A pesquisa nacional do Instituto Datafolha realizada entre 3 e 5 de março de 2026, com 2.004 entrevistas em 137 municípios, margem de erro de dois pontos percentuais e registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-03715/2026, oferece uma fotografia reveladora do atual momento político brasileiro. O levantamento indica que a eleição presidencial de 2026 caminha para reproduzir — ainda que com nuances próprias — o padrão de polarização que domina o país desde 2018.
No principal cenário testado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece com 38% das intenções de voto, seguido pelo senador Flávio Bolsonaro (PL), com 32%, enquanto os demais candidatos permanecem em patamares significativamente menores. A leitura política desses números revela três tendências estruturais do sistema eleitoral brasileiro: polarização consolidada, fragmentação da oposição e elevado índice de rejeição aos principais líderes políticos.
A primeira constatação é que o país permanece dividido entre dois campos políticos claramente definidos. Somados, Lula e Flávio concentram cerca de 70% das preferências eleitorais, o que indica que a disputa presidencial continua organizada em torno de dois polos ideológicos: o lulismo e o bolsonarismo. Trata-se de um fenômeno típico de sistemas políticos altamente polarizados, nos quais identidades políticas se tornam mais determinantes do que programas ou propostas específicas de governo.
No caso do atual presidente, os números mostram uma base eleitoral sólida e relativamente estável. Lula mantém liderança consistente em diferentes cenários de primeiro turno e aparece competitivo em todas as simulações de segundo turno. O levantamento indica que o petista apresenta desempenho superior entre eleitores de baixa renda, pessoas com menor escolaridade, idosos e habitantes do Nordeste, segmentos que historicamente compõem o núcleo social de sustentação do lulismo.
Contudo, essa força eleitoral convive com um limite evidente: a elevada rejeição. Segundo o levantamento, 46% dos entrevistados afirmam que não votariam em Lula de maneira alguma, um índice que revela um teto eleitoral relativamente rígido. Em outras palavras, o presidente lidera a disputa, mas enfrenta dificuldades estruturais para ampliar significativamente sua base de apoio.
Outro dado relevante é a redução da vantagem em cenários de segundo turno. Em dezembro de 2025, Lula aparecia com vantagem confortável sobre o campo bolsonarista. Agora, a disputa direta contra Flávio Bolsonaro mostra 46% para Lula e 43% para o senador, dentro da margem de erro. A diferença diminuiu de forma significativa, sinalizando que a oposição conseguiu reorganizar parte de seu eleitorado.
Nesse contexto, o crescimento de Flávio Bolsonaro é talvez o fenômeno mais expressivo do levantamento. O senador surge como principal herdeiro político do capital eleitoral do bolsonarismo. Sua ascensão é particularmente visível na pergunta espontânea — quando os entrevistados citam candidatos sem receber uma lista — na qual Flávio alcança 12% das menções, um salto considerável em relação às pesquisas anteriores.
O desempenho do senador também revela uma base social bastante definida. Ele apresenta vantagem entre evangélicos, eleitores de renda mais alta e habitantes das regiões Sul e Centro-Oeste/Norte, segmentos que compõem o núcleo sociopolítico do movimento bolsonarista. Essa configuração confirma que o bolsonarismo permanece como uma força política organizada, mesmo após as turbulências institucionais e eleitorais dos últimos anos.
Entretanto, assim como Lula, Flávio Bolsonaro enfrenta um obstáculo relevante: a rejeição. O senador registra 45% de eleitores que afirmam não votar nele em hipótese alguma, índice praticamente idêntico ao do presidente. Esse dado reforça a tese de que a eleição tende a ser marcada por um ambiente de polarização negativa, no qual muitos eleitores votam menos por entusiasmo e mais para impedir a vitória do adversário.
Outro aspecto relevante da pesquisa é a dificuldade dos candidatos de centro ou centro-direita em se consolidarem como alternativa nacional. Governadores como Tarcísio de Freitas, Ratinho Junior, Romeu Zema e Ronaldo Caiado aparecem com percentuais modestos nas simulações de primeiro turno, geralmente abaixo da faixa de dois dígitos.
Essa fragmentação do campo oposicionista ajuda a explicar por que a disputa permanece concentrada entre Lula e o bolsonarismo. Sem convergência em torno de um nome capaz de unificar esse eleitorado, os candidatos alternativos tendem a permanecer como coadjuvantes no processo eleitoral.
Um dado particularmente revelador é o cenário em que Lula não aparece como candidato e o ministro da Fazenda Fernando Haddad assume a representação do PT. Nesse caso, o quadro muda de forma significativa: Flávio Bolsonaro passa a liderar com 33%, enquanto Haddad aparece com 21%. O resultado indica que o desempenho eleitoral do campo governista ainda depende fortemente da figura política de Lula.
Essa dependência reforça uma característica persistente da política brasileira: a centralidade das lideranças personalistas. Mesmo após décadas de redemocratização e consolidação institucional, o sistema partidário continua fortemente influenciado por figuras individuais com grande capital político.
Em síntese, a pesquisa do Datafolha revela um cenário eleitoral aberto, competitivo e fortemente polarizado. Lula permanece como o candidato mais forte no primeiro turno, sustentado por uma base social consistente. Flávio Bolsonaro emerge como principal representante do campo conservador e demonstra capacidade de mobilização eleitoral relevante. Ao mesmo tempo, ambos enfrentam índices elevados de rejeição, o que tende a tornar a disputa imprevisível.
Se a eleição fosse hoje, o país caminharia para uma disputa novamente marcada pela polarização entre lulismo e bolsonarismo. No entanto, ainda há tempo suficiente para mudanças de cenário, especialmente caso o campo oposicionista encontre um candidato capaz de unificar suas forças ou se novas variáveis políticas e econômicas alterarem o humor do eleitorado.
A política brasileira tem demonstrado, ao longo de sua história, que raramente segue roteiros previsíveis. O levantamento mostra apenas o estado atual da corrida eleitoral. O desfecho da eleição de 2026 continuará sendo definido por uma combinação complexa de fatores: desempenho do governo, reorganização das forças políticas e, sobretudo, o comportamento de um eleitorado cada vez mais dividido.
Os principais dados da pesquisa eleitoral de março de 2026 segundo Datafolha
A mais pesquisa nacional do Instituto Datafolha sobre a eleição presidencial de 2026 indica que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lidera os cenários de primeiro turno, mas enfrenta competição mais equilibrada com o senador Flávio Bolsonaro (PL). O levantamento mostra Lula com 38% das intenções de voto contra 32% de Flávio no principal cenário estimulado. No segundo turno, a disputa entre os dois aparece tecnicamente empatada, com 46% para Lula e 43% para Flávio, dentro da margem de erro.
A pesquisa foi realizada entre 3 e 5 de março de 2026, com 2.004 entrevistas presenciais em 137 municípios brasileiros, e possui margem de erro máxima de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. O levantamento foi contratado pelo jornal Folha de S.Paulo e está registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-03715/2026.
Cenários de primeiro turno
No principal cenário testado pelo Datafolha — com Lula, Flávio Bolsonaro, Ratinho Junior, Romeu Zema, Renan Santos e Aldo Rebelo — os resultados foram:
- Lula (PT): 38%
- Flávio Bolsonaro (PL): 32%
- Ratinho Junior (PSD): 7%
- Romeu Zema (Novo): 4%
- Renan Santos (Missão): 3%
- Aldo Rebelo (DC): 2%
- Brancos ou nulos: 11%
- Indecisos: 3%
O levantamento também simulou variações com outros nomes no campo de centro-direita.
Cenário com Tarcísio de Freitas
Quando o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos) substitui Flávio Bolsonaro como principal adversário, os números são:
- Lula (PT): 39%
- Tarcísio de Freitas: 21%
- Ratinho Junior (PSD): 11%
- Romeu Zema (Novo): 5%
- Renan Santos (Missão): 3%
- Aldo Rebelo (DC): 2%
- Brancos ou nulos: 15%
- Indecisos: 4%
Nesse cenário, os candidatos que não Lula somam 42% das intenções de voto, indicando fragmentação do campo oposicionista.
Cenário com Ronaldo Caiado
Outra simulação considera Ronaldo Caiado (PSD):
- Lula: 39%
- Flávio Bolsonaro: 33%
- Romeu Zema: 5%
- Ronaldo Caiado: 4%
- Renan Santos: 3%
- Aldo Rebelo: 2%
- Brancos ou nulos: 12%
- Indecisos: 3%
Cenário com Eduardo Leite
Quando o nome testado é o governador gaúcho Eduardo Leite (PSD):
- Lula: 39%
- Flávio Bolsonaro: 34%
- Romeu Zema: 4%
- Eduardo Leite: 3%
- Renan Santos: 3%
- Aldo Rebelo: 2%
- Brancos ou nulos: 12%
- Indecisos: 3%
Cenário sem Lula: Haddad perde liderança
O levantamento também avaliou a hipótese de Fernando Haddad (PT) substituir Lula como candidato governista.
Nesse caso, o quadro muda significativamente:
- Flávio Bolsonaro: 33%
- Fernando Haddad: 21%
- Ratinho Junior: 11%
- Romeu Zema: 5%
- Renan Santos: 4%
- Aldo Rebelo: 2%
- Brancos ou nulos: 20%
- Indecisos: 4%
Entre os eleitores que aprovam o governo Lula, 39% votariam em Haddad, enquanto 25% permaneceriam indecisos.
Pesquisa espontânea
Na pergunta espontânea — quando o entrevistado cita um nome sem receber lista de candidatos — os resultados foram:
- Lula: 25%
- Flávio Bolsonaro: 12%
- Jair Bolsonaro: 3%
- Outras respostas: 5%
- Brancos/nulos/nenhum: 8%
- Não vota: 1%
- Não sabe: 44%
O dado mais expressivo é a queda da indecisão espontânea, que passou de 54% em dezembro para 44% em março.
Rejeição dos candidatos
Os dois principais nomes também apresentam os maiores índices de rejeição.
Percentual de eleitores que afirmam não votar de jeito nenhum em cada candidato:
- Lula (PT): 46%
- Flávio Bolsonaro (PL): 45%
- Fernando Haddad (PT): 27%
- Ratinho Junior (PSD): 19%
- Tarcísio de Freitas: 18%
- Romeu Zema (Novo): 17%
- Eduardo Leite (PSD): 15%
- Renan Santos (Missão): 14%
- Ronaldo Caiado (PSD): 14%
- Aldo Rebelo (DC): 12%
Simulações de segundo turno
Lula x Flávio Bolsonaro
- Lula: 46%
- Flávio Bolsonaro: 43%
- Brancos ou nulos: 10%
- Não sabem: 1%
O cenário representa forte redução da vantagem de Lula em relação a dezembro, quando o presidente tinha 51% contra 36% do adversário.
Lula x Tarcísio de Freitas
- Lula: 45%
- Tarcísio: 42%
- Brancos ou nulos: 11%
- Indecisos: 2%
Lula x Ratinho Junior
- Lula: 45%
- Ratinho Junior: 41%
- Brancos ou nulos: 13%
- Indecisos: 2%
Lula x Ronaldo Caiado
- Lula: 46%
- Caiado: 36%
- Brancos ou nulos: 16%
- Indecisos: 2%
Lula x Eduardo Leite
- Lula: 46%
- Eduardo Leite: 34%
- Brancos ou nulos: 18%
- Indecisos: 2%
Outros cenários de segundo turno
- Flávio Bolsonaro x Haddad: 43% a 41%
- Haddad x Ratinho Junior: 40% a 40%
Desempenho por perfil do eleitorado
O levantamento identificou padrões relevantes de apoio entre segmentos sociais.
Lula tem desempenho acima da média:
- Nordeste: 53% contra 24% de Flávio
- Eleitores com renda até 2 salários mínimos: 42% a 28%
- Escolaridade fundamental: 46% a 25%
- Eleitores com 60 anos ou mais: 42% a 25%
Flávio Bolsonaro apresenta vantagem:
- Evangélicos: 48% a 21%
- Região Sul: 38% a 28%
- Centro-Oeste/Norte: 41% a 32%
- Eleitores com renda acima de 10 salários mínimos: 40% a 25%
Entre homens, o senador aparece à frente no segundo turno (49% a 41%), enquanto Lula lidera entre mulheres (50% a 37%).
*Carlos Augusto, jornalista, cientista social e editor do Jornal Grande Bahia.








Deixe um comentário