Um relatório conjunto da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) e da Organização Meteorológica Mundial (OMM) revelou na quarta-feira (22/04/2026) que episódios de calor extremo registrados entre 2023 e 2024 provocaram queda significativa na produção agrícola brasileira, afetando especialmente a soja e a pecuária, além de impactar a aquicultura e intensificar eventos climáticos extremos como incêndios florestais e enchentes. O estudo aponta que temperaturas até 5 °C acima da média comprometeram ciclos produtivos e ampliaram prejuízos econômicos em diferentes regiões do país.
Impactos diretos sobre a produção agrícola
O levantamento destaca que o calor extremo coincidiu com fases críticas do desenvolvimento das lavouras, sobretudo nas regiões Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste. A soja, principal commodity agrícola brasileira, foi particularmente afetada.
Durante o período analisado, as temperaturas superaram o limite crítico de 30 °C em mais de 60% dos dias entre outubro de 2023 e maio de 2024, resultando em estresse térmico severo nas plantas. Como consequência, houve redução da produtividade, com a safra atingindo 147,7 milhões de toneladas — aproximadamente 10% abaixo das projeções iniciais.
Outras culturas relevantes, como milho, feijão, cana-de-açúcar e batata, também sofreram efeitos adversos, com aumento na incidência de pragas e doenças, agravando o cenário produtivo.
Pecuária sob pressão e aumento de custos
O setor pecuário enfrentou impactos igualmente expressivos. O relatório indica que, no Centro-Oeste, suínos foram submetidos a estresse térmico intenso por mais de 20 dias por mês, comprometendo o consumo de ração e o ganho de peso.
No caso do gado bovino, os efeitos foram ainda mais severos, com redução na produção de leite — uma perda considerada irreversível. Além disso, a exposição prolongada ao calor extremo provocou danos fisiológicos e prejuízos reprodutivos, ampliando os custos operacionais dos produtores.
Esse cenário reforça a fragilidade estrutural de sistemas produtivos altamente dependentes de condições climáticas estáveis.
Aquicultura afetada e mortalidade de peixes
O aumento da temperatura da água também impactou a produção aquícola, especialmente espécies sensíveis como salmão e truta. O aquecimento reduziu os níveis de oxigênio disponível, ao mesmo tempo em que elevou o metabolismo dos peixes.
Essa combinação resultou em maior vulnerabilidade a doenças e aumento da mortalidade, registrada em diferentes estágios de desenvolvimento, desde embriões até adultos. Em Campos do Jordão, a temperatura da água atingiu o nível mais alto em uma década, agravando os impactos.
Eventos climáticos extremos ampliam prejuízos
O relatório também aponta que o calor extremo contribuiu para a ocorrência de incêndios florestais em larga escala, que devastaram áreas equivalentes ao território da Itália, além de provocar poluição atmosférica significativa.
Simultaneamente, o fenômeno climático esteve associado a episódios de chuvas intensas e enchentes no Rio Grande do Sul, entre abril e maio de 2024. O estado, responsável por mais de 70% da produção nacional de arroz, registrou queda de produtividade de 3,6%.
A combinação de eventos extremos evidencia a crescente instabilidade climática e seus efeitos sistêmicos sobre a produção de alimentos.
Tendência de agravamento climático
De acordo com o estudo, a frequência, intensidade e duração dos episódios de calor extremo aumentaram de forma significativa ao longo das últimas cinco décadas. Esse padrão representa uma ameaça direta aos sistemas agroalimentares e à segurança alimentar global.
O conceito de calor extremo, segundo o relatório, envolve períodos prolongados em que temperaturas diurnas e noturnas ultrapassam os padrões históricos, provocando estresse fisiológico e danos diretos em culturas, animais e seres humanos.











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