O Senado Federal aprovou por unanimidade nesta quarta-feira (04/03/2026) o Acordo Provisório de Comércio entre o Mercosul e a União Europeia, encerrando uma etapa legislativa relevante de um tratado negociado ao longo de quase três décadas. O texto, ratificado por meio do Projeto de Decreto Legislativo (PDL) 41/2026, estabelece a criação de uma área de livre comércio entre os dois blocos econômicos e prevê redução gradual ou eliminação de tarifas de importação para a maioria dos produtos comercializados, além de regras sobre serviços, investimentos, compras públicas, propriedade intelectual, sustentabilidade e solução de controvérsias.
O acordo foi assinado em 17 de janeiro de 2026, em Assunção, no Paraguai, e aprovado previamente pela Câmara dos Deputados e pela Representação Brasileira no Parlamento do Mercosul (Parlasul). Com a aprovação no Senado, o texto será promulgado, permitindo a implementação das medidas comerciais previstas.
Entre os principais pontos do tratado está a redução tarifária progressiva entre os dois blocos, com cronogramas diferenciados que podem variar de eliminação imediata até prazos que chegam a 30 anos para setores considerados sensíveis.
Abertura comercial entre Mercosul e União Europeia
O acordo estabelece que 91% dos bens europeus terão tarifas eliminadas no Mercosul, seja imediatamente ou ao longo de períodos de 4, 8, 10 ou 15 anos. Em contrapartida, a União Europeia eliminará tarifas de importação sobre cerca de 95% dos produtos originários do Mercosul, com prazos de eliminação imediata ou escalonada em até 12 anos.
A proposta busca ampliar e diversificar o comércio bilateral, além de aumentar a segurança jurídica para empresas e investidores que atuam nos dois mercados.
Segundo estimativas do governo brasileiro, o aumento da atividade comercial deve compensar a perda inicial de arrecadação com impostos de importação. A previsão oficial indica redução de receitas de R$ 683 milhões em 2026, R$ 2,5 bilhões em 2027 e R$ 3,7 bilhões em 2028, valores que seriam compensados pela expansão das transações comerciais.
O acordo aprovado pelo Congresso trata especificamente da parte comercial do tratado, conhecida como Acordo Provisório de Comércio (ITA). Paralelamente, foi assinado um documento mais amplo que inclui cooperação política e institucional entre os blocos.
Estrutura do tratado e regras comerciais
O texto aprovado possui 23 capítulos, que estabelecem regras para diversas áreas das relações econômicas entre Mercosul e União Europeia. Entre os temas regulamentados estão:
- comércio de bens
- serviços e investimentos
- compras governamentais
- propriedade intelectual
- desenvolvimento sustentável
- mecanismos de solução de controvérsias
O acordo também segue princípios da Organização Mundial do Comércio (OMC) e tem como objetivos ampliar o comércio, garantir previsibilidade jurídica e promover práticas comerciais sustentáveis.
Mesmo com a integração comercial prevista, cada país mantém autonomia para legislar sobre saúde pública, meio ambiente, educação, segurança e proteção social, preservando competências nacionais.
Redução de tarifas e tratamento para setores sensíveis
O capítulo dedicado ao comércio de bens prevê eliminação ou redução gradual de tarifas de importação, conforme cronogramas definidos em anexos do acordo.
Alguns produtos considerados estratégicos para a economia de cada país receberão tratamento especial, com prazos mais longos ou exclusões da liberalização comercial.
Segundo a relatora do projeto, senadora Tereza Cristina (PP-MS), a principal resistência europeia nas negociações ocorreu no setor agropecuário, historicamente protegido por subsídios da Política Agrícola Comum da União Europeia.
Do lado brasileiro, a preocupação concentrou-se principalmente em setores como:
- lácteos
- vitivinicultura (uvas e vinhos)
O setor automotivo também recebeu tratamento diferenciado. Veículos e autopeças terão prazos de abertura comercial que podem variar entre 10 e 15 anos, chegando a até 30 anos no caso de novas tecnologias, medida que busca preservar a capacidade de desenvolvimento industrial do país.
Sistema de cotas para produtos agrícolas
Para setores considerados altamente sensíveis, o acordo prevê regime de cotas tarifárias, mecanismo que permite importações com tarifas reduzidas apenas até determinado limite.
No caso do Mercosul, a União Europeia estabeleceu cotas para produtos agropecuários, incluindo:
- carne bovina
- aves
- milho
- açúcar
- etanol
Por sua vez, o Mercosul instituiu cotas para alguns produtos europeus, como:
- lácteos (leite, queijos e fórmulas infantis)
- alho
De acordo com a relatora do projeto, os produtos sujeitos a cotas ou tratamentos especiais representam apenas cerca de 3% dos bens e 5% do valor das importações europeias provenientes do Mercosul.
O tratado também determina que produtos importados recebam tratamento equivalente ao dos produtos nacionais, impedindo discriminação comercial.
Defesa comercial e regras contra subsídios
O acordo estabelece mecanismos para evitar distorções comerciais, incluindo:
- aplicação de medidas de defesa comercial
- possibilidade de sobretaxas em casos de práticas desleais
- suspensão de benefícios quando houver fraude comprovada
Além disso, o tratado proíbe a concessão de subsídios agrícolas destinados a estimular exportações para o outro bloco, prática frequentemente criticada em disputas comerciais internacionais.
Outro ponto relevante é a proibição de criação de novos impostos de importação ou aumento das tarifas existentes para produtos abrangidos pelo acordo, salvo em situações excepcionais previstas no próprio tratado.
Facilitação de comércio e regras sanitárias
O texto também prevê simplificação de procedimentos aduaneiros, com o objetivo de reduzir burocracia e tornar mais transparentes as exigências para importadores e exportadores.
Entre as medidas previstas estão:
- cooperação entre autoridades aduaneiras
- troca de informações comerciais
- harmonização de procedimentos
O acordo dedica capítulos específicos às regras sanitárias e fitossanitárias, que estabelecem padrões técnicos para alimentos e produtos de origem animal e vegetal.
Essas normas devem ter base científica e técnica, além de serem divulgadas de forma transparente.
Também estão previstos espaços de diálogo entre os blocos sobre temas ligados à cadeia agroalimentar, como bem-estar animal e uso de novas tecnologias no setor agrícola.
Serviços, investimentos e compras públicas
O tratado inclui disposições sobre serviços e estabelecimento de empresas, prevendo abertura gradual de mercados e melhores condições para companhias que desejem operar no território do outro bloco.
No campo financeiro, o acordo regulamenta a circulação de capitais relacionados a investimentos e pagamentos internacionais, permitindo medidas de proteção em caso de crises econômicas graves.
Outro ponto relevante é a abertura de compras governamentais, que permitirá a empresas de um bloco participar de licitações públicas do outro, desde que observadas regras de:
- igualdade de tratamento
- transparência
- divulgação de informações
Os países terão períodos de adaptação para adequar seus sistemas administrativos às novas exigências.
Propriedade intelectual e pequenas empresas
O acordo também aborda propriedade intelectual, reafirmando compromissos internacionais já assumidos e estabelecendo regras sobre:
- direitos autorais
- patentes
- marcas
- indicações geográficas
- proteção de informações confidenciais
Há ainda um capítulo específico voltado às micro, pequenas e médias empresas, com medidas destinadas a facilitar o acesso dessas companhias às oportunidades comerciais criadas pelo acordo.
O tratado não impede a existência de empresas estatais, mas determina que, quando atuarem em atividades comerciais, devem respeitar regras de concorrência e transparência.
Comércio e desenvolvimento sustentável
O acordo vincula a ampliação das relações comerciais ao cumprimento de compromissos ambientais e trabalhistas.
Entre os temas incluídos nesse capítulo estão:
- combate às mudanças climáticas
- preservação da biodiversidade
- uso sustentável de recursos naturais
Também está prevista a participação da sociedade civil no acompanhamento da implementação do tratado, além da criação de mecanismos de cooperação entre os países.
O documento estabelece ainda regras sobre transparência administrativa, exigindo a publicação de leis e decisões relacionadas ao comércio internacional.
Os principais aspectos do Acordo de Livre Comércio entre Mercosul e União Europeia
1. Liberalização tarifária e abertura de mercado
Esta categoria reúne as medidas voltadas à redução de tarifas e ampliação do comércio de bens entre os blocos.
Principais dados:
- Mercosul eliminará tarifas para 91% dos bens europeus, com prazos que podem chegar a até 15 anos.
- União Europeia eliminará tarifas para 95% dos bens do Mercosul, com cronograma de até 12 anos.
- Parte da liberalização ocorrerá imediatamente após a entrada em vigor do acordo, enquanto outros produtos terão redução gradual de tarifas.
Objetivo: ampliar o fluxo comercial e integrar as cadeias produtivas entre América do Sul e Europa.
2. Integração industrial
O acordo estabelece condições para facilitar a exportação de produtos industriais do Mercosul para o mercado europeu.
Setores beneficiados com tarifa zero na UE:
- Máquinas e equipamentos
- Automóveis e autopeças
- Produtos químicos
- Aeronaves e equipamentos de transporte
Impacto esperado:
expansão das exportações industriais e maior inserção de empresas sul-americanas em cadeias produtivas globais.
3. Comércio agrícola e produtos sensíveis
O acordo prevê tratamento diferenciado para produtos agrícolas considerados sensíveis na União Europeia.
Produtos incluídos em regimes de cotas ou limites de importação:
- Carne bovina
- Carne de frango
- Arroz
- Mel
- Açúcar
- Etanol
Nesse modelo, os produtos podem entrar com tarifa reduzida ou zero até determinado volume, e acima desse limite passam a pagar tarifas normais.
4. Mecanismos de salvaguarda agrícola
Para evitar impactos bruscos no mercado europeu, o tratado prevê cláusulas de proteção comercial.
A União Europeia poderá reintroduzir tarifas temporariamente quando:
- as importações superarem limites definidos, ou
- os preços ficarem muito abaixo do mercado europeu, gerando distorções competitivas.
Essas medidas funcionam como instrumentos de defesa comercial.
5. Compromissos ambientais
O acordo estabelece vínculos entre comércio internacional e responsabilidade ambiental.
Entre os compromissos:
- Produtos beneficiados pelo acordo não poderão estar associados ao desmatamento ilegal.
- O tratado poderá ser suspenso em caso de descumprimento do Acordo de Paris sobre mudanças climáticas.
Essas cláusulas refletem a crescente incorporação de exigências ambientais nas relações comerciais internacionais.
6. Regras sanitárias e fitossanitárias
A União Europeia manterá padrões sanitários rigorosos, especialmente para alimentos e produtos agropecuários.
Isso significa que:
- não haverá flexibilização automática das exigências sanitárias;
- exportadores do Mercosul deverão cumprir normas técnicas e científicas europeias.
Esse ponto é considerado um dos principais desafios para produtores agrícolas sul-americanos.
7. Serviços e investimentos
O tratado também amplia a integração em setores econômicos não industriais.
Principais mudanças:
- redução de barreiras para investidores estrangeiros;
- abertura gradual de mercados de serviços.
Setores potencialmente beneficiados:
- serviços empresariais e financeiros
- telecomunicações
- transporte
8. Compras públicas
O acordo permite maior participação internacional em licitações governamentais.
Principais pontos:
- empresas do Mercosul poderão disputar licitações públicas na União Europeia;
- regras de transparência e igualdade de tratamento serão aplicadas.
Isso amplia o acesso de empresas sul-americanas ao mercado europeu de compras governamentais, considerado um dos maiores do mundo.
9. Propriedade intelectual e indicações geográficas
O tratado inclui regras de proteção à propriedade intelectual.
Entre elas:
- reconhecimento de cerca de 350 indicações geográficas europeias, vinculadas à origem de determinados produtos.
Essas indicações protegem nomes associados a regiões específicas, como alimentos e bebidas tradicionais.
10. Apoio a pequenas e médias empresas
O acordo inclui mecanismos voltados às micro, pequenas e médias empresas (PMEs).
Principais medidas:
- redução de custos burocráticos para exportação;
- maior acesso a informações comerciais e oportunidades de mercado.
O objetivo é permitir que empresas menores participem do comércio internacional gerado pelo acordo.
Síntese estrutural do acordo
Os dados do tratado podem ser resumidos em cinco grandes eixos estratégicos:
- Abertura comercial – redução de tarifas e ampliação do comércio de bens.
- Integração econômica – serviços, investimentos e compras públicas.
- Proteção regulatória – salvaguardas comerciais e regras sanitárias.
- Sustentabilidade – compromissos ambientais vinculados ao comércio.
- Governança econômica – propriedade intelectual e apoio às pequenas empresas.
Em termos geopolíticos e econômicos, o acordo cria uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, conectando mercados que somam mais de 700 milhões de consumidores e consolidando um dos projetos de integração econômica mais longamente negociados da história contemporânea do comércio internacional.







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