São Jorge: celebrações do dia 23 de abril reúnem fiéis e evidenciam força do sincretismo religioso no Brasil

Na quinta-feira (23/04/2026), milhares de fiéis em todo o Brasil participam das celebrações dedicadas a São Jorge, santo de forte apelo popular que transcende o catolicismo e se consolida como símbolo religioso também em outras tradições. A data, que é feriado no estado do Rio de Janeiro desde 2008, marca a devoção ao chamado “Santo Guerreiro”, oficializado como padroeiro fluminense em 2019, reunindo missas, rituais e manifestações culturais em diferentes regiões do país.

Origem histórica e significado religioso

São Jorge é reconhecido pela tradição cristã como mártir da Igreja Católica, tendo sido morto no ano 303 por se recusar a renunciar à fé cristã durante o governo do imperador romano Diocleciano. De acordo com registros históricos e relatos do Vaticano, ele teria nascido na Capadócia, região da atual Turquia, por volta do ano 280, e atuado como soldado do exército romano.

No imaginário religioso, São Jorge é associado à coragem, proteção e à vitória do bem sobre o mal. Essa simbologia é reforçada pela representação clássica do santo montado a cavalo, empunhando uma lança e derrotando um dragão — imagem que se tornou um dos ícones mais difundidos da tradição cristã ao longo dos séculos.

Apesar de sua popularidade, a figura de São Jorge também é cercada por narrativas consideradas lendárias. Em 1969, sob o pontificado de Paulo VI, sua celebração foi retirada do calendário litúrgico universal obrigatório do Vaticano, passando a ser considerada memória facultativa, em razão da escassez de registros históricos comprovados sobre sua vida.

Presença no Brasil e sincretismo religioso

No Brasil, São Jorge ocupa posição de destaque tanto no catolicismo quanto em outras tradições religiosas. Sua devoção se estende à Igreja Anglicana e à Igreja Ortodoxa, além de assumir papel central no sincretismo religioso brasileiro.

Nas religiões afro-brasileiras, especialmente na umbanda e no candomblé, o santo é frequentemente associado a Ogum, orixá guerreiro ligado ao ferro, à guerra e à tecnologia. Em determinadas regiões, como na Bahia, também há associações com Oxóssi, orixá da caça e da abundância.

Esse processo de associação remonta ao período da escravidão, quando africanos escravizados passaram a relacionar seus orixás a santos católicos como forma de preservar suas crenças diante da repressão religiosa. O resultado foi a formação de um sistema simbólico híbrido, que permanece vivo nas práticas religiosas contemporâneas.

Além disso, há registros da presença simbólica de São Jorge em outras tradições, como no Islã, onde sua figura é frequentemente relacionada a Al-Khidr, entidade associada à sabedoria e à proteção espiritual.

Celebrações e manifestações culturais

As comemorações do dia 23 de abril incluem uma série de eventos tradicionais. No Rio de Janeiro, um dos principais polos de devoção, ocorre a “Alvorada de São Jorge”, com queima de fogos ao amanhecer organizada pela Igreja Matriz de São Jorge, no bairro de Quintino, seguida por missas ao longo de todo o dia.

A data também mobiliza manifestações culturais, especialmente ligadas ao samba, que historicamente mantém vínculos com religiões afro-brasileiras. Escolas de samba promovem homenagens ao santo, reforçando sua presença na cultura popular carioca.

Outro elemento marcante das celebrações é a oferta de alimentos ritualísticos. Em razão da associação com Ogum, é comum a distribuição de feijoada em terreiros e espaços religiosos, prática que se difundiu amplamente e passou a integrar o calendário festivo da data.

Vestígios históricos e registros documentais

Apesar da relevância cultural e religiosa, a figura de São Jorge apresenta limitações documentais. Um dos poucos registros antigos associados ao santo é uma epígrafe grega datada do ano 368, encontrada em Eraclea de Betânia, que menciona uma igreja dedicada a “Jorge e seus companheiros mártires”.

Há também tradições que indicam a localização de seus restos mortais na cidade de Lida, em Israel, enquanto seu crânio seria preservado na igreja de São Jorge em Velabro, em Roma, conforme registros históricos ligados ao papado.

O portal Vatican News, órgão oficial de comunicação da Santa Sé, reconhece a presença de narrativas fantasiosas em torno da figura do santo, reforçando o caráter simbólico e devocional de sua trajetória.


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.




Deixe um comentário

Banner de Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
O Jornal Grande Bahia completa 19 anos de atuação contínua no ambiente digital, consolidando-se como referência do jornalismo independente na Bahia. Fundado em 2007, o veículo construiu uma trajetória marcada por rigor editorial, pluralidade temática e compromisso com a informação pública, aliando tradição jornalística, inovação tecnológica e participação qualificada no debate democrático.
Banner da Jads Foto.
Banner de Lula Fotografia.
Banner da RFI.
Banner com tema Assine o JGB no Google.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading