Na terça-feira (14/04/2026), a Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e a Associação dos Docentes da UEFS (Adufs) intensificaram o debate público em torno das minutas de resolução que tratam de programas de inovação tecnológica. Enquanto a Adufs convocou uma roda de conversa para discutir o que classifica como risco de privatização da universidade, a gestão da instituição divulgou nota técnica defendendo que as propostas representam modernização, regulação institucional e fortalecimento da missão pública da universidade.
Adufs mobiliza comunidade acadêmica contra suposta privatização
A Adufs anunciou a realização de uma roda de conversa intitulada “Contra a Privatização da UEFS”, marcada para o dia 16 de abril, às 14h, no hall da Reitoria. O objetivo é discutir as minutas que serão apreciadas nos conselhos superiores — Consu e Consepe — e ampliar o debate entre docentes, estudantes e técnicos.
De acordo com a entidade, as propostas, sob o argumento de inserção da inovação tecnológica, estariam abrindo espaço para a aproximação com a iniciativa privada, o que, na avaliação da diretoria, pode comprometer princípios estruturantes da universidade pública, como a autonomia institucional.
A associação sustenta que as mudanças colocariam atividades acadêmicas “à disposição do setor privado”, o que exigiria maior debate interno. Nesse sentido, a Adufs convoca a comunidade acadêmica a participar ativamente da discussão, destacando a necessidade de uma construção coletiva em defesa de um modelo de universidade “democrático e transparente”.
UEFS nega privatização e destaca base legal das propostas
Em resposta às críticas, a gestão da UEFS divulgou uma nota técnica na segunda-feira (13/04/2026), afirmando que não há qualquer processo de privatização nas propostas em discussão. Segundo o documento, os programas seguem diretrizes estabelecidas pela Lei de Inovação (Lei nº 10.973/2004) e pelo Marco Legal da Inovação (Lei nº 13.243/2016), que incentivam a cooperação entre universidades, setor produtivo e sociedade.
A universidade argumenta que a criação dos programas — PROBITEC, PIBAT e PIBET — está alinhada a uma política pública nacional de estímulo à inovação, com foco no desenvolvimento científico, tecnológico e social.
De acordo com a nota, a iniciativa busca fortalecer o ecossistema de inovação, ampliar a integração entre ensino, pesquisa e extensão e gerar impacto social a partir do conhecimento produzido. A gestão enfatiza que a inovação não se limita ao mercado, podendo atender demandas como:
- Agricultura familiar
- Saúde coletiva
- Gestão pública
- Sustentabilidade ambiental
Governança institucional e autonomia universitária
A Reitoria destaca que a governança dos programas permanecerá sob controle da própria universidade, por meio de órgãos internos como:
- InovaUEFS
- Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação
- Pró-Reitoria de Extensão
Segundo o documento, não há previsão de transferência de patrimônio, controle ou autonomia para entes privados, nem vínculo empregatício decorrente das bolsas.
A gestão sustenta ainda que os programas seguem o modelo tradicional de fomento acadêmico, semelhante a iniciativas como PIBIC e PIBEX, e que eventuais críticas devem se concentrar em critérios de seleção e avaliação, e não na existência dos programas em si.
Papel estratégico da UEFS no desenvolvimento regional
A nota institucional também contextualiza o papel da UEFS no interior do Nordeste, destacando sua relevância como polo de produção de conhecimento e formação de recursos humanos qualificados.
Segundo a universidade, a ausência de políticas estruturadas de inovação poderia aprofundar desigualdades regionais, concentrando capacidades tecnológicas em centros mais desenvolvidos. Por outro lado, o fortalecimento da inovação contribuiria para:
- Dinamização econômica local
- Apoio a micro e pequenas empresas
- Geração de emprego qualificado
- Retenção de talentos
A gestão reforça que a inovação universitária está associada à soberania científica e tecnológica, elemento considerado essencial para o desenvolvimento nacional.
UEFS e ADUFS entre modernização institucional e a resistência corporativa
O impasse entre a Associação dos Docentes da Universidade Estadual de Feira de Santana (Adufs) e a Reitoria da UEFS evidencia uma disputa central sobre o papel da inovação tecnológica na universidade pública. De um lado, a entidade docente sustenta que as propostas podem representar riscos à autonomia institucional e à natureza pública da universidade. De outro, a gestão afirma que as iniciativas estão alinhadas ao marco legal brasileiro e reforçam o compromisso social da instituição.
Carlos Augusto, jornalista, cientista social e editor do Jornal Grande Bahia, avalia que a posição adotada pela gestão da UEFS está alinhada a uma compreensão contemporânea e juridicamente fundamentada do papel das universidades públicas no século XXI.
Ao incorporar a inovação tecnológica como eixo estruturante de sua atuação, a instituição não apenas cumpre as diretrizes legais previstas no ordenamento jurídico brasileiro, como também responde a uma demanda histórica por maior eficiência, ampliação do impacto social e integração com a realidade econômica. Trata-se, segundo sua análise, de uma evolução necessária, sobretudo em regiões onde a universidade pública exerce papel estratégico no desenvolvimento local, na produção de conhecimento aplicado e na dinamização econômica.
Em contraste, a postura da Adufs é caracterizada por um viés corporativo e conservador, que tende a interpretar a aproximação com o setor produtivo como uma ameaça institucional, desconsiderando os instrumentos legais e mecanismos de governança que regulam essas interações. Esse tipo de posicionamento, ancorado em uma visão ultrapassada da universidade, contribui para a estagnação administrativa e acadêmica, dificultando a adoção de práticas que ampliem a relevância social e a efetividade das instituições públicas.
No plano mais amplo, o embate evidencia uma distorção estrutural do Estado brasileiro, marcada pelo peso de um sindicalismo estatal que, ao priorizar a preservação de estruturas rígidas e pouco eficientes, compromete a qualidade da prestação de serviços públicos. Esse padrão, reiterado ao longo das décadas, reforça a percepção social de ineficiência crônica do setor público, abrindo espaço para o fortalecimento de discursos favoráveis à privatização.
Nesse contexto, a modernização defendida pela UEFS não configura uma ameaça à universidade pública, mas sim uma tentativa concreta de resgatar sua relevância, eficiência e legitimidade perante a sociedade, preservando sua função histórica enquanto agente de desenvolvimento e transformação social.











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