes republicanos sustentam que Trump atuou dentro de sua autoridade como comandante-em-chefe, enquanto democratas argumentam que a Constituição atribui ao Congresso o poder de declarar guerra e defendem resolução sobre poderes de guerra.

O debate tende a crescer se a operação se prolongar, se houver aumento de baixas ou se os objetivos continuarem oscilando no discurso oficial.

Linha-dura x moderação: o que está realmente em jogo no Irã

A disputa sucessória não é apenas sobre nomes, mas sobre modelo de gestão do regime:

  • Uma escolha associada ao aparato de segurança tende a priorizar controle interno, repressão e continuidade.
  • Um nome com conexões reformistas pode ser usado como sinal de recomposição de legitimidade, sem necessariamente desmontar estruturas do regime.

O ponto central é que ambos os caminhos podem manter o sistema intacto, mas com diferenças sobre método, estilo e margem de manobra diplomática.

Possíveis cenários para a sucessão

Sem extrapolar além do que o conteúdo permite, há quatro linhas plausíveis de desfecho institucional:

  • Continuidade linha-dura com figura do núcleo de segurança, visando comando rápido em guerra.
  • Solução de compromisso, com um líder que una legitimidade religiosa e aceitação de diferentes facções.
  • Nome simbólico com capacidade de pacificação, tentando reduzir pressão social.
  • Arranjo de bastidor com figura menos exposta, priorizando governabilidade interna.

O texto fornecido sugere que Hassan Khomeini, apesar do simbolismo e do perfil moderado, enfrenta barreiras institucionais. Mojtaba, apesar do peso interno, enfrenta o risco simbólico da hereditariedade e de baixa legitimidade pública.

Sucessão sob guerra tende a favorecer o núcleo duro

A morte de Ali Khamenei, em circunstâncias de ataque externo, altera o DNA do debate sucessório: em vez de ser um tema de transição calculada, vira um teste de sobrevivência. Em sistemas como o iraniano, quando a prioridade passa a ser segurança e continuidade do comando, o pêndulo institucional costuma oscilar em direção aos atores com controle sobre as engrenagens coercitivas do Estado.

O destaque de Hassan Khomeini mostra que o regime reconhece o poder do símbolo e a necessidade de alguma legitimidade popular, especialmente após ondas de protestos. Mas a própria trajetória citada — críticas ao Conselho dos Guardiães, desqualificação e o “teto” de credenciais religiosas — sugere que o sistema tolera moderação até o ponto em que ela não ameaça o núcleo decisório.

Do lado americano, a variação pública dos objetivos da guerra e a disputa com o Congresso sobre poderes de guerra indicam que o conflito pode ser politicamente mais custoso do que o governo admite. Se a operação se prolongar e impactar combustível e inflação, a política doméstica dos EUA tende a pressionar por resultados rápidos — um fator que, por ironia estratégica, pode aumentar a imprevisibilidade e as apostas, em vez de reduzi-las.


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Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
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