O governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, colocou neste sábado (09/05/2026) empresas brasileiras do setor de carnes no centro de uma megainvestigação sobre supostas práticas anticompetitivas no mercado norte-americano, em movimento que atinge diretamente a JBS Foods USA, ligada ao grupo J&F, de Joesley Batista, e a National Beef, controlada pela brasileira MBRF, resultado da fusão entre BRF e Marfrig. A ofensiva foi detalhada na segunda-feira (04/05/2026), às vésperas do encontro entre Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, realizado na quinta-feira (07/05/2026), em Washington, e expôs a convergência entre política antitruste, inflação alimentar, nacionalismo econômico e disputa por influência estrangeira em setores estratégicos dos Estados Unidos.
Investigação mira as “Quatro Grandes” da carne nos Estados Unidos
A apuração anunciada pelo governo norte-americano tem como alvo as chamadas “Quatro Grandes” do setor de carnes nos Estados Unidos, grupo formado por empresas que concentram cerca de 85% da atividade do segmento no país. Entre elas estão a JBS Foods USA, a National Beef, a Cargill e a Tyson Foods.
A presença brasileira no grupo tornou-se o ponto politicamente mais sensível da investigação. A JBS, considerada a maior processadora de carne do mundo, ocupa posição de liderança no mercado norte-americano por meio da JBS Foods USA. Já a National Beef é controlada pela MBRF, conglomerado brasileiro formado a partir da fusão entre BRF e Marfrig.
Embora a investigação tenha sido apresentada formalmente sob a justificativa de apurar condutas anticoncorrenciais, integrantes do governo Trump deram às apurações um tom mais amplo, associando o tema à segurança alimentar, à inflação e à influência de capital estrangeiro na cadeia de abastecimento dos Estados Unidos.
Peter Navarro critica peso brasileiro no setor
O conselheiro especial para Comércio e Manufatura do governo norte-americano, Peter Navarro, foi uma das principais vozes do anúncio. Ele destacou que duas das quatro maiores empresas do setor são brasileiras ou controladas por capital brasileiro, o que, segundo ele, exigiria atenção das autoridades norte-americanas.
Navarro afirmou que a preocupação do governo não se limita a eventuais abusos de preço ou formação de cartel. Para o conselheiro, a presença estrangeira em um setor considerado essencial também deve ser analisada sob a ótica da segurança econômica e do controle da cadeia de suprimentos.
A declaração reforça a linha protecionista que marcou a atuação de Navarro desde o primeiro mandato de Trump, entre 2017 e 2020. Economista com formação em Harvard, ele é considerado um dos principais formuladores da agenda comercial nacionalista do presidente norte-americano.
Encontro entre Lula e Trump ocorreu em meio à pressão sobre empresas brasileiras
A ofensiva contra gigantes brasileiras da carne coincidiu com a reunião entre Lula e Trump na Casa Branca, realizada na quinta-feira (07/05/2026). O tema, segundo o conteúdo fornecido, não integrou formalmente a agenda do encontro presidencial, mas a proximidade temporal entre a visita e o anúncio das investigações indica que a pauta está no radar das autoridades norte-americanas.
Após a reunião, em entrevista coletiva na Embaixada do Brasil em Washington, Lula comentou em tom descontraído o almoço oferecido por Trump, que incluiu filé bovino grelhado. O presidente brasileiro afirmou ter ficado curioso para saber se a carne servida era brasileira, mas disse não ter perguntado.
A declaração teve repercussão simbólica porque ocorreu no mesmo contexto em que o governo dos Estados Unidos elevava o tom contra empresas brasileiras do setor. A carne, nesse caso, deixou de ser apenas um item de comércio exterior e passou a integrar uma agenda mais ampla de diplomacia econômica.
Joesley Batista teria atuado na articulação do encontro
O empresário Joesley Batista, integrante do Conselho de Administração da J&F, holding que abriga a JBS Foods USA, teria sido um dos articuladores do encontro entre Lula e Trump, segundo informação atribuída à agência Reuters no material analisado.
Joesley também esteve em Washington na quinta-feira (07/05/2026), mesmo dia da reunião entre os presidentes, conforme informações atribuídas ao jornal O Globo. A presença do empresário na capital norte-americana aumentou a atenção sobre os bastidores do encontro e sobre os interesses empresariais envolvidos na relação bilateral.
Outro ponto de relevância política é o fato de a Pilgrim’s Pride, processadora de carne de frango subsidiária da JBS Foods USA, ter figurado entre as maiores doadoras da campanha de Trump em 2024, com aporte de US$ 5 milhões, equivalente a aproximadamente R$ 24,6 milhões.
Governo Trump associa investigação a preços dos alimentos
A investigação ocorre em um momento de preocupação do governo norte-americano com o custo de vida e, especialmente, com o preço dos alimentos. A carne é um componente relevante da inflação percebida pelos consumidores e tem impacto direto no humor do eleitorado.
Segundo especialistas citados no material analisado, a ofensiva contra grandes empresas da carne permite ao governo Trump responder a pressões domésticas, especialmente de consumidores e produtores rurais afetados por oscilações de preço e por disputas em torno das importações.
A leitura apresentada por especialistas é que a investigação possui dimensão técnica, mas também política. Ao colocar empresas estrangeiras sob escrutínio, o governo norte-americano busca reforçar a narrativa de defesa do mercado interno e de proteção da cadeia alimentar nacional.
Antitruste, inflação e nacionalismo econômico entram na agenda bilateral
A professora Priscila Caneparo, doutora em Direito das Relações Econômicas Internacionais pela PUC-SP e docente de Relações Internacionais da Unicuritiba, avaliou que a investigação contra JBS e National Beef indica uma relação Brasil-Estados Unidos marcada por antitruste, inflação alimentar e nacionalismo econômico.
Na avaliação dela, há uma contaminação da agenda bilateral por acusações ligadas à concentração de mercado e à segurança alimentar. Esse movimento fortalece o discurso protecionista e amplia a pressão sobre empresas brasileiras em setores estratégicos da economia norte-americana.
A interpretação é relevante porque mostra que a disputa ultrapassa o campo empresarial. A presença brasileira no setor de carnes dos Estados Unidos passou a ser tratada também como questão de poder econômico, influência externa e soberania produtiva.
Especialistas apontam politização da investigação
A professora Natali Hoff, doutora em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná e docente de Relações Internacionais da PUCPR, afirmou que há uma tentativa de politização e securitização da discussão sobre práticas comerciais no setor de carnes.
Segundo essa leitura, o governo Trump busca levar o debate para o campo da segurança nacional, ainda que a origem formal da investigação esteja relacionada a possíveis práticas anticoncorrenciais. O enquadramento amplia o alcance político do caso e permite ao governo mobilizar o tema junto a consumidores, pecuaristas e setores industriais.
O movimento ocorre em meio à queda de popularidade de Trump e à aproximação das eleições legislativas de meio de mandato, previstas para novembro de 2026. Nesse ambiente, a inflação alimentar tende a ocupar espaço central no debate público norte-americano.
MBRF nega irregularidades e cita governança
Em nota, a MBRF afirmou que atua em conformidade com as leis de defesa da concorrência e mantém políticas robustas de governança e compliance. A empresa também destacou que as operações da National Beef nos Estados Unidos possuem uma característica específica: a sociedade de longa data com cerca de 700 produtores locais, que detêm aproximadamente 18% do capital da companhia.
A manifestação busca afastar a percepção de que a empresa atuaria de forma desconectada da estrutura produtiva norte-americana. Ao citar a participação de produtores locais, a MBRF tenta reforçar a inserção da National Beef no próprio sistema agroindustrial dos Estados Unidos.
A BBC News Brasil informou ter procurado a JBS, a J&F, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil e os Departamentos de Agricultura e Justiça dos Estados Unidos. Até o fechamento do material original, não havia recebido resposta desses atores institucionais e empresariais.
Pontos centrais da investigação
Entre os principais elementos do caso estão:
- Apuração antitruste sobre as maiores companhias de carne dos Estados Unidos;
- Presença brasileira em duas das quatro maiores empresas do setor;
- Pressão do governo Trump sobre preços dos alimentos;
- Críticas de Peter Navarro à influência estrangeira na cadeia de abastecimento;
- Coincidência temporal entre a investigação e o encontro entre Lula e Trump;
- Resposta da MBRF baseada em governança, compliance e vínculo com produtores locais.
Possíveis impactos para o Brasil e para empresas brasileiras
A investigação pode afetar a imagem de grandes grupos brasileiros nos Estados Unidos, especialmente em um setor politicamente sensível. A carne envolve temas de comércio exterior, abastecimento, inflação, emprego, produção rural e segurança alimentar.
Para o Brasil, o caso representa um desafio diplomático. A presença de empresas brasileiras em posição de destaque no mercado norte-americano é resultado de décadas de internacionalização empresarial, mas também as expõe a tensões regulatórias e políticas em ambientes de forte nacionalismo econômico.
Para as companhias, o risco é duplo: de um lado, há o escrutínio técnico das autoridades antitruste; de outro, há o desgaste reputacional provocado por declarações públicas que associam capital estrangeiro, preços ao consumidor e supostas ameaças à cadeia de abastecimento dos Estados Unidos.
Análise crítica jornalística: investigação combina regulação, política interna e pressão diplomática
A investigação do governo Trump contra as gigantes da carne deve ser lida em dois planos. No primeiro, há uma pauta legítima de defesa da concorrência, especialmente em um mercado altamente concentrado, no qual quatro empresas respondem por parcela majoritária da atividade. Em qualquer economia de mercado madura, concentração setorial dessa magnitude justifica atenção regulatória.
No segundo plano, entretanto, o caso revela uma clara dimensão política. Ao destacar a presença brasileira entre as maiores companhias do setor, autoridades norte-americanas deslocam parte do debate para o terreno da influência estrangeira, da segurança alimentar e do nacionalismo econômico. Essa abordagem pode fortalecer o discurso interno do governo Trump, mas também cria ruído diplomático com o Brasil.
A principal tensão está na diferença entre investigar condutas empresariais específicas e transformar a nacionalidade do capital em eixo central da acusação pública. A primeira hipótese pertence ao campo regulatório; a segunda aproxima o caso de uma disputa política sobre controle de setores estratégicos. Para o Brasil, a resposta institucional exigirá cautela: defender empresas nacionais no exterior sem confundir proteção diplomática com blindagem a eventuais irregularidades.
Resumo final
O governo Trump abriu uma megainvestigação sobre supostas práticas anticompetitivas no setor de carnes dos Estados Unidos, atingindo empresas brasileiras como JBS Foods USA e National Beef, controlada pela MBRF. A ofensiva ocorre em meio à pressão por preços menores dos alimentos, ao encontro entre Lula e Trump em Washington e ao fortalecimento do discurso protecionista norte-americano, com impactos potenciais para a relação Brasil-EUA.
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Governo Trump mira JBS e MBRF em investigação antitruste sobre o setor de carnes nos EUA, em meio à pressão por preços dos alimentos, críticas à influência estrangeira e encontro entre Lula e Trump em Washington.







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