Na segunda-feira (16/03/2026), o Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) lançou o Infra-BR – Índice Confea de Infraestrutura do Brasil, uma plataforma pública que avalia as condições de infraestrutura das 27 unidades da federação. No primeiro levantamento, a Bahia obteve 47,86 pontos e ocupa a 14ª posição nacional, resultado que evidencia avanços em áreas como água, energia e conectividade, mas também revela fragilidades estruturais em saneamento básico, mobilidade urbana e resiliência ambiental. A iniciativa reúne dados organizados em seis dimensões, 20 componentes e 67 indicadores, com o objetivo de orientar políticas públicas e priorização de investimentos no setor.
O índice surge em um contexto em que o Brasil investe cerca de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) em infraestrutura, segundo levantamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), percentual considerado insuficiente para atender às necessidades do país. Estudos apontam que seriam necessários aproximadamente 4,5% do PIB para garantir expansão e modernização adequadas da infraestrutura nacional.
Além do baixo volume de investimentos, relatórios internacionais também destacam problemas de transparência e diagnóstico, fatores que dificultam o planejamento de longo prazo. A “Revisão da Integridade da OCDE sobre o Brasil 2025” identificou lacunas na organização e divulgação de informações relacionadas à infraestrutura, apontando esse aspecto como um dos obstáculos para o crescimento econômico sustentável.
Infra-BR: plataforma nacional para diagnóstico da infraestrutura
O Infra-BR foi desenvolvido pelo Confea com base em metodologia semelhante à utilizada pela American Society of Civil Engineers (ASCE) e em parceria com a equipe responsável pelo IPS-Brasil (Índice de Progresso Social). A ferramenta atribui notas de 0 a 100 pontos para cada estado brasileiro, combinando dados que refletem tanto os avanços já realizados quanto os desafios ainda existentes.
Segundo o presidente do Confea, Vinicius Marchese, o objetivo central do índice é oferecer informações qualificadas que orientem a aplicação de recursos públicos.
“A infraestrutura é um desafio para o desenvolvimento brasileiro, mas o maior obstáculo é identificar onde aplicar os recursos, em qual estado e em qual segmento. Com esses indicadores, será possível distinguir o que é urgente do que pode ser planejado, fortalecendo a lógica de priorização baseada em evidências”, afirmou.
De acordo com Marchese, o índice pode se tornar um instrumento relevante para a tomada de decisão por gestores públicos e lideranças políticas, permitindo direcionar investimentos para áreas com maior impacto social e econômico.
Desigualdade regional reduz média nacional
O levantamento também evidencia fortes disparidades entre as regiões brasileiras, que influenciam diretamente a média nacional de infraestrutura.
No topo do ranking aparece o Distrito Federal, com 74,67 pontos, enquanto o Acre ocupa a última posição, com 28,46 pontos. Entre os estados com desempenho acima da média nacional, seis pertencem às regiões Sul e Sudeste, enquanto cinco dos sete piores resultados estão na região Norte.
No Nordeste, o saneamento básico aparece como um dos principais gargalos estruturais. Estados como Pernambuco registram apenas 31,02 pontos nessa dimensão, enquanto o Maranhão alcança 18,85. No caso do Acre — último colocado no ranking geral — a pontuação em saneamento é ainda menor, 11,28 pontos.
Para efeito comparativo, o Paraná registra 76,29 pontos em saneamento, enquanto o Distrito Federal atinge 80,19, demonstrando o contraste entre diferentes regiões do país.
Infraestrutura na Bahia: contrastes entre dimensões avaliadas
Na Bahia, o índice revela resultados heterogêneos entre diferentes áreas da infraestrutura.
A melhor avaliação aparece na dimensão Água, com 66,24 pontos, indicador que considera aspectos relacionados à qualidade e distribuição do recurso. Em seguida aparecem Energia e Conectividade, com 54,92 pontos, dimensão que inclui telecomunicações, geração e distribuição de energia.
Outras áreas estruturais, porém, apresentam desempenho inferior:
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Mobilidade: 45,89 pontos
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Bem-Estar Social e Cidadania: 46,12 pontos
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Saneamento Básico: 39,74 pontos
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Meio Ambiente e Resiliência: 34,24 pontos
O último indicador, que apresentou o pior desempenho no estado, avalia fatores como adaptação climática, conservação ambiental e cobertura vegetal.
A Bahia, maior estado do Nordeste em extensão territorial, enfrenta desafios logísticos relevantes relacionados à conectividade regional, infraestrutura urbana e adaptação às mudanças climáticas.
Ferramenta para planejamento e definição de prioridades
Para o presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia da Bahia (Crea-BA), Joseval Carqueija, o índice pode servir como instrumento estratégico para orientar decisões de investimento no estado.
Segundo ele, a diversidade territorial da Bahia exige planejamento baseado em dados estruturados.
“O estado tem realidades muito distintas entre suas regiões. Ter um diagnóstico estruturado como o Infra-BR permite identificar com mais precisão onde estão os principais gargalos e quais investimentos precisam ser priorizados para ampliar o desenvolvimento e melhorar a qualidade de vida da população”, afirmou.
Carqueija também ressaltou que o acesso público às informações pode ampliar a transparência e qualificar o debate sobre infraestrutura, permitindo que gestores, profissionais da engenharia e cidadãos acompanhem os indicadores e a evolução das políticas públicas.
“Quando gestores públicos, profissionais da engenharia e a sociedade passam a ter acesso a indicadores claros e comparáveis, as decisões deixam de ser baseadas apenas em percepções e passam a se apoiar em evidências”, acrescentou.
Dimensões avaliadas pelo índice
O Infra-BR analisa áreas em que a engenharia possui atuação direta, organizadas em seis dimensões principais:
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Energia e Conectividade: telecomunicações, geração, transmissão e distribuição de energia
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Mobilidade: deslocamento urbano, rodovias, portos, aeroportos e escoamento de cargas
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Água: qualidade e distribuição de recursos hídricos
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Bem-Estar Social e Cidadania: infraestrutura de saúde, educação, moradia, assistência social, cultura e esporte
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Meio Ambiente e Resiliência: adaptação climática, conservação ambiental e cobertura vegetal
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Saneamento Básico: coleta de resíduos sólidos e tratamento de esgoto
De acordo com Telma Hoyler, doutora em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP) e integrante da equipe de formulação do índice, a criação de métricas padronizadas é fundamental para avaliar resultados concretos das políticas públicas.
“Sem métricas claras, governos podem acabar concentrando esforços apenas na execução orçamentária sem avaliar se os investimentos estão produzindo resultados reais para a população”, afirmou.
Acesso público aos dados
O Infra-BR – Índice Confea de Infraestrutura do Brasil estará disponível gratuitamente ao público por meio do site do Confea e da plataforma oficial http://www.infrabr.org.br, permitindo acesso aos indicadores detalhados de cada estado.
A atualização anual da base de dados permitirá acompanhar tendências estruturais e medir o impacto de políticas públicas ao longo do tempo, fornecendo subsídios para planejamento de longo prazo.








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